Os Arranha-Céus do Futuro Serão de Madeira?

Os produtos de madeira que são quase tão fortes quanto o aço estão a transformar os arranha-céus – para além de armazenarem carbono. Mas será que conseguimos plantar árvores suficientes para acompanhar este ritmo?sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Até à infância dos nossos avós – ou até bisavós – o mundo era feito de madeira. Tudo, fossem armas ou rodas, barris e casas, ferramentas para cozinhar e matérias para a indústria, grande parte destes materiais eram derivados de madeira. As pessoas nasciam em camas de carvalho, tinham berços de álamo e eram enterradas em caixões de pinheiro.

Agora, uma indústria em crescimento quer regressar os tempos áureos da madeira, começando pelos arranha-céus. "Veja isto", diz com admiração o finlandês Antti Asikainen, professor especializado em florestas – um homem austero, mas afável – apontando para um buraco retangular no reboco de um edifício de apartamentos de 12 andares.

A estrutura interna deste edifício é feita de madeira maciça, um dos novos produtos de alta tecnologia feitos com madeira de alta densidade, produtos que a economia mundial precisa de ir buscar às florestas. A madeira maciça tem um apelo utópico muito particular entre um determinado setor de arquitetos e designers, e os seus apoiantes preveem que, no futuro, as cidades serão feitas de arranha-céus de madeira – semelhantes à estrutura onde Asikainen e eu estamos, na cidade universitária de Joensuu, na Finlândia, uma cidade que se estende ao longo dos canais do rio Pielisjoki.

Por baixo de nós, a paisagem mostra os resultados de um estilo de cultura calibrado para produzir o maior número possível de árvores. As pilhas de abetos que vemos no armazém ferroviário estendem-se até ao horizonte. No dia anterior, diz Asikainen, o rio e os canais estavam cheios de troncos de abeto que vinham da Carélia do Norte e das florestas boreais da Rússia, com destino a mercados para além do Mar Báltico.

Os novos modelos de produtos de madeira têm muitos defensores, e os que defendem a madeira maciça fazem-no com um zelo quase evangélico, porque consideram que é não só uma oportunidade para descarbonizar o setor da construção, mas também um avanço técnico muito significativo por si só.

Todos estes produtos, seja para produzir papel ou até estruturas de arranha-céus, baseiam-se numa contradição que pode ser irresolúvel: todos dependem do crescimento constante e controlado de árvores, e os abates de árvores são geralmente planeados com décadas de antecedência. Na Europa, nos últimos 100 anos, este sistema conhecido por silvicultura científica cresceu para combater a desflorestação aparentemente incontrolável que se verificou no final do século XIX e início do século XX, fornecendo os produtos de madeira que a população em crescimento exigia.

Porém, este sistema depende de algo que está a desaparecer: um clima estável e a permanência de florestas onde sempre estiveram, um paradigma ameaçado pela própria crise climática que faz com que os edifícios feitos de madeira, capazes de bloquear o carbono, sejam muito atraentes.

Edifícios altos de madeira
O edifício em Jonesuu ilustra bem esta realidade. Praticamente em qualquer outro lugar do mundo esta estrutura seria feita de betão reforçado com aço. Aqui na Finlândia, é feita de madeira: tirando uma laje de betão de 5 centímetros entre cada andar, todo o edifício é feito de madeira – com um dos materiais de engenharia de alta tecnologia chamados coletivamente de madeira maciça ou madeira estrutural.

De acordo com Asikainen, vice-presidente executivo do Instituto de Pesquisa Florestal da Universidade da Finlândia Oriental, este é o edifício de madeira mais alto do mundo.

“Pois, em Oslo têm um edifício destes com 13 andares”, diz Asikainen, revelando timidamente um sorriso, “mas o primeiro andar deles é feito de betão. O nosso é todo em madeira.”

Este Instituto de Pesquisa Florestal, tal como os seus homónimos na Suécia e na Noruega, está constantemente a tentar criar novos conceitos que tirem proveito das florestas – concebendo e construindo este edifício como um projeto de teste. Na Finlândia, este é um projeto que carrega vestígios de uma religião nacional. Depois da Segunda Guerra Mundial, e da invasão desastrosa da União Soviética – a Finlândia ainda carrega a dúbia distinção de ter sido o único aliado democrático de Hitler – o país pagou a sua onerosa indemnização com a madeira que produzia, convertendo assim as suas densas florestas boreais em paisagens com uma produção gerida de forma rigorosa.

