Compensações de Carbono: O que São e Porque se Vendem?

As vendas estão a aumentar – mas nem todas as compensações de carbono são iguais.

Friday, December 27, 2019,
Por Sarah Gibbens
A asa de um jato voa sobre um amanhecer quente na Cidade do Cabo, na África ...
A asa de um jato voa sobre um amanhecer quente na Cidade do Cabo, na África do Sul.
Fotografia de Jason Edwards, Nat Geo Image Collection

Quando a ativista ambiental de 16 anos, Greta Thunberg, navegou pelo Oceano Atlântico num barco de emissão zero, fê-lo para realçar os milhões de toneladas de dióxido de carbono emitidas na atmosfera todos os anos pelas viagens aéreas. Se passarmos cerca de 10 horas a voar durante as festas de fim de ano, a nossa viagem pode adicionar até uma tonelada métrica de carbono à atmosfera.

Mas quem se sentir culpado por estas emissões, que têm impactos no aquecimento global, pode ficar tentado a comprar uma compensação de carbono. No ano passado, as pesquisas no Google por "compensações de carbono" aumentaram e quem as vende alega que aconteceu o mesmo com as vendas.

A empresa Cool Effect, vendedora de compensações de carbono, diz que as compras individuais das suas compensações aumentaram 700% desde maio. A Gold Standard, uma organização que certifica programas de compensação de carbono, diz que as compras individuais de compensações quadruplicaram no ano passado.

Mas esta abordagem comercial para reduzir as emissões não está isenta de críticas. Algumas pessoas dizem que o foco em ações individuais afeta as melhorias mais impactantes que acontecem quando a indústria é regulamentada.

Atualmente, os países signatários do Acordo de Paris estão a negociar regras para estabelecer um mercado internacional de carbono que compre e venda créditos de carbono, embora os especialistas digam que estas regras só afetem os emissores de grande escala, não os indivíduos que compram compensações de baixo custo.

As compensações que podemos comprar para um voo não têm supervisão governamental e nem todas têm práticas comerciais transparentes. Se quisermos comprar uma compensação para nos sentirmos um pouco menos culpados por voar, o que devemos saber?

O que são compensações de carbono?
Marisa de Belloy, CEO da Cool Effect, encara as questões climáticas como um problema de matemática.

Marisa diz que, uma compensação comprada no seu site é igual a uma tonelada métrica de emissões de carbono que não foram emitidas. O termo compensação significa apenas que estamos a usar esta tonelada para compensar outra que colocámos na atmosfera.

Os programas de redução de emissões variam desde a plantação de árvores ao fornecimento de fogões de energias limpas.

Para compensar ainda mais um voo de longa distância, um consumidor pode pagar 8.50 dólares a um programa nas Honduras que substitui as fogueiras que são feitas para cozinhar a céu aberto por fogões de tijolo e cimento que exigem menos madeira para cozinhar. A Cool Effect estima que um novo fogão consiga reduzir até 3 toneladas métricas de emissões de carbono por ano.

Porque não doar diretamente para a caridade que constrói os fogões?

"A diferença é que, quando compramos uma compensação, estamos a reduzir de forma verificável as emissões de carbono", diz Marisa. "Quando fazemos uma doação a uma grande organização ambiental sem fins lucrativos, não sabemos exatamente qual foi o impacto."

As compensações de carbono compradas voluntariamente também são distintas dos tipos de créditos de carbono usados num sistema de limitações e comércio. Sob essa estrutura regulatória, uma empresa que emita menos do que o limite legal exigido pode vender um "crédito" a uma empresa que exceda o limite legal, fugindo assim a potenciais multas.

Quais são os problemas?
“Primeiro, os consumidores e as empresas devem procurar reduzir as suas emissões, antes de procurarem compensações para as emissões que não são possíveis ou rentáveis a curto prazo”, diz Kelley Kizzier, especialista em mercados de carbono no Fundo de Defesa Ambiental.

"Existem por aí muitas compensações questionáveis", acrescenta Kelley, "e pode ser muito difícil navegar no mundo obscuro das compensações".

Para fazer realmente a diferença nas emissões de carbono, Marisa diz que os projetos de compensação precisam de cumprir um conceito que os grupos envolvidos chamam de "adicionalidade", fornecendo um benefício adicional que não teria existido sem o dinheiro do grupo de compensação de carbono.

Por exemplo, se pagássemos a alguém para preservar uma floresta, isso só contaria como uma compensação se essa floresta tivesse sido originalmente destinada para ser cortada. Um proprietário de terras que necessitasse de dinheiro e tivesse de vender madeira, seria pago para manter as suas árvores de pé. Se nunca existisse uma ameaça real à floresta, o nosso pagamento ao proprietário dos terrenos perdia o seu efeito de compensação porque o dinheiro não oferecia benefícios adicionais – a floresta teria permanecido de pé na mesma.

Também não existem garantias sobre o tempo de duração de um projeto comprado com compensações de carbono. Uma investigação feita pela ProPublica, publicada em maio de 2018, encontrou vários exemplos de programas de créditos de carbono que não protegiam as florestas tropicais.

Para proteger uma floresta da desflorestação, a receita das compensações de carbono deve ser mais competitiva do que as indústrias que originam o desmatamento, como a pecuária e a produção de soja. E algumas terras podem ser geridas de forma sustentável durante um determinado período de tempo, mas depois também podem cair nas mãos de outras vontades ou gestões políticas.

Como sabemos em quem confiar?
“Quando as compensações chegaram ao mercado nos anos 1990, foi como um regresso ao velho oeste. Havia muita variabilidade nos programas”, diz Peter Miller, especialista em compensações de carbono no Conselho Nacional de Defesa de Recursos.

As compensações entraram nos debates políticos a seguir ao Protocolo de Quioto, um acordo climático internacional assinado em 1992, mas Miller diz que a crescente sensibilização sobre as alterações climáticas fez crescer a sua popularidade.

Apesar de existir alguma regulação, esta geralmente é realizada por grupos de certificação independentes como o Gold Standard e o Green-e. Nos Estados Unidos, não existe regulamentação federal sobre as compensações de carbono compradas por indivíduos.

"Se alguém quiser vender uma compensação e encontrar alguém que a queira comprar, não há nada que impeça essa transação", diz Miller.

“Os consumidores que queiram comprar uma compensação devem garantir que os projetos são examinados por grupos externos que os monitorizam ativamente e que garantem uma redução real no carbono.”

Faz diferença?
"As compensações não devem ser encaradas como uma alternativa aos requisitos regulatórios", diz Miller. “As emissões de carbono só são realmente reduzidas com acordos internacionais mais ambiciosos.”

A uma escala global, um voo individual não parece muito. De acordo com a Administração de Energia e Informação dos EUA, a eletricidade gerada por carvão em 2018 produziu mais de mil milhões de toneladas métricas de emissões de carbono.

No nosso dia a dia, voar é de longe uma das atividades que produzem mais carbono. Um voo consegue produzir tanto carbono como um carro que percorre mais de 5000 quilómetros.

Mas quando não temos alternativa para os voos, a compra de compensações através de um fornecedor credível pode, tecnicamente, reduzir a quantidade de carbono que entra na atmosfera.

Marisa De Belloy espera que o grupo Cool Effect continue a crescer. Marisa diz que o descontentamento com o governo e com a indústria privada na luta contra as alterações climáticas tem motivado as pessoas a agir.

“As pessoas estão a começar a perceber que temos de caminhar todos na mesma direção.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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