Vacina Contra o Sarampo Também Combate Outras Doenças

Sem vacinação, este vírus altamente contagioso pode permitir o aparecimento de outras doenças, durante mais de 2 anos após uma infecção.quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O sarampo é assustadoramente infeccioso: propaga-se pelo ar e pode permanecer numa sala até duas horas depois de uma pessoa infetada sair. Esta doença é responsável por mais de 100.000 mortes por ano entre as pessoas não vacinadas.

Como se não bastasse, o perigo ainda persiste para quem sobrevive a um surto.

O sarampo enfraquece o sistema imunitário a curto prazo e as crises provocadas pelo vírus também parecem limpar a memória das defesas do nosso corpo, fazendo com que o sistema imunitário não consiga combater viroses já reconhecidas e ultrapassadas. Em algumas pessoas, esta amnésia imunitária pode durar meses ou anos após uma infeção.

Agora, dois estudos publicados na Science e na Science Immunology analisam o mecanismo específico responsável por este efeito colateral nocivo, comparando amostras de sangue de crianças não vacinadas, na Holanda, antes e depois da exposição ao sarampo.

“Estes estudos reforçam a importância da vacinação”, afirmou em conferência de imprensa Colin Russell, da Universidade de Amesterdão e autor do estudo presente na Science Immunology. Antes de a vacina ser introduzida em 1963, todas as crianças podiam ser infetadas com sarampo, e estima-se que anualmente 2.6 milhões de crianças perderam a luta contra a doença. A vacina contra o sarampo, que geralmente é combinada com a da papeira e rubéola, é incrivelmente eficaz, com duas doses a garantirem uma proteção a rondar os 97%, resultando em declínios acentuados nas taxas de mortalidade pelo mundo inteiro.

Mas nos últimos anos o sarampo começou a aumentar. De acordo com um relatório da UNICEF, em 2018, 98 países relataram mais casos do que no ano anterior. Embora as questões de infraestrutura e os conflitos civis tenham interferido nas campanhas de vacinação em algumas partes do mundo, os especialistas dizem que existe outra questão responsável pelo aumento dos casos de sarampo: a indiferença em torno da vacinação.

“Os benefícios oferecidos pelas vacinas acabam por funcionar no sentido oposto", diz Yvonne Maldonado, epidemiologista na Faculdade de Medicina de Stanford. "As pessoas não olham para as vacinas como uma intervenção importante."

Porém, os dados mostram que a vacinação é extremamente importante: quando a vacina ficou acessível, não só os casos de sarampo diminuíram abruptamente, mas as outras doenças também – pneumonia, diarreia e muito mais. Nas regiões com poucos recursos, o declínio atingiu os 50%, e nas regiões mais pobres, caiu 90%.

"Observámos toda a linha de base da mortalidade infantil a cair vertiginosamente", diz Michael Mina, de Harvard, autor de um estudo de 2015 que analisou este declínio e autor principal do novo estudo publicado na Science. Em suma, parece que a vacina contra o sarampo não se limita a proteger as populações contra o sarampo, também pode estar a afastar uma série de outras doenças infecciosas – prevenindo a chamada amnésia imunitária.

Anatomia de uma infeção

Ao longo dos anos, os cientistas recolheram inúmeras pistas sobre as misteriosas maquinações do sarampo, incluindo a propensão aparente do vírus para atacar células imunitárias. Mas faltavam algumas peças para decifrar o enigma. Um estudo de 2012, publicado na PLOS Pathogens, ofereceu uma das peças em falta.

Nesse estudo, a equipa, liderada em parte por Rik de Swart, virologista no Centro Médico da Universidade Erasmus e coautor dos dois estudos mais recentes, explorou uma necessidade viral: para se multiplicar e disseminar, um vírus precisa de invadir uma célula, sequestrando a sua maquinaria para se copiar. Seguindo este conceito, a equipa inseriu um gene no vírus do sarampo que codifica uma proteína fluorescente, e introduziu o vírus modificado em macacos. À medida que o vírus modificado invadia as células para se copiar, o seu hospedeiro ficava fluorescente, permitindo aos cientistas acompanhar os movimentos do vírus durante os vários estágios da doença.

Os cientistas observaram que em todos os tecidos linfoides dos macacos – que abrigam as células imunitárias – começaram a aparecer manchas verdes, a brilhar como se fossem estrelas no céu noturno. Estas piscadelas de luz revelaram que o vírus prefere as chamadas células de memória imunitária. Estas células registam e catalogam as infeções, ajudando a combater eficazmente os invasores repetentes. Nos estágios mais tardios da infeção, o vírus também se instala no revestimento da superfície pulmonar e no nariz, conseguindo propagar-se facilmente através da tosse.

