Estas Condições Subjacentes – e Comuns – Agravam o Coronavírus

Existem muitas pessoas que estão em risco, incluindo pessoas com diabetes e tensão alta. Eis como se podem preparar para lidar com a situação.

Wednesday, March 18, 2020,
Por Nsikan Akpan
Médicos examinam uma imagem de tomografia de um pulmão num hospital do condado de Yunmeng, na ...
Médicos examinam uma imagem de tomografia de um pulmão num hospital do condado de Yunmeng, na cidade de Xiaogan, na província central chinesa de Hubei.
Fotografia de STR/AFP/China OUT via Getty Images

A tensão alta, os diabetes e as doenças cardiovasculares são tão comuns que praticamente todos nós conhecemos alguém que tem pelo menos uma destas doenças.

Com base nos perfis clínicos precoces da doença, estas também são as “condições subjacentes” mais associadas aos casos graves de COVID-19. Apesar de 80% dos casos de COVID-19 serem ligeiros, estes relatórios revelam que o novo coronavírus pode colocar em risco outras pessoas para além de idosos e pessoas debilitadas.

A ideia de que o vírus representa apenas uma ameaça para as pessoas idosas deve-se ao foco excessivo na taxa de mortalidade do COVID-19, que a Organização Mundial de Saúde atualizou no dia 4 de março para os 3.4%. Esta taxa é uma média entre idades, e revela que as probabilidades de morte aumentam entre os idosos.

Nota: Não foram registadas mortes por COVID-19 em crianças com menos de 9 anos.
Fotografia de KENNEDY ELLIOTT, NG STAFF. FONTES: Organização Mundial de Saúde; Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da China

Mas os indícios também mostram que o COVID-19 é mais letal ao longo de todas as faixas etárias do que a gripe sazonal, com taxas de mortalidade 6 a 10 vezes superiores nas pessoas com menos de 50 anos de idade. Para além disso, a morte não é o único perigo, e os casos graves de COVID-19 são mais comuns entre os jovens do que se pensa.

Por exemplo, um estudo publicado no dia 28 de fevereiro no New England Journal of Medicine examinou a faixa etária de 1.099 pacientes com coronavírus. A maioria dos casos mais ligeiros – 60% – são adolescentes e adultos entre os 15 e os 49 anos, sugerindo que este grupo pode ser poupado aos efeitos mais severos do vírus.

Mas os casos graves também foram um pouco mais abundantes na demografia mais jovem. Dos 163 casos graves visados no estudo, 41% eram jovens adultos, 31% tinham entre 50 e 64 anos e 27% tinham mais de 65 anos. A única faixa etária poupada pelos casos graves de COVID-19 parece estar nos jovens com menos de 14 anos.

De acordo com o maior perfil até à data de COVID-19 – um relatório clínico com mais de 72.000 pacientes publicado no dia 21 de fevereiro pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da China – a geração Y e a geração Z têm as mesmas probabilidades de apanhar o coronavírus que os grupos nas faixas etárias mais velhas. Portanto, em vez de depender da idade para avaliar quem está mais ameaçado pelo COVID-19, os médicos dizem que devemos observar as condições subjacentes mais comuns, e a forma como correspondem às taxas de mortalidade relatadas pelo Centro de Controlo de Doenças chinês. Isto pode oferecer pistas sobre a forma como nos devemos proteger e como podemos proteger os nossos entes queridos.

“A taxa de mortalidade deste surto é elevada. Não devemos categorizá-la por jovens ou idosos”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, durante um comunicado feito no dia 9 de março. “Não podemos dizer que estamos preocupados com milhões, quando não nos importamos com um indivíduo por ser mais velho ou mais novo... todas as vidas individuais são importantes.”

Complicações cardiovasculares
O novo coronavírus desfaz os pulmões, mas a condição subjacente mais relacionada com os piores resultados de COVID-19 são os problemas cardíacos.

FONTE: Organização Mundial de Saúde
Fotografia de KENNEDY ELLIOTT, NG STAFF.

Quase metade dos adultos residentes nos Estados Unidos tem tensão alta. Da mesma forma, a diabetes também é um nome familiar e 1 em cada 10 americanos – 34.2 milhões de pessoas de todas as idades – lidam com este distúrbio metabólico. Ambos podem desempenhar um papel nas doenças cardiovasculares, com um vasto espectro de distúrbios que matam uma pessoa aproximadamente a cada 37 segundos nos Estados Unidos.

Apesar de não se conhecer a influência específica do COVID-19 no sistema cardiovascular, o Instituto Americano de Cardiologia diz: “Existem relatos de lesões cardíacas agudas, arritmias, hipotensão, taquicardia e uma proporção elevada de doenças cardiovasculares nos indivíduos infetados, sobretudo nos que precisam de cuidados intensivos.” Um estudo feito com 150 pacientes de Wuhan, na China – o epicentro do surto de coronavírus – descobriu que, quando infetados, os pacientes com doenças cardiovasculares tinham um risco significativamente mais elevado de morte.

