Novo Coronavírus Propaga-se Entre Humanos – mas Começou num Mercado de Vida Selvagem

Com casos confirmados em vários países, as autoridades de saúde estão a olhar para os surtos semelhantes do passado e a encontrar algo em comum.

Publicado 30/01/2020, 10:52 WET, Atualizado 5/11/2020, 06:02 WET
Um trabalhador com equipamento de proteção no mercado de peixe agora encerrado em Wuhan, na China, ...
Um trabalhador com equipamento de proteção no mercado de peixe agora encerrado em Wuhan, na China, considerado a fonte do novo surto de coronavírus.
Fotografia de Darley Shen, Reuters

A história parece repetir-se.

Há quase 20 anos, apareceu um vírus nos mercados no sul da China e era diferente de tudo o que o mundo tinha visto. Estávamos no inverno de 2003 e as pessoas queixavam-se de febre, calafrios, dores de cabeça e tosse seca – sintomas normais para uma época de gripe e constipações.

Mas estes sintomas evoluíram para uma forma mortífera de pneumonia que provocava lesões nos pulmões das pessoas, dando origem a insuficiências respiratórias graves em cerca de 25% dos pacientes. Embora a maioria das infeções se propague apenas a mais 2 ou 3 pessoas, alguns dos doentes tornaram-se numa espécie de "super-propagadores" – pacientes que involuntariamente transmitiram a doença a dezenas de pessoas de cada vez. Passados 7 meses, quando a epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) terminou, foram registados mais de 8 mil casos e cerca de 800 mortos em 32 países.

É por esta razão que as autoridades internacionais estão agora preocupadas com um novo vírus relacionado com a SARS que surgiu na China. A doença disseminou-se pelas grandes cidades como Pequim, Xangai e Shenzhen – e pelos países vizinhos como Taiwan, Japão, Tailândia e Coreia do Sul – em apenas 3 semanas. No dia 21 de janeiro, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) confirmaram o primeiro caso nos EUA, no estado de Washington.

“A disseminação entre humanos foi confirmada, mas a facilidade ou sustentabilidade da propagação do vírus permanece desconhecida”, disse em conferência de imprensa Nancy Messonnier, diretora do Centro Nacional de Doenças Respiratórias do CDC, anunciando também o desenvolvimento de um teste genético rápido para o vírus de Wuhan. “Neste momento, estamos a testar o vírus no CDC, mas nas próximas semanas esperamos partilhar os resultados dos testes com os nossos parceiros nacionais e internacionais.”

Até ao momento, confirmam-se 132 fatalidades resultantes deste surto mais recente, juntamente com quase 6 mil casos de pessoas infetadas, e a Organização Mundial de Saúde planeia fazer uma reunião para decidir se o surto representa uma emergência de saúde pública de interesse internacional. Os epidemiologistas suspeitam que existam milhares de casos por identificar. No dia 24 de janeiro, o CDC anunciou que a triagem para o novo vírus iria começar em 3 dos maiores aeroportos dos EUA, mas o primeiro paciente chegou ao país antes de esta vigilância estar implementada.

Tal como aconteceu no caso da SARS, toda esta agitação parece ter surgido devido ao comércio de vida selvagem – e os virologistas não estão surpreendidos.

“Se acabássemos com os mercados de vida selvagem, muitos destes surtos seriam uma coisa do passado”, diz Ian Lipkin, diretor do Centro de Infeções e Imunologia da Universidade da Colúmbia, cujo laboratório trabalhou com as autoridades chinesas para desenvolver um teste de diagnóstico precoce para a SARS.

Isto acontece porque tanto a SARS como o novo surto são zoonóticos, o que significa que são doenças de origem animal que passam para os humanos. As doenças zoonóticas estão entre as mais infames do mundo. O VIH, o Ébola e o H5N1, por exemplo, infiltraram-se na fauna selvagem antes de passarem para os humanos e gerar surtos a nível mundial. Com a SARS, as pessoas que preparavam, manipulavam ou vendiam carnes, venderam os animais selvagens responsáveis por cerca de 40% dos primeiros casos. Os primeiros episódios também ocorreram entre pessoas que viviam perto dos mercados de vida selvagem.