Mas quando o sistema imunitário entrou em ação para combater a infeção, a constelação viral desapareceu. A súbita escuridão revelou um passo importante na amnésia imunitária: ao infetar as células da memória, o vírus não só elimina algumas das recordações imunitárias do corpo, como vira o sistema contra si próprio, forçando as células imunitárias saudáveis a matar as companheiras infetadas.

"Se o vírus não matasse as células da memória, o sistema imunitário terminaria o trabalho", diz Rik. "Conseguimos ver isto a acontecer mesmo à nossa frente.”

Mais tarde, a equipa confirmou que nos humanos pode acontecer um processo semelhante. Mas não se sabe exatamente a quantidade de memória imunitária perdida e provavelmente também varia de pessoa para pessoa, sublinha Rik. Ainda assim, este processo explica porque é que as doenças secundárias são tão comuns com o sarampo: o vírus não só agride a primeira linha de defesa do sistema imunitário e danifica a pele, o trato respiratório e gastrointestinal, mas também apaga as outras resistências previamente adquiridas.

Efeitos duradouros

Para Michael Mina, as entranhas brilhantes dos macacos levantaram uma questão pertinente: "Se o sarampo está essencialmente a mastigar todas as nossas células imunitárias, será que isso pode ter impactos a longo prazo na nossa memória imunitária?"

Num estudo apresentado na Science em 2015, Michael e a sua equipa tentaram responder a esta questão recorrendo a conjuntos massivos de dados dos Estados Unidos, Dinamarca, Inglaterra e País de Gales – antes e depois do início da vacinação generalizada que aconteceu na década de 1960. A análise revelou que os declínios nas doenças infantis foram muito acentuados. E quando o sarampo floresce em populações não vacinadas, cerca de metade de todas as mortes infantis podem dever-se a doenças infecciosas não relacionadas com o sarampo, mas que se desenvolveram após a infeção com sarampo.

Os efeitos são persistentes, a melhor forma de prever mortes não relacionadas com o sarampo é olhar para o número total de casos de sarampo nos 3 anos anteriores, explica Michael. Isto sugere que as crianças com sarampo têm riscos ainda mais elevados de morte por infeção nos 3 anos seguintes.

"Na realidade, são tudo associações epidemiológicas", diz Michael. "Precisamos de aprofundar a biologia."

É aí que entram os estudos mais recentes – e ajudam a revelar alguns dos meandros desta virose. Para este novo trabalho, os investigadores estudaram crianças não vacinadas, entre os 4 e os 17 anos, que frequentam escolas protestantes ortodoxas na Holanda. As equipas recolheram amostras de sangue dos alunos antes de terem sarampo, e novamente depois de um surto de sarampo que aconteceu em 2013.

O estudo da Science Immunology examinou as células B do sangue, um tipo primário de célula imunitária que consegue identificar invasores e desencadear ataques. Algumas células B estão equipadas para combater invasores específicos, e outras permanecem "ingénuas", à espera de instruções sobre o que atacar. A análise revelou que, após a infeção, o exército de células B não recuperou imediatamente, perdendo tanto as células “ingénuas” como as outras.

O estudo da Science usou um método inédito para catalogar os anticorpos, ou proteínas neutralizadoras de invasores, nas amostras de sangue. A análise revelou que o sarampo provocou um declínio na matriz de anticorpos, com números a rondar os 11 e os 73% nos dois meses que se seguiram à infeção, afetando severamente a capacidade de resposta do sistema imunitário.

Disseminação global

Portanto, as infeções secundárias podem afetar pessoas que já têm sarampo?

“Sim, acredito que podem afetar”, diz Michael. Mas os sistemas de saúde dos países mais desenvolvidos conseguem tratar estas infeções e prevenir que muitas delas se transformem em casos de mortalidade.

Mas nos países em desenvolvimento, onde algo como uma diarreia pode matar, a realidade é outra. Dado que o vírus ataca o sistema imunitário, a gravidade das infeções depende da saúde geral da população. Ou seja, o sarampo age como um amplificador para a infeção, aumentando o volume de fundo da doença. Isto significa que, em áreas com recursos limitados, o vírus provoca taxas gerais de mortalidade muito superiores.

"Em muitos dos países em desenvolvimento, vemos uma em cada 50, ou uma em cada 100 crianças a morrer de sarampo, sobretudo devido a este tipo de efeito imunitário", diz Michael. Para piorar a situação, o sarampo é contagioso, mesmo quando uma pessoa ainda não sabe que está infetada, facilitando a disseminação do vírus em viagens inocentes.

“Este vírus não tem fronteiras”, diz Rik de Swart, fazendo referência a uma citação: “Não conseguimos acabar com o sarampo, a não ser que o façamos em todo o lado.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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