Estas florestas, tal como as chamadas florestas de produção que existem pelo mundo inteiro, formam a base de uma enorme pirâmide industrial, são as fundações de uma variedade impressionante de produtos de consumo onde a madeira maciça é apenas o produto mais recente. Agora, pede-se às florestas que produzam uma lista cada vez mais longa de coisas – numa época de preocupação crescente com os combustíveis fósseis.

Isto significa que podemos encontrar inesperadamente árvores em todos os tipos de produtos, para além das quantidades que já existem no papel higiénico e nos guardanapos. Existe uma fábrica nos arredores de Joensuu que transforma polpa de abeto em fibras que podem ser tecidas como o algodão, mas esta cultura também usa muitos pesticidas e água, para além de competir por alimentos e terra. E também existem fraldas e tampões absorventes fabricados a partir de pinheiros jovens do sudeste dos EUA, para além de um mercado pequeno, mas em rápido crescimento, de madeira compactada que vem de países dos Estados Bálticos e que é vendida a fábricas de energia europeias como um substituto ecológico do carvão.

“Se juntarmos o crescente mercado de papelão, que é impulsionado pela demanda insaciável de embalagens de serviços como a Amazon e Alibaba, e o plantio de polpas para celulose, é como plantar dinheiro", diz Lauri Sikanen, professora no Instituto de Pesquisa Florestal.

"É uma situação onde todos ganham", diz John Klein, arquiteto e designer no Instituto de Tecnologia do Massachusetts. Klein está a desenvolver uma linha de escritórios e edifícios de apartamentos pré-fabricados em madeira maciça, em preparação para 2021, ano em que as reformas no código dos EUA vão permitir edifícios de madeira de até 18 andares. (Atualmente, o edifício de madeira mais alto dos Estados Unidos é o Carbon12, de 8 andares, em Portland, no estado de Oregon.)

“Por exemplo, em Boston, quando se fala sobre neutralidade de carbono nos edifícios”, diz Klein, “fala-se apenas sobre energia operacional. Nunca se debatem os materiais.”

Tal como acontece com muitos dos designers que usam madeira maciça, Klein também foi atraído para este meio por razões ecológicas. O betão e o aço – que envolvem processos de produção, retificação e até (no caso do aço) rocha fundida – exigem uma quantidade enorme de energia que resulta em emissões de dióxido de carbono. Aproximadamente 8% das emissões totais de carbono mundiais são provenientes da produção de cimento e betão, que liberta cerca de meia tonelada de gases de efeito estufa por cada tonelada produzida. O fabrico do aço, responsável por cerca de 5% de todas as emissões, liberta quase o dobro do seu peso em CO2.

No lado oposto temos a madeira maciça que promete substituir um material que liberta enormes quantidades de carbono por um que consegue armazenar esse mesmo carbono. (Se a produção de cimento e betão fosse um país, seria o terceiro maior emissor de carbono do mundo, atrás dos EUA e da China.) Em Joensuu, os troncos de abeto, tal como as florestas de produção do Oregon e da Carolina do Norte, são em grande parte constituídos por carbono retirado da atmosfera. Isto significa que, em teoria, a madeira maciça consegue armazenar carbono nas paredes dos edifícios a longo prazo – com novas árvores a surgirem nas suas plantações de origem.

Mas, com o passar do tempo, e para além da redução de carbono, Klein começou a acreditar que a madeira era simplesmente um material melhor, um material capaz de originar uma nova geração de estruturas mais leves e resistentes, à prova de fogo e até de explosões. A madeira maciça pode não ser tão forte quanto o aço, mas também não se desmorona com o calor direto tão rapidamente. Os defensores da madeira maciça alegam que esta é muito mais densa e à prova de fogo do que os tipos de madeira usados para criar estruturas como Notre-Dame – a catedral foi construída com árvores com 1.300 anos de idade que arderam num ápice em abril de 2019.

“Se incendiarmos uma viga de madeira maciça, obtemos um tipo de queimadura previsível”, diz Klein.

