Repercussões Globais do Aquecimento nos Polos

Um novo estudo diz que a perda de gelo e o degelo do pergelissolo, tanto no Ártico como na Antártida, são problemas que podem provocar – mais cedo do que se pensava – um choque a nível mundial no clima e nos níveis do mar.

Friday, December 20, 2019,
Por Cheryl Katz
Lagos na tundra do Ártico espalhados pela Península de Yamal, no noroeste da Sibéria, na Rússia.
Lagos na tundra do Ártico espalhados pela Península de Yamal, no noroeste da Sibéria, na Rússia.
Fotografia de Jeffrey Kerby

Eric Post observa as estações do ano no mesmo local da tundra ocidental da Gronelândia há 26 anos. Durante este tempo, assistiu a alterações profundas. Quando Eric começou a trabalhar na região, centenas de caribus cobriam as colinas. Agora, existem cerca de 90.

“Ficamos a pensar que eles podem regressar na primavera seguinte e que os seus números vão voltar a subir”, diz Eric, “mas os anos passam e os grupos enormes que víamos antigamente já não estão lá”.

Enquanto a Terra caminha em direção a um futuro perigosamente quente, um novo relatório sobre as condições que se avizinham para as regiões polares revela que o Ártico já atingiu essa realidade – com consequências no horizonte para todos.

"Se não forem tomadas ações para mitigar estes efeitos, existe a possibilidade de entrarmos numa fase de aquecimento acelerado no Ártico durante as próximas duas a quatro décadas", diz Eric Post, ecologista especializado em alterações climáticas na Universidade da Califórnia.

Eric é o autor principal do relatório publicado no dia 4 de dezembro na Science Advances, onde um grupo internacional de cientistas analisa os impactos atuais e futuros do aquecimento polar em várias disciplinas.

O Ártico está a aquecer muito mais depressa do que qualquer outro lugar na Terra. Na última década, as temperaturas subiram quase 1 grau. De acordo com o relatório, até meados deste século, com a taxa atual de emissão de gases de efeito estufa, a região polar norte está a caminho de aquecer 4 graus – atingindo o pico nos 7 graus durante os períodos de outono. Será nesse momento que se projeta que o planeta atinja um aquecimento de 2 graus – o chamado limiar de impactos desastrosos.

(Descubra porque é que as alterações climáticas podem estar a colocar o planeta perto do ponto de inflexão.)

Neste momento, as regiões mais setentrionais estão a assistir a mudanças sem precedentes, incluindo perdas de gelo drásticas, em terra e no mar, degelo galopante do pergelissolo, incêndios violentos, tempestades fora de época, primaveras antecipadas e muito mais. Em 2019, o gelo marinho encolheu até à sua segunda menor extensão desde que começaram a ser feitas medições por satélite em 1979, ao passo que o calor recorde sentido em julho derreteu milhares de milhões de toneladas de gelo no manto da Gronelândia. E os incêndios florestais fustigaram milhões de hectares desde o Alasca até à Sibéria.

"As consequências do recente aquecimento do Ártico já são generalizadas e pronunciadas, e ainda não estamos no que se antecipa ser a fase mais rápida do aquecimento", diz Eric.

O Ártico e a Antártida estão a enfrentar subidas nas temperaturas, degelo dos glaciares, perturbações nos ecossistemas e outras alterações alarmantes – com as emissões de combustíveis fósseis a aprisionar o calor – mas estas mudanças estão a afetar sobretudo a região norte a um ritmo preocupante. Os impactos de um Ártico em aquecimento serão rapidamente sentidos muito para além das altas latitudes, alerta o relatório.

Perda de gelo marinho
Uma das principais preocupações dos cientistas em relação ao aquecimento do planeta é a perda do gelo marinho no Ártico. Com a atual taxa de emissões, prevê-se que o gelo marinho, que no período de verão recuou mais de 10% por década durante os últimos 40 anos, desapareça dentro de 20 a 25 anos. Alguns cientistas dizem que isto pode acontecer ainda mais cedo.

Julienne Stroeve, coautora do estudo e climatologista na Universidade de Manitoba, no Canadá, e no Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo, em Boulder, no Colorado, acredita que o aquecimento do Ártico já pode ter empurrado o gelo marinho para além do seu limiar.

“Tenho a noção de que é uma afirmação comprometedora”, diz Julienne, “mas neste momento, independentemente dos nossos esforços na redução de CO2, juntamente com os limites que tentamos impor no aquecimento... podemos vir a assistir a verões sem gelo”.

O trabalho mais recente de Julienne sugere que o gelo do Ártico está a recuar mais depressa do que acontece nas simulações atuais dos modelos climáticos. Esta perda de gelo complica a situação no Ártico – acelerando o aquecimento no norte. À medida que a camada protetora do oceano derrete, entra mais luz solar na água, provocando mais aquecimento e acentuando o degelo numa espiral de causa e efeito.

O desaparecimento da cobertura de gelo também pode dar origem a condições climáticas mais extremas nas latitudes médias do Hemisfério Norte, incluindo secas, inundações e vagas de calor. Alguns estudos – que ainda estão a ser debatidos por cientistas – sugerem que o aquecimento do Ártico faz com que a corrente de jato seja mais fraca e mais ondulada, permitindo que o ar frio polar aumente o seu alcance para sul e o ar quente se expanda para norte.