Reservatório de morcegos
As autoridades de saúde chinesas falaram pela primeira vez neste novo surto no dia 31 de dezembro de 2019, citando uma série de casos semelhantes a uma pneumonia com ligações a um mercado de peixe em Wuhan, uma cidade enorme no centro da China que tem mais de 11 milhões de habitantes. Mas a CNN informou que o mercado de Wuhan vendia mais do que marisco, obtendo um vídeo que supostamente mostra cães-guaxinins e veados presos dentro de pequenas jaulas.

Este tipo de condições pode criar um terreno fértil para as doenças zoonóticas?

“Quando juntamos animais nestas situações não naturais, corremos o risco de gerar doenças humanas”, diz Kevin Olival, ecologista e conservacionista na EcoHealth Alliance. "Quando os animais ficam presos em condições precárias, sob tensão, as probabilidades de propagarem um vírus ou de adoecerem são mais elevadas.”

Mas esta interação entre vírus e animal também pode ajudar a rastrear a fonte de uma epidemia. Os vírus sofrem mutações à medida que se propagam e multiplicam, uma característica que os virologistas e biólogos de vida selvagem podem usar para rastrear a evolução de uma doença, mesmo que salte entre animais.

A SARS e o novo vírus responsável pelo surto de Wuhan estão intimamente relacionados, ambos pertencem a uma família chamada coronavírus. Os coronavírus são uma família enorme de vírus, alguns dos quais podem provocar doenças nos humanos, enquanto que outros circulam entre os animais, incluindo camelos, gatos e morcegos.

No início de 2003, quatro meses depois de ter surgido o surto de SARS, equipas de investigação em Hong Kong fizeram análises a cães-guaxinim, civetas e texugos e descobriram parentes próximos do coronavírus SARS – a primeira evidência de que a doença existia para além dos humanos.

Esta descoberta deu início a uma investigação viral de vida selvagem que acabaria por indicar os morcegos-de-ferradura (Rhinolophus) da China como a fonte provável da SARS. E as investigações feitas a nível mundial acabariam por revelar que os antepassados e familiares do coronavírus SARS já circulavam pelos morcegos há vários anos na Ásia, em África e na Europa. Os morcegos são agora considerados a fonte original de todos os principais coronavírus.

“A sequência genética do próprio vírus pode indicar-nos a sua fonte”, diz Olival. “No caso de Wuhan, a correspondência mais próxima são os coronavírus relacionados com a SARS, e que encontramos nos morcegos.”

As investigações feitas pela EcoHealth Alliance com animais selvagens na China e em outros lugares da Ásia mostram que os coronavírus costumam ser expelidos de forma prevalente pelos animais através das fezes, ou guano, no caso dos morcegos. Os coronavírus propagam-se não só pelo ar e pelo trato respiratório, mas também em casos onde a matéria fecal entra em contacto com a boca de outra criatura. Os morcegos não são propriamente criaturas asseadas; portanto, se um deles der uma dentada numa fruta, a comida pode ficar contaminada com a matéria fecal. Se a fruta cair ao chão, pode atuar como um ponto de cruzamento viral para os animais de criação.

Camelos, mamíferos e vacinas
Até agora, parece que, em raras ocasiões, os coronavírus de origem animal passam para os humanos e provocam doenças graves. A SARS representou a primeira ocorrência documentada do transbordo de coronavírus, e foi seguida pela Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS), um vírus semelhante, mas distinto, que surgiu na Arábia Saudita em 2012 e que se propagou internacionalmente.

Um estudo de 2014 feito pelo laboratório de Lipkin e pelo zoólogo Abdulaziz Alagaili, da Universidade Rei Saud, encontrou anticorpos contra a MERS – um sinal revelador de infeção – em amostras de sangue recolhidas de camelos que datavam de até 1993. Ou seja, o vírus MERS já andava a circular há mais de 20 anos sem ninguém dar por nada.