Cidades do futuro
De regresso ao átrio do Instituto de Pesquisa Florestal, uma estrutura de madeira maciça de tirar o fôlego – parece uma mistura entre uma arca, um ninho de pássaro e uma pinha enorme e acolhedora – Asikainen mostra-me diversos compostos de madeira que podem ser usados em edifícios como os de Klein. Temos madeira laminada cruzada (CLT) disposta como se fosse um conjunto de Jenga, resultando num bloco que é praticamente a definição da palavra sólido. Ou glulam, para fazer vigas estruturais que parecem um contraplacado fortificado, e LVL – madeira laminada de folheado – que produz as vigas pesadas que formam a estrutura dos edifícios.

Para um designer como Klein, estes blocos não se limitam à redução do carbono produzido pelo betão ou aço, também se prestam melhor a uma arquitetura moderna. "Agora, somos basicamente cientistas de computação", diz Klein, e a madeira é simplesmente um material mais flexível para os programas de design que Klein usa para simular as configurações de construção com base nas necessidades dos seus clientes – que estão em constante mudança.

Klein diz que a urbanização vai assistir a um desenvolvimento acelerado, semelhante ao que aconteceu na China no início de 2010, onde foram projetados arranha-céus a uma velocidade alucinante para cidades como Xangai albergarem milhões de habitantes. A madeira maciça, diz Klein, é muito mais fácil de personalizar e pré-fabricar do que o betão ou o aço: permite aos designers enviar os planos diretamente para as fábricas para serem construídos de acordo com uma prática que Klein chama de "direto para a fábrica". Isto traduz-se numa construção mais rápida, custos de mão-de-obra mais baixos e menos perturbações nas cidades.

“Neste momento, todos os edifícios são um protótipo” – construídos por encomenda, e são todos únicos.

Klein acredita que a sua empresa podia mudar esta realidade, oferecendo às cidades com excesso de população uma linha de apartamentos e edifícios de escritórios padronizados, personalizáveis e de tamanho médio, em grande parte feitos de módulos de madeira que os empreiteiros poderiam encomendar como se fosse um sofá da IKEA – e claro, também estes sofás são produto de um novo modelo de madeira, construídos em MDF, ou placas de fibras de madeira de densidade média.

Florestas sob controlo
Mas nos EUA, apesar de toda esta agitação em torno da madeira maciça, existem poucas empresas focadas na sua produção. Isto significa que, por enquanto, se alguém quiser construir um edifício em CLT, precisa de encomendar os materiais na Europa a fábricas como a Binderholz – fábrica que fica no deslumbrante vale de Zillertal, nos Alpes austríacos.

Nesta região, Natalie Binder conduz o seu Mercedes Benz a alta velocidade através do enorme terreno da serração da sua família, contornando pilhas de troncos de pinheiros com 10 metros de altura e os empilhadores que ali operam. À nossa volta, as encostas do vale cobertas de florestas alpinas parecem tocar no céu. Foi aqui que Hans Binder, o patriarca da família e avô de Natalie, trabalhou como vaqueiro e madeireiro para ganhar dinheiro para comprar a serração.

Agora, é um império, transformado pela decisão das gerações subsequentes da família Binder em focar as suas atenções na madeira maciça – que hoje é transformada numa variedade estonteante de produtos em qualquer uma das suas 13 fábricas.

Natalie Binder, que cresceu nas fábricas da família – “quando eu tinha 8 anos, se quisesse uma sela nova para o meu cavalo, tinha de trabalhar 100 horas a arquivar documentos ou a atender telefonemas” – percorre os terrenos com uma determinação inabalável, enquanto observa os toros de abeto que estão prontamente ordenados para alimentar os geradores da fábrica. Estes toros também são laminados, colados e prensados a quente para produzir as estruturas personalizadas encomendadas por clientes como Klein.

Talvez pareça estranho que os arquitetos nos EUA tenham de importar madeira maciça da Europa, quando atualmente existe um excesso de pinheiros com qualidades de construção no sudeste do país. E os proprietários dos terrenos estão a vender as árvores ainda jovens para fazer lenços de papel, ou fraldas, em vez de deixarem a madeira amadurecer.