Isto acontece porque o coração e os pulmões estão incrivelmente interligados. Se inspirarmos e expirarmos rapidamente, o nosso pulso aumenta automaticamente o ritmo. Mas se o nosso coração já estiver fraco, ou se tivermos as artérias obstruídas, o nosso corpo esforça-se mais do que o de uma pessoa normal para circular o sangue e oxigénio por todo o corpo.

“Se este novo vírus continuar a entrar nas nossas comunidades a este ritmo, fico seriamente preocupada com os meus pacientes cardíacos”, diz Erin Michos, cardiologista e diretora de Saúde Cardiovascular na Faculdade de Medicina Johns Hopkins, em Baltimore, nos EUA. “Durante o dia-a-dia, o coração destas pessoas já está em esforço para bombear de forma eficaz, e depois ainda adicionamos uma infeção respiratória grave. Esse é o ponto de inflexão.”

Os distúrbios cardíacos são outra das áreas onde o coronavírus reflete o que acontece com a gripe. A gripe já se estabeleceu há muito tempo como uma propulsora de ataques cardíacos e doenças cardiovasculares, tanto que alguns médicos se interrogam se o vírus sazonal é uma causa direta. Um estudo publicado em 2018 no New England Journal of Medicine descobriu que, no espaço de 7 dias após um diagnóstico de gripe, as pessoas tinham 6 vezes mais probabilidades de sofrer um ataque cardíaco.

“Penso que a comunidade não tem noção da situação”, diz Michos. “Sabemos que os vírus podem desencadear um ataque cardíaco ou um AVC.”

Para além disso, as pessoas também podem ficar infetadas com mais de uma doença ao mesmo tempo, exacerbando ainda mais as condições cardíacas pré-existentes. Num estudo preliminar feito com pacientes com coronavírus em Wuhan, 4% dos casos confirmados foram infetados com um segundo vírus, sobretudo com gripe.

“Se o nosso sistema imunitário estiver enfraquecido, porque já estamos a lutar contra um patógeno, ficamos mais suscetíveis a uma infeção secundária”, diz Michos.

É por esta razão que Erin Michos, o Centro de Controlo de Doenças (CDC) dos EUA e a Associação Americana de Cardiologia recomendam que os pacientes cardíacos tomem precauções adicionais à medida que o surto de coronavírus aumenta, e isto inclui a vacinação contra a gripe e pneumonia bacteriana.

Pressão adjacente
Quando se trata de assuntos do coração, muitas pessoas podem estar em risco devido a condições subjacentes que nem sabem que têm. Por exemplo, a tensão alta – ou hipertensão – contribui para a aterosclerose, um processo onde as paredes dos vasos sanguíneos ficam com placas densas feitas de gordura e tecido fibroso. Se uma destas placas corroer ou se romper, pode bloquear o vaso sanguíneo, originando um ataque cardíaco ou AVC.

Michos diz que muitas das pessoas podem ter estas placas e hipertensão sem saberem. O CDC estima que 108 milhões de americanos têm hipertensão e que cerca de 11 milhões não sabem que têm.

É aqui que entra a ameaça das infeções respiratórias, como a gripe e o coronavírus. Estas infeções podem criar uma “tempestade sanguínea” de inflamação que se espalha pelo corpo de uma pessoa. (Descubra o que o coronavírus faz ao corpo humano.) Um estudo inicial com os pacientes de Wuhan detetou “miocardite fulminante”, uma síndrome invulgar que corrói os músculos do coração.

“Sabemos que, sobretudo nas pessoas que não têm um histórico de doenças cardiovasculares, a inflamação pode ser um gatilho para a rutura das placas”, diz Michos. A diabetes também pode estimular a aterosclerose e acelerar estas ruturas de placas, e as pessoas que padecem desta doença também têm sistemas imunitários relativamente mais fracos, ficando assim mais vulneráveis a infeções.

Dado que estamos na época gripal e a enfrentar a crise do coronavírus, Michos recomenda que os pacientes cardíacos e os diabéticos devem assegurar-se de que tomam a medicação regular e devem verificar se a pressão arterial está sob controlo.

Plano de ação para a asma
Para além da saúde cardíaca, o surto de coronavírus também tem sérias implicações para as pessoas com doenças respiratórias crónicas – seja fibrose cística, doença pulmonar obstrutiva crónica, asma ou alergias – bem como para as pessoas com danos nos pulmões relacionados com o tabagismo. E os casos de constipações ligeiras ou de gripe também se podem agravar com estas condições.

O COVID-19 distingue-se de forma alarmante devido ao seu longo período de incubação, antes do aparecimento dos sintomas, que varia entre os 2 e os 14 dias. Nos EUA, existe um atraso de 6 semanas nos testes de coronavírus devido a um erro técnico cometido pelo CDC. Estes fatores contribuem para uma situação onde as pessoas podem estar infetadas e são contagiosas, mas não têm consciência disso. E um novo estudo publicado no The Lancet descobriu que os pacientes com coronavírus vertem o vírus, um indicador de contágio, durante 8 a 37 dias.