"O aquecimento acelerado do Ártico afeta o clima nas latitudes mais baixas e em torno de todo o Hemisfério Norte, alterando o contraste das temperaturas entre as latitudes médias e altas", explica Michael Mann, um dos coautores do estudo e cientista atmosférico na Universidade Estadual da Pensilvânia.

“Este contraste de temperaturas é responsável pela existência do jato e, quando diminui, o jato tem tendência para desacelerar e os sistemas climáticos permanecem mais tempo na mesma região.”

Mann diz que este fenómeno tem sido associado a períodos quentes implacáveis, como os que assolaram a Europa no verão passado, e a picos extremos de frio como a recente “rajada do Ártico” que congelou o leste e o centro-oeste dos Estados Unidos.

Inquietação crescente

A subida do nível do mar é outra preocupação iminente. O gelo terrestre do Ártico – sobretudo a vasta camada de gelo no topo da Gronelândia – está a derreter mais depressa do que os atuais modelos climáticos sugerem e pode elevar o nível do mar substancialmente mais do que os 90 centímetros projetados até ao final do século pelo relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas divulgado em setembro.

O degelo do pergelissolo do Ártico também está a aumentar, libertando o potente metano que tem efeitos acentuados no aquecimento global.

Incêndios florestais perto da transição tundra-taiga da Sibéria. Estes incêndios podem tornar-se mais comuns à medida que o pergelissolo descongela e seca.
Fotografia de Jeffrey Kerby

Outro estudo recente diz que, com o degelo e seca do solo, a intensidade dos incêndios no Ártico pode duplicar anualmente.

Entretanto, o aquecimento já está a alterar o relógio sazonal do Ártico. O crescimento de plantas na primavera está a acontecer cada vez mais cedo, o que significa que os animais da tundra – como os caribus no local de pesquisa de Eric na Gronelândia – chegam ao seu local de nascimento anual depois de as plantas já terem passado o pico nutricional. As flores abrem antes de os insetos que as polinizam chegarem até elas, e as aves migratórias perdem o fluxo da primavera. Estas mudanças estão a acelerar, diz o relatório, e no futuro podem exceder a capacidade de adaptação dos ecossistemas.

O aquecimento do Ártico também pode afetar a cadeia alimentar marinha, aumentar a mortalidade entre os ursos-polares e focas, e ameaçar os meios de subsistência dos povos indígenas da região. No meio disto tudo, existe algo positivo: as baleias parecem estar a aumentar o seu raio alcance com o recuo do gelo marinho.

A Antártida não é o Ártico
Enquanto as temperaturas sobem no Ártico – de acordo com o relatório, até ao final deste século podem subir até aos 13 graus – o aquecimento na Antártida tem sido semelhante ao da média global, embora algumas partes estejam a aquecer muito mais depressa.

Ambas as regiões polares estão a sofrer alterações, diz Richard Alley, um dos coautores do estudo e glaciologista na Universidade Estadual da Pensilvânia. "Não é uma questão simples onde acontece a mesma coisa em todo o lado. A Antártida não é o Ártico e vice-versa.”

A Antártida está cercada pelo vasto Oceano Antártico, que absorve grande parte do excesso do calor da atmosfera. "E quando o calor entra no oceano", diz Richard, "não fica no ar".

Tal como acontece no Ártico, o gelo no continente mais a sul também está a ser devorado pelo aquecimento. Os principais glaciares – sobretudo os Thwaites – estão a recuar depressa, ao passo que as camadas de gelo flutuantes que os mantêm no lugar estão a diminuir. Estas tendências preocupam os cientistas.

"O aquecimento do ar ou do oceano pode enfraquecer as camadas de gelo e, se ultrapassarem algum limiar, podem quebrar", diz Richard.

Se as camadas de gelo da Antártida Ocidental ficarem comprometidas, e os Thwaites e outros glaciares entrarem em colapso, o nível do mar pode subir ainda mais até 2100, podendo atingir uns impressionantes 3 metros ou mais no século seguinte, isto se os pontos de inflexão forem ultrapassados.

"É isto que nos preocupa na Antártida Ocidental", diz Richard. "Uma diferença razoavelmente pequena na forma como as coisas evoluem pode acabar por fazer uma diferença enorme no que acontece com os níveis do mar."

O gelo do mar antártico já aumentou e diminuiu. Porém, nos últimos 2 anos, foram atingidos mínimos recorde durante o outono. Para além disso, o aquecimento do Oceano Antártico pode abrir novas rotas, permitindo que espécies invasoras e doenças cheguem até ao continente isolado. E os pinguins da Antártida, alguns dos quais já estão a sofrer alterações no seu alcance devido às mudanças nas condições costeiras, podem enfrentar um deslocamento generalizado no futuro. E os icónicos pinguins-imperadores podem desaparecer até ao final do século.

“As condições polares dependem das mudanças no cenário das emissões", diz John Walsh, cientista atmosférico na Universidade do Alasca-Fairbanks. "Este estudo enfatiza que, mesmo com um cenário de baixas emissões – com 2 graus de aquecimento na extremidade mais baixa do espectro – o Ártico nunca mais será o mesmo."

Reduzir as emissões de combustíveis fósseis pode diminuir ou retardar o aquecimento do Ártico durante várias décadas, dizem os autores do estudo.

“De certa forma, o Ártico está a falar connosco”, diz Eric. “A questão reside em saber se estamos a ouvir.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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