A Década Passada Foi a Mais Quente de que Há Registo

Os últimos 10 anos demonstraram que as alterações climáticas já estão a acontecer – de acordo com um novo relatório da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA. E é provável que piorem bastante.terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Um relatório publicado no dia 15 de janeiro pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA e pela NASA confirma que a década de 2010-2019 foi a década mais quente dos últimos 140 anos, data em que se começaram a manter registos. A análise também revela que 2019 foi o segundo ano mais quente de que há registo, e que as temperaturas dos oceanos nunca estiveram tão elevadas. Os cientistas responsáveis pelo relatório apontam as emissões de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa como as principais fontes para o aquecimento global contínuo.

As temperaturas mais elevadas ajudaram a alimentar uma série de desastres naturais e obrigaram finalmente o mundo a enfrentar as realidades das alterações climáticas. Esta investigação é apenas a mais recente a confirmar que as condições podem piorar, a não ser que sejam tomadas as medidas necessárias para reduzir as emissões.

Nesta década que passou, muitas pessoas pelo mundo inteiro acordaram para uma realidade sombria: as alterações climáticas já chegaram, estão a acontecer agora e podem facilmente piorar bastante.

Os últimos 10 anos foram pautados por uma série de eventos devastadores. Tempestades como Sandy, Maria e o furacão Harvey alteraram profundamente as comunidades por onde passaram, e deixaram no seu rescaldo cicatrizes que ainda estão por sarar. As vagas de calor cada vez mais intensas fustigaram perigosamente comunidades por todo o planeta e os incêndios florestais destruíram centenas de milhares de hectares num abrir e fechar de olhos.

Os registos climáticos bateram todos os recordes. O ano mais quente de sempre para a atmosfera do planeta? Confirmado. O ano mais quente de sempre para os oceanos? Também confirmado. Degelo marinho sem precedentes no Ártico? Confirmado, confirmado, confirmado.

A força responsável por estas alterações é indiscutível. O aumento constante das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera – provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis – aprisiona o calor em excesso, aquecendo o planeta como um todo. O resultado, para além de um planeta mais quente, é simples e incrivelmente complexo – com as alterações a propagarem-se pelos oceanos, pela atmosfera, pelo solo, pelas rochas, árvores e atingindo todos os seres vivos do planeta.

"Meu Deus, esta foi uma década terrível", diz Leah Stokes, especialista em política climática na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. “Vamos fazer com que a próxima não seja assim tão má.”

Recordes – grandes e pequenos – batidos
A última década foi a mais quente de que há registo, exibindo um sinal de alerta para quem estava a prestar atenção. Em média, as temperaturas anuais oscilaram cerca de 1 grau, um número mais elevado do que aconteceu entre 1950 e 1980; os últimos 5 anos foram o período mais quente alguma vez registado. E para já, 2019 é o segundo ano mais quente de sempre, com cerca de 0.94 graus acima da média a longo prazo.

Este número pode não parecer muito, mas os seus efeitos são enormes. Todas as pequenas mudanças na média de temperatura aumentam a probabilidade de eventos extremos de calor. E as alterações minúsculas na quantidade total de calor armazenada nos oceanos, no ar e na água podem ter consequências graves no planeta.

Por exemplo, os cientistas acreditam que, em média, durante a última era glaciar, há  cerca de 20 mil anos ou mais, o planeta era 6 graus mais frio. Mas naquela época, uma enorme camada de gelo cobria a América do Norte, estendendo-se para sul até Long Island. O mundo era muito diferente e existia apenas uma ligeira alteração na média das temperaturas.

As temperaturas mais quentes também estão a aumentar – exatamente como os cientistas previam. À medida que a média de temperatura aumenta, também aumenta a probabilidade de eventos extremamente quentes. E claro, durante a última década, os eventos de calor “extremo” foram mais frequentes, um padrão que provavelmente se vai intensificar.

Existe outro aspeto importante sobre o aquecimento geral que reside no facto de não acontecer uniformemente ao longo do ano ou de uma distância. Os invernos estão a aquecer mais depressa do que os verões. A mudança nas temperaturas mínimas entre 2009 e 2018 (os últimos dez anos para os quais existem registos; ainda não existem registos disponíveis de 2019) foi de 1.34 graus. Os invernos mais amenos trazem consigo uma série de alterações perturbadoras que alteram o ecossistema: as primaveras antecipadas originam uma incompatibilidade entre os polinizadores e os tempos de floração das plantas. Com mais chuva, menos neve, e com um degelo antecipado, a disponibilidade de água durante o verão e outono também é afetada. Os glaciares estão a encolher, o pergelissolo está a derreter e onde devíamos encontrar gelo vemos águas abertas.

E existem alterações igualmente alarmantes e ainda mais notáveis nos oceanos. Ao passo que as temperaturas do ar tendem a oscilar de ano para ano, respondendo a grandes padrões como o El Niño – o evento periódico climático de aquecimento de água no Pacífico – no mar, estes sinais são atenuados. O oceano acumula o aquecimento total que ocorreu nos últimos anos. E responde de forma mais lenta e constante às alterações que acontecem por cima da sua superfície – e a mensagem que está a passar é clara.

O oceano absorveu mais de 90% de todo o calor adicional retido pelas alterações climáticas provocadas pelo homem, e os efeitos já são aparentes nas suas temperaturas de superfície. As vagas de calor no oceano, como as ondas de calor que sentimos em terra, e alterações ainda maiores – que podem afetar os padrões climáticos de todo o planeta – podem estar a acontecer mais depressa do que pensamos.

