Plantas Domésticas Purificam o Ar?

Ter plantas dentro de casa pode trazer vários benefícios, mas limpar o ar não é um deles – dizem os especialistas.quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Este é um daqueles mitos que não gostávamos de ver desmistificados. As plantas domésticas, embora encantadoras, fazem muito pouco para purificar o ar de uma divisão, dizem os especialistas que estudam o ar que respiramos.

Mas se fizermos uma pesquisa rápida na internet, podemos ficar com uma ideia diferente. Os sites mais conhecidos de decoração listam várias plantas que prometem remover toxinas e produtos químicos nocivos do ar, e muitos dos retalhistas online vendem plantas que purificam o ar.

"Decidimos estudar esta questão mais aprofundadamente devido a todos os artigos e publicações que lemos na internet, em blogs de bem-estar e não só, que afirmam que as plantas melhoram a qualidade do ar", diz Michael Waring, engenheiro ambiental e especialista em qualidade do ar em interiores na Universidade Drexel, nos EUA.

Num estudo publicado recentemente no Journal of Exposure Science and Environmental Epidemiology, Michael Waring e o seu coautor reviram 12 estudos científicos que testaram 196 plantas durante a última década.

Os estudos, que concluíram que uma pequena planta doméstica conseguia remover uma variedade de toxinas, foram realizados em laboratório. Waring diz que uma das experiências envolveu colocar uma planta dentro de uma pequena câmara e submetê-la a moléculas gasosas, chamadas compostos orgânicos voláteis (COV). As experiências variaram em densidade e tempo de remoção. Um dos testes mostrou que, em apenas 24 horas, as trepadeiras comuns conseguiam remover dois terços do formaldeído a que foram expostas.

O problema destas experiências, diz Waring, é que em laboratório as câmaras densamente gasosas não simulam o ambiente doméstico ou do escritório.

Muitos dos blogs e retalhistas que comercializam plantas de purificação do ar apontam para um estudo feito pela NASA em 1989, no qual as plantas em câmaras com pouco mais de 70 centímetros de largura e comprimento foram expostas a vários gases circulados por um ventilador. Segundo os especialistas, foi este estudo, feito há 30 anos – que mostrou que as plantas conseguiam reduzir os COV em pequenos recipientes hermeticamente selados – que levou os consumidores a exagerarem o efeito das plantas em casa.

“Não estamos a afirmar que estes dados experimentais estão errados”, diz Waring, “estamos a dizer que são apenas isso: experimentais”.

Do laboratório para o lar
Para avaliar a forma como as plantas podem interagir num ambiente doméstico mais tradicional, Michael Waring calculou a taxa de entrega de ar limpo (CADR) para cada planta. O CADR mede a quantidade de ar limpo bombeado para uma sala por um purificador de ar durante um determinado período de tempo.

Normalizando e padronizando os resultados de cada estudo feito com o CADR, os cientistas conseguiram medir a limpeza do ar feita por uma planta numa divisão, comparativamente a outras estratégias comprovadas, como usar um purificador de ar mecanizado ou ter uma janela aberta.

"As plantas, apesar de removerem os COV, fazem-no tão lentamente que não conseguem competir com os mecanismos de circulação de ar já existentes nos edifícios", diz Waring.

Reduzir os COV em quantidades suficientes para impactar a qualidade do ar exigiria cerca de 10 plantas por metro quadrado. Para um apartamento pequeno, com 50 metros quadrados, seriam necessárias 500 plantas, uma verdadeira floresta.

“Tecnicamente, as plantas estão a remover uma quantidade ínfima de toxinas do ar, mas para competir com os sistemas de circulação de ar, precisaríamos de uma quantidade impraticável de plantas.”

Atualmente, a NASA cultiva plantas a bordo da Estação Espacial Internacional para produzir alimentos frescos e para "criar uma atmosfera agradável", observando que os benefícios das plantas residem na capacidade de melhorar o nosso estado mental.

O que se passa com o ar?
"Todas as pessoas que passam algum tempo numa sala de reuniões, abafada e quente, sabem qual é a sensação", diz Joe Allen, professor de Harvard que estuda a forma como o design dos edifícios influencia a nossa saúde. "O que acontece quando estamos nestes espaços? Perdemos a concentração; começamos a olhar para o relógio e, quando a porta se abre, parece que a sala se enche de vida, e nós sentimos isso. Ficamos menos sonolentos. Os nossos olhos abrem-se e sentimo-nos vivos.”