Factos sobre Pulmões

“Antes de viajarem, aconselho todas as pessoas com doenças respiratórias crónicas, sobretudo as que usam os transportes públicos, a elaborarem um plano de proteção”, diz Enid Neptune, pneumologista na Faculdade de Medicina Johns Hopkins. Este plano pode ser tão simples como o aumento das dosagens de medicação de rotina, ou identificar quais são os hospitais mais próximos com especialistas em doenças respiratórias.

“Isto também implica não ir a festas ou reuniões onde não se sabe qual é o estado de saúde dos participantes, ou onde estiveram”, diz Neptune. Acima de tudo, os pacientes devem procurar aconselhamento profissional.

“Por vezes, os pacientes sentem que estão a ser alarmistas e que estão a incomodar desnecessariamente os seus médicos”, diz Neptune. “Mas, quando há muita desinformação no domínio público e quando ainda não se sabe muito sobre o vírus, é prudente usar os contactos médicos.”

Contenção de cancro
Os pacientes com cancro também estão incluídos no grupo que precisa de ter cuidados com as condições respiratórias. As pessoas que estão a fazer tratamentos com terapias intensivas para a leucemia, ou linfoma, e as que vão fazer transplantes de medula óssea, estão entre as mais vulneráveis às pneumonias, incluindo as versões virais. Isto acontece porque os seus sistemas imunitários estão geralmente comprometidos devido aos tumores, ou devido aos tratamentos que recebem.

“Os pacientes que já fizeram tratamentos contra o cancro também podem estar imunologicamente comprometidos, apesar de, aparentemente, terem recuperado”, diz J. Leonard Lichtenfeld, vice-diretor médico da Sociedade Americana de Cancro.

Factos sobre o Cancro
O que é o cancro, e como começa? Descubra o papel desempenhado pela genética, quais os tipos de cancro mais comuns e o que está a ser feito para combater esta doença mortal.

Por vezes, estes pacientes com cancro estão tão comprometidos que não podem ser vacinados, e dependem da proteção oferecida pela imunização de toda a comunidade. Por enquanto, a única intervenção para os pacientes vulneráveis ao cancro é o distanciamento social e as práticas de higiene mais rigorosas por parte dos seus familiares e profissionais de saúde.

“Estas situações são complicadas porque os pacientes com cancro estão em estágios diferentes da doença, e é óbvio que querem estar com seus entes queridos”, diz Lichtenfeld. “Mas estamos todos juntos nisto e precisamos de tomar as medidas adequadas para nos protegermos e para proteger aqueles que amamos.”

As crianças estão bem?
Ao mesmo tempo, todos os dados recolhidos até agora sugerem que o COVID-19 é mais raro e que não é tão severo nas crianças. Até ao dia 11 de fevereiro, o CDC da China registou 44.600 casos confirmados, mas apenas 400 envolviam crianças com menos de 9 anos e nenhuma morreu. Isto significa que as crianças têm menos probabilidades de serem infetadas ou que não ficam muito doentes?

“Todos nós achamos que as crianças podem não adoecer muito”, diz John Williams, chefe da divisão pediátrica de doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh. Mas o rastreamento precoce constatou que as crianças têm as mesmas probabilidades de apanhar o novo coronavírus que os adultos. O número baixo de casos relatados até agora em crianças pode dever-se à concentração dos testes nos hospitais, diz Williams. “Quando os testes envolverem mais pacientes com sintomas ligeiros, pacientes nas clínicas e nos consultórios médicos, podemos encontrar mais adultos e provavelmente muito mais crianças infetadas.”

A observação de menos crianças com efeitos graves de COVID-19 tem alguma precedência entre os outros coronavírus e doenças infecciosas. Há 20 anos, registaram-se casos pediátricos durante a epidemia de coronavírus da SARS, mas a maioria era ligeira. Apesar de a varicela ainda ser ocasionalmente letal para as crianças, os adultos não vacinados que apanham a doença têm muito mais probabilidades de sofrer uma pneumonia grave e acabar no hospital.

Factos sobre o Vírus da Gripe

“Para qualquer doença infecciosa, parte dos sintomas e danos é provocada pelo próprio germe, enquanto que outra parte é causada pelo sistema imunitário a responder à infeção”, diz Williams. “Portanto, acredita-se que as crianças, que têm sistemas imunitários mais imaturos, não respondem de forma tão agressiva às infeções como os adultos.”

Apesar de esta valência nas crianças, os encerramentos das escolas no mundo inteiro são justificados, porque as crianças são os principais disseminadores de todas as doenças respiratórias conhecidas. Nos EUA, cerca de 20% das crianças americanas ficam todos os anos infetadas com gripe, ao passo que nos adultos este número baixa para os 5%.

“Também temos muitas crianças vulneráveis com condições crónicas neste país”, diz Williams, como os pacientes de transplantes, em quimioterapia para o cancro, ou crianças com doenças crónicas cardíacas e pulmonares. “Ainda não sabemos se as crianças com estas condições correm um risco mais elevado de doença grave de COVID-19, mas com base nos outros vírus, diria que sim.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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