Isto acontece, em parte, porque Binderholz tem o que nenhuma empresa nos EUA tem: uma cadeia de abastecimento de madeira madura que se estende ao longo de centenas de quilómetros de linhas férreas, e mais de 80 km de rotas para camiões nas florestas de abetos da região. No entanto, apesar de toda esta cadeia de abastecimento da empresa, diz Natalie, a madeira desaparece rapidamente. A serração nunca tem material disponível em armazém durante mais de 10 dias, ou seja, tal como as outras empresas de produtos de madeira, depende de árvores que podem levar décadas a crescer em paisagens onde se exige uma produção cada vez mais acelerada.

Isto significa competição. "Quem está a desenvolver novas tecnologias ecológicas – biocombustíveis, bioplásticos – acredita que as florestas podem oferecer estes materiais”, diz Mary Booth, administradora da Parceria de Política de Integridade sediada no Massachusetts. "Não é como se tivéssemos uma enorme quantidade de terra à espera de ser cultivada com algo grandioso.”

Para além disso, seja para fazer papel higiénico ou até vigas de madeira maciça, toda esta matéria é extraída da terra através de um controlo meticuloso das florestas que pode não ser o melhor – ou até exequível.

Uma história de planeamento
Do outro lado da fronteira, na Alemanha, o engenheiro florestal bávaro Albrecht Von Bodelschwingh, de 82 anos, caminha por uma floresta de produção para me revelar como é que garante o abastecimento de madeira sem negligenciar a paisagem.

A sua profissão baseia-se num paradoxo que surgiu no século XVII, quando as cidades industriais da Europa Central começaram a ficar sem madeira. É fácil esquecer que, antes da era dos combustíveis fósseis, a madeira era um ingrediente necessário em tudo, fosse para fundir prata, construir habitações ou até para cozinhar, e os primeiros gestores florestais do século XVII, caso de Hans Carl von Carlowitz – o primeiro a fazer uma publicação sobre o conceito de sustentabilidade – tiveram de descobrir uma forma de garantir o abastecimento constante de uma matéria que ardia em poucas horas, mas que levava gerações humanas a crescer.

A resposta da Alemanha para esta questão ofereceu ao mundo, para o bem ou para o mal, o estilo de produção florestal rigoroso que veio depois a ser adotado por países como a Finlândia e os Estados Unidos. No século XIX, Heinrich Cotta instituiu um sistema rigoroso de análises volumétricas para os proprietários das terras – e o estado – saberem sempre a quantidade de madeira disponível.

Os proprietários tinham de apresentar ao estado as perspetivas anuais de produção das suas florestas, detalhando planos a 10 anos. Isto deveu-se a um fator que assombrava o trabalho de Heinrich Cotta: o espectro do declínio de um mundo faminto por materiais de construção e combustível. Antigamente, a floresta de abetos agora atravessada por von Bodelschwingh era uma zona de brejos onde as famílias locais, em tempos de escassez de madeira, desenterravam e secavam turfa para aquecer as suas casas e alimentar os fornos.

Agora, não existe turfa e a zona húmida foi convertida em terra seca. Este bailado de colapso, escreveu Cotta no seu Prefácio de 1817, estava no centro do que era ser um silvicultor. Cotta comparava os silvicultores aos médicos que acompanham pacientes ao longo de uma doença crónica prolongada: "Um bom médico deixa o seu paciente partir; um mau médico mata-o. Assim sendo, podemos dizer que um bom silvicultor permite que as florestas não sejam assim tão perfeitas; ao passo que um mau silvicultor acaba com elas.”

Através de uma diáspora de silvicultores alemães que aconteceu em finais do século XIX, as ideias de Cotta – de uma gestão rigorosa com um planeamento antecipado –transformaram-se num exemplo para o mundo inteiro, introduzindo novas técnicas como o plantio em linha de árvores, culturas comerciais e fileiras de mudas. No início do século XX, Carl Schenck, engenheiro florestal alemão, treinou grande parte daquela que viria a ser a primeira geração do Serviço Florestal dos EUA, numa escola de silvicultura que só tinha uma sala – a primeira da América – nas montanhas da Floresta de Pisgah, na Carolina do Norte.