Allen descreve o seu trabalho como sendo um quantificador do senso comum – avaliando a nossa compreensão inata de que alguns espaços são mais agradáveis do que outros.

A poluição do ar interior pode vir de várias fontes. Cozinhar pode gerar material particulado, e os COV podem surgir de produtos químicos de limpeza e de revestimentos sintéticos presentes nos tapetes ou nos móveis.

"Muitas vezes, a pessoa que constrói a nossa casa tem um impacto maior na nossa saúde do que o nosso médico, e isto acontece porque é essa pessoa que controla muitos destes fatores, seja a ventilação ou os materiais de construção.”

Os especialistas dizem que a forma mais eficiente, e óbvia, de mitigar a poluição do ar em ambientes interiores é removendo a fonte. Waring enfatiza que o ar limpo não tem odores; portanto, os purificadores de ar perfumados usados pelas pessoas para pulverizar as salas não fazem mais do que as perfumar, limpando poucas toxinas.

(Extinção de plantas afeta as fundações verdes da terra.)

"Seria maravilhoso se tivéssemos todas estas plantas bonitas que nos limpam o ar", diz Elliott Gall, professor na Universidade Estadual de Portland que estuda a forma como os edifícios influenciam a qualidade do ar. “Existem maneiras mais eficazes de limpar o ar, mas exigem sistemas mecanizados que circulam o ar através de um dispositivo de filtragem."

Filtrar o ar poluído de interiores requer geralmente que se bombeie e filtre ar do exterior para o interior, mas quando o ar do exterior está igualmente poluído, algumas comunidades usam vegetação, ou “paredes de árvores”, para reduzir a poluição. Gall diz que as áreas com paredes de árvores bem projetadas reduzem cerca de 10 a 30% das emissões, mas a melhor opção continua a ser a remoção da fonte de poluição.

"Remover a poluição do ar significa geralmente reduzir uma atividade económica ou alterar a forma como as pessoas se deslocam de um lado para outro da cidade", acrescenta Gall. "Mas remover a fonte será sempre a forma mais eficaz de combater a poluição."

Melhorar as plantas domésticas
Na Universidade de Washington, o engenheiro ambiental Stuart Strand fez testes com plantas modificadas geneticamente para melhorar a remoção dos COV.

No ano passado, Stuart Strand e a sua equipa de investigação publicaram os resultados do trabalho onde modificaram geneticamente uma hera-do-diabo comum com uma proteína que se encontra no fígado de mamíferos. É a mesma proteína produzida pelo nosso corpo para quebrar o álcool. Ao longo de dois anos, conseguiram codificar plantas com uma versão da proteína obtida de coelhos. Nos testes em laboratório, as plantas modificadas geneticamente removeram mais clorofórmio e benzeno do ar do que as suas congéneres não modificadas.

Para limpar o ar substancialmente, Strand diz que seria necessário consolidar um volume grande de plantas modificadas, criando efetivamente um escoador, e seria necessário um ventilador para soprar os COV para o raio de alcance das plantas.

"Acredito que conseguimos colocar mais alguns genes na planta", diz Strand. "Estamos a trabalhar numa segunda geração de organismos modificados geneticamente para o formaldeído."

Porém, Gall tem dúvidas de que uma planta modificada geneticamente consiga melhorar significativamente a qualidade do ar.

“Cientificamente é um trabalho excelente”, diz Gall, “mas creio que, fora do ambiente de laboratório, as plantas não vão conseguir obter melhorias substanciais”.

Num relatório citado pela Bloomberg, nos últimos 3 anos, as vendas de plantas nos EUA ultrapassaram os 1.7 mil milhões de dólares, principalmente em idades entre os 18 e os 34 anos. Apesar de as plantas poderem oferecer vários benefícios a nível psicológico, como o alívio do stress, Gall, Strand, Allen e Waring sublinham que não devem ser comparadas a uma ferramenta de purificação do ar.

"Seria muito mau ver uma família com salários baixos, preocupada com a qualidade do ar, analisar as suas opções e dizer: 'Eu posso comprar um filtro de ar por 400 dólares, ou posso comprar uma planta por 30", diz Gall. “Esta planta não vai melhorar a qualidade do ar – ponto final."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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