“Trabalhámos em dois matadouros na Arábia Saudita, onde as pessoas abatiam camelos”, diz Lipkin. “Em alguns dos casos, lavavam a carne com mangueiras de alta pressão antes de a embalarem com película aderente. Podíamos encontrar o coronavírus MERS em carne destinada aos supermercados.”

A Arábia Saudita importa anualmente milhares de camelos de países africanos, muitos dos quais servem como uma fonte de alimento, sobretudo durante a peregrinação muçulmana. Os biólogos encontraram sinais de infeção por MERS em camelos vindos de países africanos como a Etiópia, Quénia, Tunísia, Egito e Nigéria.

Ao contrário da SARS, que emergiu e desapareceu no espaço de um ano, a MERS ficou entrincheirada nas comunidades humanas, com casos relatados na Arábia Saudita até 2017. Mas esta persistência também aumentou as possibilidades de desenvolvimento de uma vacina, dado que existia uma população consistente onde era possível testar a eficácia do tratamento.

“Podíamos vacinar as pessoas que tinham contacto direto com os camelos, como os beduínos e as pessoas que trabalham nos matadouros”, diz Lipkin.

Porém, apesar dos esforços generalizados, a vacina contra a MERS nunca se materializou. Atualmente, não existe nenhum tratamento específico para a SARS ou MERS.

Na ausência de um medicamento, as estratégias de controlo de infeções – como lavar as mãos, a quarentena e cuidados de higiene – tornaram-se nas únicas ferramentas para manter a SARS, a MERS e agora o coronavírus de Wuhan sob controlo.

O panorama em Wuhan
É difícil dizer o que podemos esperar do coronavírus de Wuhan. No espectro das epidemias, a SARS caiu para o lado dos piores cenários, ao passo que a MERS era letal, mas de um alcance geral muito mais reduzido.

Muitos dos sintomas semelhantes aos da pneumonia reservam o pior para as populações mais velhas, mas a SARS tem a mesma probabilidade de danificar os pulmões de um jovem adulto como os de uma pessoa idosa; a média de idades das vítimas de SARS rondava os 40 anos. A MERS, por outro lado, era particularmente grave em pacientes com mais de 50 anos e geralmente em pessoas com condições preexistentes.

“Não sabemos se o vírus de Wuhan vai simplesmente desaparecer, ou se vai evoluir para algo mais patogénico”, diz Lipkin. “Ainda não temos provas de super-propagadores, e esperamos nunca vir a ter. Mas também não sabemos quanto tempo é que este novo coronavírus sobrevive no exterior, nem quanto tempo as pessoas continuam a disseminar o vírus após terem sido infetadas.”

Inicialmente, as autoridades chinesas alegaram que todos os coronavírus de Wuhan envolviam eventos de cruzamento entre animais, mas agora a doença parece estar a disseminar-se de humano para humano. No dia 20 de janeiro, as autoridades confirmaram que 14 profissionais de saúde tinham contraído o vírus.

O modo como o coronavírus de Wuhan deu o salto final para os humanos também vai permanecer um mistério, pelo menos até que a China decida divulgar mais detalhes sobre os animais que estavam no agora infame mercado de peixe. Os funcionários vedaram o acesso ao mercado no dia de ano novo. Mas estas pistas podem ajudar os investigadores a identificar quais são os animais capazes de transportar e disseminar o vírus na China e pelo resto do mundo.

O surto de Wuhan também levanta a questão sobre se o comércio de animais selvagens precisa de uma supervisão mais rigorosa, ou se deve ser encerrado de vez.

“Uma intervenção, que até é bastante simples, passa pela redução do comércio de vida selvagem e pela higienização dos mercados que têm estes animais”, diz Olival. “Reduzir o comércio de vida selvagem tem um efeito onde todos saem a ganhar, porque protege não só as espécies que são apanhadas na natureza, como também restringe a propagação de novos vírus.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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