Degelo nas Montanhas Coloca em Risco Abastecimento de Água Doce

Estas "torres de água" fornecem uma percentagem enorme de água doce a nível global, mas as alterações climáticas e as tensões geopolíticas colocam em risco a sua existência.terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Nas altitudes elevadas dos Himalaias, perto da base do glaciar Gangotri, a água escorre ao longo de um rio estreito. Os seixos, transportados pelo fluxo do pequeno rio, vão-se afundando enquanto são arrastados.

Esta água flui ao longo de milhares de quilómetros, alimentando eventualmente as populações, as quintas e o mundo natural nesta planície vasta e seca. Grande parte dos mais de 200 milhões de habitantes na bacia a jusante dependem da água que vem deste fluxo e de outros semelhantes.

Mas as alterações climáticas estão a atingir estas regiões montanhosas de alta altitude de forma mais agressiva do que acontece no resto do mundo. Estas mudanças estão a colocar as “torres de água”, e os milhares de milhões de pessoas que dependem delas, em condições cada vez mais precárias. Uma nova investigação, publicada no dia 9 de dezembro na Nature, identifica as torres de água mais importantes e vulneráveis do mundo. A pesquisa cria um modelo para os líderes mundiais seguirem – muitos dos quais estiveram reunidos na cimeira anual do clima no início de dezembro – enquanto consideram uma forma de dar prioridade aos esforços de adaptação climática.

“Todos nós precisamos de água. Somos feitos de 90% de água, precisamos de água doce”, diz Michele Koppes, autora do estudo e cientista climática especializada em glaciares na Universidade da Colúmbia Britânica. "Temos muita demanda pela água destas torres e precisamos de compreender melhor a forma como estão a mudar.”

Importância das torres de água
Existe mais gelo e neve nos cumes das montanhas da alta altitude do que em qualquer outro lugar do planeta, exceto nos polos. A Terra tem mais de 200.000 glaciares, lagos elevados e zonas húmidas: mas no total, as montanhas de alta altitude contêm cerca de metade de toda a água doce usada pelos humanos.

A neve e os glaciares que cobrem as montanhas desempenham um papel crucial para mais de 1.6 mil milhões de pessoas – mais de 20% da população da Terra. E a água que bebemos pode vir de uma montanha.

As torres de água das montanhas mais elevadas do planeta agem como tanques gigantes com válvulas. O sistema funciona mais ou menos da seguinte forma: a neve cai, enche o tanque e depois derrete lentamente ao longo de dias, semanas, meses ou anos – uma válvula natural que suaviza o padrão de escoamento.

Esta consistência é muito importante. É importante para quem vive nas montanhas porque o degelo lento e constante é menos destrutivo do que os grandes eventos de chuva, que podem provocar inundações repentinas ou deslizamentos de terras. O fluxo de água consistente é melhor para os agricultores, a montante e a jusante, que dependem de um abastecimento de água estável, ou minimamente previsível. E também é importante para as cidades e vilas que precisam de água o ano inteiro, e para o mundo natural, pois as montanhas mais elevadas abrigam cerca de um terço de toda a biodiversidade terrestre do planeta.

"Antigamente, as montanhas não eram encaradas como um parte fundamental do sistema terrestre, como acontece com as florestas tropicais ou os oceanos", diz Walter Immerzeel, outro dos autores do estudo e cientista do clima especializado em montanhas na Universidade de Utrecht, na Holanda. "Mas agora estamos a reconhecer as montanhas como sendo igualmente importantes.”

Tensão a acumular
Há décadas que os cientistas reconhecem que as alterações climáticas podem afetar a quantidade de água armazenada nas torres de água montanhosas e o seu curso. As montanhas elevadas estão a aquecer mais depressa do que a média mundial; por exemplo, desde o início do século, as temperaturas nos Himalaias subiram quase 2 graus Celsius, em comparação com a média planetária de apenas 1 grau.

De acordo com os cientistas, pequenas alterações na quantidade de água que escoa, ou no momento em que isso acontece, podem adicionar uma tensão enorme sobre as comunidades que já têm problemas no acesso à água. E pode ser pior para as comunidades mais pequenas, como os produtores de batata nas regiões mais altas dos Himalaias, ou em cidades que dependem de água das torres de água, como Lima, no Peru, e também para países inteiros que vivem em conflito devido aos direitos sobre a água, casos da Índia e do Paquistão.

