A Terra Sofreu Mais Extinções em Massa do que Pensado

Todos estes períodos de desaparecimento repentino e drástico de espécies seguem um padrão, revelando que as perdas provocadas pelo clima da atualidade são preocupantes.segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Para as pessoas que acreditam que estamos a caminhar para um colapso no número global de espécies, a crise existente na biodiversidade é frequentemente denominada de "sexta extinção em massa". Mas, argumentam alguns cientistas, o nome devia ser “sétima extinção em massa”.

Em 1982, Jack Sepkoski e David Raup, paleontólogos quantitativos da Universidade de Chicago, fizeram um balanço sobre as piores extinções em massa da Terra, denominando-as de Cinco Grandes. Este exercício inclui o final do período Permiano, o maior evento de extinção de todos os tempos, que ocorreu há cerca de 252 milhões de anos e eliminou 95% das espécies marinhas.

A carnificina do final do Permiano ofuscou outro evento de extinção que aconteceu apenas 8 milhões de anos antes, no final da era Guadalupiana. Nos últimos 30 anos, os geólogos aprofundaram mais o seu conhecimento sobre o final deste período, que é agora amplamente reconhecido como um evento distinto. Alguns cientistas argumentam que este extermínio foi grande o suficiente para se classificar entre o panteão de apocalipses do passado, e propõem renomear o grupo dos principais eventos de extinção para Seis Grandes.

Na história de vida do planeta existiram muitos reveses e contratempos, e os geólogos que destacam e analisam os maiores eventos estão a começar a descobrir padrões e a encontrar causas comuns. E existem cada vez mais evidências que sugerem que muitos dos eventos de extinção global estão associados ao esgotamento de oxigénio nos oceanos, um sintoma do aquecimento do efeito estufa que tem implicações preocupantes, sobretudo se considerarmos os efeitos atuais das alterações climáticas. O final do período Guadalupiano encaixa-se nesta tendência.

"Creio que existe um problema em manter o número cinco", diz Richard Bambach, paleoecologista marinho e professor emérito de paleontologia no Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia. Richard fez a revisão do importante estudo de Sepkoski e Raup. Quando olhamos para as percentagens, o final do Permiano esteve muito mais perto de acabar com toda a vida. Mas, diz Richard, o final do Guadalupiano foi completamente devastador para a biodiversidade.

"Se olharmos realmente para os números em bruto, a perda de táxons no Guadalupiano foi superior à do Permiano".

Inundações de lava
O final do Guadalupiano é assinalado pelas Armadilhas de Emeishan, no sudoeste da China – um monumento a uma inundação de lava que irrompeu no oceano há 260 milhões de anos e que escoou mais de um milhão de quilómetros quadrados de lava. O evento desencadeou plumas de metano e de dióxido de carbono que afetaram o clima, matando perto de 60% das espécies marinhas, principalmente nas águas tropicais rasas em torno do supercontinente Pangea.

Os chamados basaltos de inundação, como as Armadilhas de Emeishan, existem por todo o mundo e demonstram estar alinhados com as cinco grandes extinções em massa. "É uma correlação de um para um", diz Michael Rampino, geólogo na Universidade de Nova Iorque.

Mas os geólogos que estudam extinções em massa nem sempre se guiaram pelos basaltos de inundação. A partir da década de 1980, depois de Luis e Walter Alvarez terem levantado a hipótese de que tinha sido o impacto de um meteoro a exterminar os dinossauros não-aviários, equipas de geólogos procuraram em vão por evidências de impactos de meteoros que pudessem explicar as outras extinções em massa.

Dada a ausência de resultados, Michael Rampino focou as suas atenções nos basaltos de inundação, observando que as Armadilhas de Decão, na Índia, se formaram na mesma época do impacto de Chicxulub e da extinção final do Cretáceo. O final do Permiano também foi marcado pelas Armadilhas da Sibéria que são ainda maiores. (Descubra como é que os cientistas conseguiram desvendar o último dia do reinado dos dinossauros.)

"Passei de homem que procurava impactos para um homem do vulcanismo", diz Michael. Na última década, a sua investigação concentrou-se em correlacionar os basaltos de inundação com outras extinções em massa e também com períodos de esgotamento de oxigénio e acidificação nos oceanos.

Na década de 1980 não existiam meios de investigação para fazer este tipo de associações, as tecnologias de datação de fósseis e rochas não eram completamente fiáveis. Mas nos últimos 5 anos, os métodos avançados de datação radiométrica ofereceram registos temporais cada vez mais precisos para os eventos geológicos. A datação por zircão com chumbo e urânio substituiu a datação árgon que era mais imprecisa, e as margens de erro que costumavam abranger milhões de anos situam-se agora nos milhares, aumentando consideravelmente a resolução dos dados.

Com esta nova especificidade, os geólogos podem afirmar com segurança que a inundação de lava do final de Guadalupiano ocorreu num período de 100.000 anos –em termos geológicos foi instantânea – e coincidiu com a crise de extinção documentada no registo fóssil.

Factos sobre Fósseis

Num estudo publicado recentemente em Historical Biology, Michael Rampino e o coautor Shu-Zhong Shen, da Universidade de Nanjing, reuniram os dados mais recentes sobre as Armadilhas de Emeishan e incluíram uma análise sobre os danos ecológicos da extinção do final do Guadapuliano, de forma a sustentar a sua inclusão entre o grupo dos Seis Grandes.

As mudanças feitas no ecossistema no final do Guadalupiano foram dramáticas, diz a equipa. Os enormes recifes e esponjas de corais que enchiam os mares sofreram um colapso generalizado, juntamente com outros organismos que construíam conchas de carbonato de cálcio e que se podem ter dissolvido na acidez da água. Os moluscos gigantes com conchas que pareciam naves extraterrestres desapareceram para sempre, e muitas das espécies de cefalópodes chamados amonites também se extinguiram.

A mortalidade em terra é mais complexa para os geólogos, mas sabe-se que existia um grupo de proto-mamíferos grandes e de crânio grosso, chamados Dinocephalia. Após a crise, os vegetais sem sementes dominantes foram substituídos por gimnospermas com sementes, como as coníferas e ginkgo.

Revisão do registo
Os novos cálculos também esclarecem o momento da primeira e da última aparição de espécies no registo fóssil geral. Os investigadores citam um estudo de 2016 que argumenta que, devido a uma má datação, muitas das espécies que se extinguiram no Guadalupiano foram erradamente atribuídas ao final do Permiano, conferindo a este último um registo de extinção a rondar os 95% das espécies marinhas, quando na realidade pode ter ficado perto dos 80%.

Richard Bambach salienta que tem algumas dúvidas sobre as avaliações feitas pelo estudo, nomeadamente os danos ecológicos do final do Guadalupiano. Os níveis globais do mar atingiram o seu ponto mais baixo durante o Guadalupiano e subiram novamente após o evento de extinção, o que significa que ficaram preservados relativamente poucos recifes do Guadalupiano em rocha acessível aos paleontólogos.

"Algumas ausências de ecossistemas podem simplesmente dever-se a uma deterioração da qualidade, ou da quantidade, do registo preservado", diz Richard. Mas na China existem fósseis marinhos do período Permiano que têm vindo a ser datados por Shu-Zhong Shen, refinando o retrato biológico do Guadalupiano.

Ainda assim, Richard Bambach concorda em termos gerais com Michael Rampino e Shu-Zhong Shen que está na hora de adicionar o final do Guadalupiano ao grupo dos Cinco Grandes: "Tem tudo para estar ao nível dos maiores eventos de extinção.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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