Alforrecas que Picam sem Tocar – Lançam ‘Granadas de Muco’

As alforrecas Cassiopea compensam a sua falta de tentáculos com a libertação de nuvens pegajosas que estão repletas de ferrões autónomos.

Thursday, February 27, 2020,
Por Jason Bittel
Nesta imagem vemos a jovem adulta ‘Cassiopea’, ou alforreca de cabeça para baixo, fotografada no Departamento ...
Nesta imagem vemos a jovem adulta ‘Cassiopea’, ou alforreca de cabeça para baixo, fotografada no Departamento de Zoologia de Invertebrados do Museu Nacional de História Natural Smithsonian. Uma equipa liderada por cientistas do Smithsonian, da Universidade do Kansas e do Laboratório de Investigação Naval dos EUA descobriu estruturas microscópicas no interior do muco segregado pelas alforrecas de cabeça para baixo.
Fotografia de Allen Collins

Se nadarmos pelas águas das florestas de mangais do mundo inteiro, desde a costa da Flórida à Micronésia, podemos encontrar alforrecas que nos picam mesmo sem terem tentáculos. Na realidade, nem precisamos de lhes tocar para sentirmos os seus efeitos.

Como é que isso é possível? De acordo com um estudo publicado na Communications Biology, estes efeitos devem-se a nuvens de muco que estão repletas de “granadas” microscópicas de veneno.

Estas alforrecas, conhecidas pelo nome de alforreca de cabeça para baixo, vivem no fundo do oceano com a cabeça para baixo, e são objeto de estudo há mais de um século. Mas, até agora, ninguém sabia como é que o muco das alforrecas funcionava. Esta descoberta podia explicar como é que as alforrecas afetavam os nadadores, mesmo à distância.

“Sabíamos que o muco podia ter qualquer coisa”, diz Cheryl Ames, bióloga marinha no Smithsonian e uma das coautoras principais do novo estudo.

As alforrecas de cabeça para baixo do género Cassiopea produzem toneladas de muco pegajoso que aprisiona presas mais pequenas, como artémias (parecem camarões minúsculos), como se fosse uma teia de aranha. E alguns peixes também acabam por morrer neste muco. Para além disso, quando os humanos nadam perto das alforrecas, podem sentir o que é conhecido por “sensação de picada na água” em qualquer zona do corpo onde a pele não está exposta, e sem nunca entrar em contacto com os invertebrados. Esta sensação é normalmente descrita como uma comichão ou irritação de queimadura, mas os testes laboratoriais feitos ao veneno sugerem que a exposição em excesso pode ser nociva.

Quando Cheryl Ames e a sua equipa observaram o muco ao microscópio, descobriram algo a nadar na sua composição.

Os cientistas chamam a estas estruturas recém-descritas de cassiossomas, mas podemos imaginá-las como se fossem pedaços microscópicos de pipocas. Cada uma das “granadas” é composta por um núcleo de células urticantes, chamadas nematocistos, e por 60 a 100 cílios, semelhantes a pilosidades, que permitem aos cassiossomas navegar pela água.

“Eram autónomos”, diz Cheryl, “moviam-se como se fossem um aspirador Roomba, embatiam nas artémias que os alimentavam e seguiam para o alvo seguinte.”

Segredo do muco
Ao início, os investigadores acreditavam que as estruturas podiam ser parasitas. Mas depois de examinarem os glóbulos com uma série de novas tecnologias, incluindo análises de ADN e observatórios microscópicos para analisar as estruturas em 3D, a equipa encontrou uma origem ainda mais surpreendente. Os cassiossomas eram compostos pelas mesmas células urticantes que revestem o corpo das alforrecas de cabeça para baixo.

Depois de uma investigação mais ampla, a equipa encontrou cassiossomas em mais quatro espécies de alforrecas, sugerindo que estas estruturas não são anormalidades singulares, mas talvez uma característica comum.

Uma ‘Cassiopea’, ou alforreca de cabeça para baixo, no Aquário Nacional, em Baltimore, nos EUA.
Fotografia de of National Aquarium via Cheryl Ames

Muitos dos cassiossomas traziam consigo outra surpresa: algas. Algumas espécies de algas servem como simbiontes para as alforrecas Cassiopea, fornecendo-lhes nutrientes recolhidos da luz solar através da fotossíntese. Estas algas conferem às alforrecas de cabeça para baixo a sua variedade de tons rosa, azulados e verdes.

“Não sabemos ao certo o que as algas fazem ali [dentro dos cassiossomas]”, diz Anna Klompen, bióloga marinha especializada em alforrecas que está a concluir o doutoramento na Universidade do Kansas e é outra das coautoras principais do estudo.

As algas podem funcionar como baterias a energia solar, visto que os cientistas sabem que os cassiossomas conseguem sobreviver e viajar de forma autónoma até 10 dias. “Mas ainda não conseguimos confirmar este processo com as técnicas usadas até agora”, diz Cheryl.

Apesar de parecer evidente que os cassiossomas têm, por assim dizer, alguma vontade própria, são necessárias mais investigações para perceber se conseguem sentir as presas ao seu redor, se conseguem mover-se na sua direção, ou se são simplesmente células em piloto automático.

“Não sei se os cassiossomas conseguem procurar”, diz Anna, “mas conseguem definitivamente destruir.”

“Uma adaptação notável”
Para Angel Yanagihara, especialista em bioquímica e alforrecas na Universidade do Havai, em Manoa, as novas descobertas respondem a algumas questões de longa data sobre a sensação de irritação dentro de água.

“A explicação óbvia de que o muco por si só era um alérgeno, ou alergénico, não me parecia credível”, diz Angel, que não integrou a equipa deste novo estudo. “Portanto, é muito satisfatório ver uma descrição tão detalhada do que está a acontecer.”

As alforrecas de cabeça para baixo são conhecidas por Medusozoa, diz Angel Yanagihara, e são tradicionalmente consideradas alforrecas que nadam. Mas, estranhamente, as Cassiopea evoluíram para ficar no fundo do oceano, um pouco como as suas parentes distantes, as anémonas.

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A descoberta dos cassiossomas é um passo em frente na compreensão de como é que estas criaturas conseguem capturar presas. “É uma adaptação notável”, diz Angel.

A forma exata de como as alforrecas conseguem beneficiar deste muco letal ainda não foi descrita pelos cientistas, mas Cheryl diz que o laboratório já encontrou algumas sugestões. Quando alimentamos uma das alforrecas com artémias, conseguimos observar o muco a transformar-se numa “nuvem rosa” – fica cheio de crustáceos desfeitos.

“Cerca de 24 horas depois, a nuvem rosa desaparece”, diz Cheryl.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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