Apesar do amor que nutria pelas florestas da região da Appalachia, e do arrependimento que sentia por ter clareado enseadas selvagens de castanhas e tulipeiros – seguindo as instruções do seu chefe, George Vanderbilt – Carl Schenck e emissários como ele ajudaram a instituir um sistema que lentamente abandonou as florestas selvagens para adotar uma gestão florestal diferente. Este sistema assume que não podemos dissociar a “saúde florestal” da capacidade que uma floresta tem para fornecer uma produção planeada de madeira ou fibra.

A julgar pela produção ininterrupta de madeira, podemos dizer que é um sistema com um sucesso extraordinário.

Atualmente, existem árvores que estão a ser cortadas na Baviera e que foram plantadas especificamente para esse fim ainda antes da Revolução Americana. Enquanto isso, nos Estados Unidos, os “inventários” de madeira são tão elevados que o Serviço Florestal dos EUA, tal como o Instituto de Pesquisa Florestal Finlandês, está a investir em pesquisas de novos mercados – como a construção em madeira maciça. Em 2019, foram atribuídas bolsas no valor de 9 milhões de dólares para projetos inovadores em madeira. (E as candidaturas para 2020 também já abriram.)

Porém, no sul dos EUA, onde os madeireiros e agricultores se orgulham de dizer que a região é "o berço de madeira do mundo", os inventários repletos de madeira ocultam algo. (Os defensores da indústria gostam de afirmar que as florestas estão a aumentar, algo que pode ser verdade, mas só se considerarmos "floresta" como uma área que só tem um propósito, independentemente do tipo de árvores que possa conter ou não. De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, uma zona de madeira cortada continua a ser uma floresta.)

Desde 1952, ano em que o plantio de florestas chegou a esta região, o referido sistema de gestão rigorosa, com uma biodiversidade limitada alimentada a herbicidas e pesticidas, deu origem a monoculturas de pinheiro Pinus taeda ao longo de cerca de 14 milhões de hectares – uma área um pouco maior do que a Flórida – invadindo grande parte de uma antiga floresta natural. Em 2017, no mundo inteiro, existiam 296 milhões de hectares de floresta plantada – uma área quase do tamanho da Índia que se propaga cerca de 1% anualmente.

Planos inúteis
Nas últimas décadas, a silvicultura alemã começou a abandonar o desbaste integral, adotando práticas que se assemelham à horticultura, mas em escalas de tempo extremamente longas. Um dos proprietários de uma serração alemã disse-me orgulhosamente: “Ficamos com uma paisagem onde não é possível perceber se abateram árvores.”

Mas estes sistemas planeados de plantações– como dizia Asikainen, o investigador finlandês – dependem de duas fundações instáveis. Exigem terrenos que competem com terras selvagens e de cultivo, e exigem a permanência de condições previsíveis ao longo de décadas, ou até séculos, ficando assim vulneráveis ao que vivemos atualmente em termos climáticos.

“Agora, já não podemos fazer planos. Continuamos a delinear os nossos esquemas, mas são inúteis”, diz von Bodelschwingh.

A paisagem florestal da Alemanha está a lidar com alterações profundas. No quintal de von Bodenschwingh, as árvores estão a crescer rapidamente sob um calor que atingiu números recorde na Europa. Estas condições fazem com que as árvores fiquem repletas de CO2 e nitrogénio, crescendo como se fossem adolescentes, superando a capacidade de sustento das suas próprias raízes – ficando assim vulneráveis às rajadas de vento ou ao peso da neve no inverno que facilmente quebram os troncos.

Von Bodenschwingh aponta para um abeto jovem, fruto de abetos mais antigos, que está a crescer onde antigamente havia um pântano de turfa. Estes abetos cresceram numa clareira que foi aberta na floresta, na década de 1990, pelos tornados Vivian e Viebke, dois tornados de inverno que devastaram a indústria madeireira alemã.

“Essas tempestades”, diz Esther von Roehm, uma senhora que trabalhava para o dono do terreno dos abetos, “foram traumatizantes”. Mas agora, as tempestades são tão comuns que nem Esther ou von Bodelschwingh se lembram dos nomes das mais recentes.

