O Tempo Mostra Evidências das Alterações Climáticas – Todos os Dias Desde 2012

As crianças nascidas em 2012 nunca desfrutaram de um único dia sem os efeitos das alterações climáticas.

Thursday, January 30, 2020,
Por Alejandra Borunda
Com um único dia de observações meteorológicas a nível global, os cientistas conseguem agora detetar um ...
Com um único dia de observações meteorológicas a nível global, os cientistas conseguem agora detetar um sinal das alterações climáticas.
Fotografia de NOAA

Uma tempestade torrencial num dia em junho. Um dia quente fora de época em janeiro. Uma vaga de frio em finais de abril. O vento, o sol, a humidade e todas as outras coisas que sentimos quando saímos à rua diariamente: isso é o tempo.

O clima, por outro lado, é a média de variações do tempo durante um longo período cronológico. O clima é como um tecido entrelaçado pelos fios individuais do tempo que se faz sentir todos os dias.

Durante vários anos, os cientistas alertaram que o tempo não nos podia dizer como é que o clima estava a mudar. Aquele dia de calor com 23 graus em janeiro? Existem inúmeras razões que podem explicar isso. As alterações climáticas, diziam os cientistas, podiam fazer parte da equação, mas as nossas técnicas estatísticas ainda não estavam suficientemente afinadas e ajustadas para detetarem uma influência direta do aquecimento global no tempo.

As mudanças climáticas alteraram o clima global durante quase toda a vida de qualquer pessoa com 18 anos ou menos (pessoas nascidas após 2002).
Fotografia de KENNEDY ELLIOTT, NG STAFF

Mas esses dias acabaram. As alterações climáticas enterraram as suas garras de tal forma no planeta que as suas marcas podem ser observadas em qualquer dia do clima global desde 2012. Portanto, uma criança que nasceu desde então, nunca viveu um dia sem sentir a influência das alterações climáticas.

“Um cientista climático pode agora sentar-se na estação espacial, olhar para a Terra e, através da simples observação do padrão climático global, consegue realmente ver as impressões digitais das alterações climáticas num determinado dia”, diz Reto Knutti, do Instituto de Ciências Atmosféricas e Climáticas do Instituto de Tecnologia de Zurique – e um dos autores da investigação publicada em janeiro na Nature Climate Change. “Relativamente às alterações climáticas, estávamos completamente embrenhados em território desconhecido, mas agora conseguimos ver as coisas com clareza.”

Febre planetária
Desde finais da década de 1970 que a ciência tem vindo a aprimorar as suas capacidades de deteção das alterações climáticas provocadas pelo homem – a partir de uma miscelânea de observações planetárias. Ao mesmo tempo, os cientistas desenvolveram técnicas para descobrir exatamente quais são os sinais que podem ser atribuídos às emissões de gases de efeito estufa na atmosfera da Terra.

O “sinal” que os cientistas procuram é o seguinte: o que é que realmente aconteceu com a temperatura e a humidade ao longo dos anos, de acordo com os registos meteorológicos, comparativamente com o que os modelos climáticos prevêem que poderia ter acontecido sem o aquecimento global provocado pelo homem. Quanto mais estas duas coisas divergem, mais forte é o sinal.

Os vestígios das alterações climáticas são relativamente fáceis de ver em alguns dos dados, como a temperatura média global do ar ou do oceano, que aumentou mais ou menos de forma constante durante décadas. Nos últimos 10 anos, a média de temperatura da atmosfera da Terra rondou os 0.7 graus Celsius, mais quente do que em meados do século XX – e cerca de metade do que o planeta aqueceu desde o início da Revolução Industrial.

Mas como existe muita variabilidade inerente ao tempo, em qualquer dia ou lugar, os cientistas hesitaram em identificar um sinal do aquecimento global no tempo.

"É uma questão de sinal-para-ruído", explica Beena Balan Sarojini, cientista climática no Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo. “As alterações climáticas são o sinal. O tempo e coisas como o El Nino são o ruído. Até agora, só conseguíamos encontrar este sinal climático nos registos a longo prazo, como na temperatura, na precipitação e na extensão de gelo do mar Ártico. Mas assim que detetamos mudanças a nível regional, a importância recai sobre as localidades e sobre as alterações diárias.”

O que esta equipa científica encontrou – equipa liderada por Sebastian Sippel, investigador do Instituto de Tecnologia de Zurique – é um padrão escondido no caos nebuloso do tempo diário a nível global, como se fosse uma estação de rádio à espera de ser sintonizada. Em todos os registos globais diários do tempo, desde 2012, existe uma impressão digital clara do aquecimento global induzido pelos humanos.

“Hoje, o que consideramos normal, era algo de extraordinário no passado”, diz Balan Sarojini. “O evento extremo de ontem vai ser a norma de amanhã.”

Agora, vemos com clareza
Há cerca de 10 anos, este sinal era demasiado ténue e distorcido para ser captado sem interferências. Mas, na última década, o sinal dado pelo aquecimento foi demasiado evidente, diz Frederike Otto, diretora do Instituto de Alterações Ambientais da Universidade de Oxford.

“A última década foi mais quente do que qualquer outra. Agora, o sinal é tão forte que, sem querer complicar muito, conseguimos realmente detetar estes padrões”, diz Frederike. “O sinal emergiu e evoluiu bastante em muito pouco tempo.”

E alguns cientistas climáticos já trabalham, em alguns sentidos, na determinação destes resultados há mais de 40 anos. Em 1979, um estudo científico de referência teorizava que, eventualmente, com dados suficientes, os cientistas conseguiriam identificar o sinal humano na confusão climática dos dados oferecidos pelo tempo.

Nesse mesmo ano, o Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA publicou um documento de trabalho chamado “Dióxido de Carbono e Clima: Uma Avaliação Científica”, uma das primeiras avaliações a tentar estimar a capacidade de resposta da atmosfera terrestre a adições excessivas de dióxido de carbono. E também em 1979, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA e a NASA lançaram vários satélites meteorológicos que, desde então, registam de forma continuada o que se passa, construindo assim uma base de informação valiosa sobre a atmosfera e sobre os oceanos.

“O aquecimento global atingiu níveis que alteraram o clima muito para além do que seria de esperar”, diz Peter Stott, cientista climático no serviço de meteorologia do Reino Unido. “Por isso, mesmo no dia a dia, as médias de temperatura globais alteraram-se significativamente. Isto era algo que pensávamos vir a assistir no futuro, mas que na realidade já está a acontecer.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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