Mas, até agora, ninguém tinha quantificado a importância relativa de cada torre de água do mundo – por outras palavras, quão importante é a água que flui destas regiões para as populações a jusante. E também nunca tinha sido criado um cálculo global completo da vulnerabilidade de cada uma destas torres de água relativamente aos inúmeros fatores que as podem influenciar: alterações climáticas, desenvolvimento desenfreado, uso de água em excesso, instabilidade geopolítica e muito mais.

"Isto faz soar o alarme em relação à sensibilidade destas regiões montanhosas às alterações climáticas e a outros tipos de tensões", diz Justin Mankin, cientista climático na Faculdade de Dartmouth, nos EUA.

A equipa de investigação decidiu que a importância das torres de água residia em dois fatores: o abastecimento de áreas de alta altitude e a demanda a jusante. Se uma torre de água tiver muitos recursos hídricos – na forma de neve, gelo ou água líquida – tem muita oferta. Se a demanda a jusante for equivalente à oferta, para atividades como a agricultura, para abastecer aldeias, cidades e para uso industrial, a torre de água é considerada importante. Dentro deste tipo de estrutura , o rio Indo é o mais importante do mundo.

“Ao longo das margens do rio Indo vivem 120 milhões de pessoas”, diz Immerzeel, “mas a planície do Indo é como um deserto. Depende por inteiro da água dos glaciares nas montanhas”.

Das 5 torres de água mais importantes do mundo, 3 estão na Ásia: Indo, Tarim e Amu Darya.

Na América do Norte, as regiões do rio Fraser, na Colúmbia Britânica, e as torres de água na região noroeste do Pacífico são as mais importantes. Na América do Sul, a Cordilheira Principal, a Cordilheira Sul da Patagónia e os Andes da Patagónia também são muito importantes; e na Europa, os Alpes fornecem abastecimentos essenciais de água.

África e Austrália não aparecem na lista porque as suas montanhas nevadas não são fontes críticas de água para os enormes centros populacionais, como as montanhas de alta altitude da Ásia e da América do Sul.

Problemas no horizonte?
Qual vai ser o futuro destas torres de água? Quais são as mais vulneráveis ao elevado número de tensões crescentes?

As alterações climáticas podem afetar o tamanho e a forma dos glaciares nas montanhas, bem como a quantidade e o tipo de precipitação que cai. Em muitos casos, a quantidade total água que cai do céu pode mesmo aumentar – mas não necessariamente em quantidades suficientes para compensar a perda do degelo dos glaciares

Ao mesmo tempo, acredita-se que a demanda e os conflitos a jusante aumentem em quase todas as torres de água do mundo. É provável que o aumento da população mundial resulte num aumento exponencial da demanda de água, diz Immerzeel. Este aumento na procura, em conjunto com a eficácia limitada dos governos e as tensões políticas sobre os direitos da água já existentes em muitas partes do mundo, são fatores de vulnerabilidade para as torres de água.

O Indo é a torre de água mais vulnerável do mundo, dizem os autores do estudo, juntamente com Amu Darya, Ganges, Tarim e Syr Darya. As torres de água da América do Sul também são extraordinariamente frágeis.

Mas a América do Norte e a Europa não estão isentas de pressão, sobretudo com os problemas em regiões de torres de água como o planalto de Colúmbia, a bacia do rio Colorado, o Ródano, o Po e muito mais.

"A vulnerabilidade das torres de água não se cinge apenas às torres de água nas montanhas de alta altitude da Ásia – é algo que abrange os dois hemisférios e é realmente um fenómeno mundial", diz Mankin.

Onde começar?
Os cientistas estão cientes de que as mudanças nas montanhas elevadas vão acontecer.

"É praticamente certo que a água vai mudar", diz Wouter Buytaert, hidrologista no Imperial College de Londres. “Por isso, o próximo passo é pensar no que podemos fazer, pensar como é que as comunidades se conseguem tornar mais resilientes. É preciso ser criativo e encontrar outras soluções para compensar parte desta perda no armazenamento de água.”

Em Ladakh, isto pode significar a construção de estupas – pequenas pilhas de gelo para suportar as estações secas. No Peru, talvez seja necessário reativar os antigos sistemas que recolhiam água da torre para os canais e reservatórios.

Mas também significa algo muito maior, a necessidade de soluções a uma escala nacional ou até planetária: que abordem as alterações climáticas e as questões geopolíticas com vista a manter estas vulnerabilidades sob controlo.

"Neste momento, temos de pensar globalmente", diz Koppes. "É fundamental para os países em desenvolvimento e não só – estas vulnerabilidades também existem nos nossos próprios quintais e precisam de atenção."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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