Para além disso, os silvicultores citam outros problemas: as colónias de besouros que aguardaram pacientemente por um inverno mais fraco em zonas de floresta morta, e que este ano avançaram agressivamente para atacar as novas plantações. Depois há a luta contra a podridão radicular que se propaga nos tocos infetados, no subsolo, e os fungos que apodrecem o interior das árvores.

"Daqui a 5 anos", diz von Bodelschwingh, "não teremos mais freixos nestas terras. E isso é algo que todos na Alemanha vão ter de enfrentar, porque estão a desaparecer em todo o lado."

“Estamos perante uma coisa que não vem nos livros. Não encontramos isto na história. Os nossos professores não sabem o que dizer. E os nossos planos a 10 anos são inúteis. Aliás, nem os planos a um ano servem de muito.”

Na floresta da Baviera, estamos rodeados por sinais de uma espécie de descompensação, pedaços de desgaste na economia rural. Von Roehm diz que os preços dos toros de abeto caíram a pique, removendo o incentivo que levava os donos dos terrenos a limparem os seus lotes – abrindo assim caminho para os besouros se instalarem.

Marc Castellnou, especialista em incêndios florestais na Catalunha, acredita que as florestas densamente povoadas da Europa Central podem em breve enfrentar uma nova vaga de incêndios como a que atingiu o Mediterrâneo, isto se o aquecimento, as doenças florestais e o abandono das regiões rurais continuarem a este ritmo. "E esse é um cenário de pesadelo", diz Castellnou.

Adaptação e diversificação
A solução, se é que existe uma, diz Asikainen, passa pela adaptação em detrimento do planeamento, e pela diversidade em vez de monocultura. Ou seja, uma inversão nas tendências dos últimos dois séculos. De regresso ao Instituto de Pesquisa Florestal, na Finlândia, Asikainen liga o seu computador para me mostrar um mapa com as previsões das perdas – devido aos ventos – em determinadas parcelas de terrenos que se estendem por um lago no leste da Finlândia, uma região onde Asikainen tem uma casa de campo.

“O paradigma do futuro recai na gestão dos riscos e não no planeamento rigoroso de antigamente.”  É necessário fazer um mapeamento remoto e análises preditivas para ajudar os proprietários dos terrenos a levarem em consideração as perdas futuras – relativamente à podridão radicular, fungos, insetos, incêndios e tempestades de vento.

“Os ciclos de abate das árvores também vão ser mais curtos”, diz Asikainen, o que significa que as florestas vão armazenar, em média, menos carbono.

E também significa uma necessidade urgente em reorganizar o atual sistema, isto se quisermos continuar a produzir de forma consistente os bens de consumo – duradouros ou descartáveis – dos quais as sociedades ocidentais tanto dependem. Atualmente, a dependência de um sistema deste género acarreta mais problemas do que soluções, diz Asikainen. A era das florestas de monocultura industrial, um padrão seguido pelo mundo inteiro, deixou a indústria dos produtos de madeira terrivelmente exposta a qualquer praga ou alteração no ambiente.

"Uma estratégia construída em torno da biodiversidade pode ser mais resistente do que as monoculturas. Temos de regenerar a floresta de forma a responder às alterações nas condições de crescimento. Precisamos de favorecer espécies de árvores mais resilientes.”

Tendo por base as obras de Cotta do século XIX, a resposta pode passar pela aceitação de um dos maiores tabus do Ocidente moderno: o declínio. "Tal como um bom médico não consegue impedir que os homens morram, porque esse é o curso da natureza, o melhor dos silvicultores também não consegue impedir que as florestas, que chegaram até nós vindas do passado, se transformem em algo menor quando estão a ser exploradas", escreveu Cotta no seu Prefácio.

No mapa que Asikainen me mostrou no seu computador, uma das regiões, perto da sua casa de campo, estava a azul: significava baixo risco. Asikainen suspirou – era uma área de monocultura onde o proprietário tinha vendido os abetos e replantado a zona com mudas novas. Agora, as mudas estão em fileiras organizadas, tão selvagens quanto uma safra de milho, tão vigorosas e fibrosas quanto o algodão, e os seus corpos jovens dobram-se sem qualquer esforço perante os ventos de qualquer mudança que se avizinhe no horizonte.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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