Fábula de gelo e sinal de alerta
O gelo da Terra tem dado os sinais mais óbvios sobre as alterações que ocorreram durante a última década. Só nos últimos 10 anos, o Ártico assistiu a cerca de 1 grau de aquecimento – comparando com pouco menos de 1 grau nos últimos 50 anos para o planeta em geral. E as suas paisagens de gelo estão a reagir com a sensibilidade prevista pelos cientistas.

Em 2012, quase toda a camada de gelo da Gronelândia parecia uma rede de riachos a jorrar água. Nesse mesmo ano, o gelo do mar Ártico atingiu o nível mais baixo de que há registo, e tem oscilado em níveis inferiores desde então, distorcendo os padrões climáticos “normais” que dependem do frio do Ártico.

Os imponentes glaciares da Antártida Ocidental, região com gelo suficiente para elevar o nível do mar em 3 metros ou mais – caso derretesse por completo – começaram a recuar de forma inexorável. Quase todos os glaciares nas montanhas das terras altas do planeta estão a encolher, afetando a vida nas zonas de alta altitude. E também afeta a vida a jusante, onde milhares de milhões de pessoas dependem da água que há séculos vem da neve e do gelo presente nos cumes montanhosos.

Tanto o calor aprisionado pelo oceano como o degelo contribuíram para que o nível do mar atingisse valores recorde em grande parte do planeta. Um oceano mais quente expande-se – elevando estes níveis – e nos últimos 10 anos o degelo da Gronelândia e da Antártica adicionou cerca de 36 milímetros de água doce aos oceanos mundiais, uma taxa que aumenta a cada ano que passa. A injeção de água doce está a alterar a composição do oceano no extremo norte, originando uma desaceleração na corrente norte-sul que controla o clima da Terra, com efeitos desconhecidos, mas que provavelmente não são positivos.

Existe um elemento comum nestas alterações: o dióxido de carbono atmosférico. Em 2009, as concentrações atmosféricas de CO2 rondavam as 390 partes por milhão. Em 2014, esse valor ultrapassou as 400 partes por milhão. Hoje, as concentrações oscilam perto das 410 partes por milhão. O planeta não testemunhava concentrações tão elevadas desde há pelo menos 2.6 milhões de anos. Nessa época, não existiam camadas de gelo nas regiões polares do norte, a Antártida tinha florestas, e o nível do mar estava provavelmente mais de 12 metros acima do que se verifica na atualidade, e o planeta como um todo operava sob condições muito diferentes.

“Esta última década foi muito importante, mas também foi muito má”, diz Kate Marvel, cientista climática na Universidade de Colúmbia e no Instituto Goddard da NASA. “Temos de dar o nosso melhor para que a próxima seja diferente.”

Alterações climáticas e mentalidades
Os padrões físicos das alterações climáticas são cada vez mais óbvios e, paralelamente a estas mudanças físicas, as atitudes também estão a mudar.

Durante os anos 2000, explica Anthony Leiserowitz, diretor do Programa de Comunicação sobre Alterações Climáticas de Yale, os americanos estavam preocupados com a questão das alterações climáticas. Um relatório de 2007 do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas acendeu o debate sobre a forma como lidar com o problema, agitando as comunidades políticas e científicas.

Mas a crença de que o clima estava a mudar, e sobretudo a necessidade de soluções urgentes, praticamente desapareceram nos EUA entre 2008 e 2010, devido a um conjunto de razões políticas e sociais. A primeira metade da década, diz Leiserowitz, foi dedicada a salientar e a informar que as alterações climáticas eram uma questão fundamental.

Ao mesmo tempo, os cientistas desenvolveram técnicas novas para determinar as probabilidades de um determinado evento – fosse um furacão, uma onda de calor ou um incêndio – adulterado pelas alterações climáticas. E conseguem agora ligar os padrões mais amplos das alterações diretamente a um evento climático. Este tipo de ligação explícita está a mudar a forma como as pessoas encaram a questão em toda a sua amplitude, diz Leiserowitz.

As alterações climáticas sobrecarregaram o furacão Harvey, por exemplo, adicionando mais 20% de chuva ao que seria de esperar. As mensagens claras que vinculam a ciência aos impactos influencia a forma como as pessoas encaram as causas de tais eventos.

Nos últimos anos, o interesse público e a preocupação com as alterações climáticas aumentaram de forma dramática. Em 2010, 59% dos adultos norte-americanos sondados pelo programa de Yale acreditavam no aquecimento global; este número ascende agora a 67%. Em 2009, 31% dos entrevistados acreditavam que o aquecimento global os afetava a nível pessoal; este número está agora nos 42%.

E no ano passado, os jovens fizeram-se ouvir, com jovens ativistas a organizarem-se em grupos de milhões de pessoas para chamar a atenção para os seus futuros em risco. As equipas científicas também estão a emitir alertas cada vez mais fortes. A atenção global dada ao problema e às suas possíveis soluções está a crescer. Mas, ao mesmo tempo, a ação tomada até agora está longe de ser suficiente.

“Existem muitas pessoas que estão a começar a fazer a ligação entre os eventos”, diz Leiserowitz. “Pessoas que se interrogam sobre a ligação às alterações climáticas. E também existe uma faixa maior da população que está a começar a prestar mais atenção, e que se interroga sobre esta cadeia de eventos extremos sem precedentes. Começam a pensar se não estará tudo interligado.”

“Foi uma década muito má", diz Stokes. "Eu diria que perdemos 9 dos 10 anos da  década, mas começámos a ver diferenças nos últimos 12 meses. Existe agora uma energia renovada e muito dinamismo. Isso pode significar que a próxima década pode vir a ser, espero eu, diferente da anterior.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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