Falar com as Crianças Sobre o Coronavírus

Permanecer calmo e ser sincero ajuda a aliviar a ansiedade nas crianças.segunda-feira, 16 de março de 2020

Com o encerramento das escolas e os grandes eventos cancelados, as crianças provavelmente têm dúvidas e preocupações sobre o novo coronavírus, ou COVID-19. Este tema pode ser difícil, sobretudo quando nós próprios nos debatemos com as mesmas questões e preocupações.

“As crianças precisam de se sentir seguras e não se devem preocupar”, diz Katie Ryder, médica pediatra do Grupo Médico Mid-Atlantic Permanente, em Rockville, nos EUA. “Esse é o nosso papel enquanto adultos em quem as crianças confiam, para as ajudarmos neste processo.”

Eis algumas dicas sobre como falar com as crianças sobre o coronavírus.

Acima de tudo, mantenha a calma
Sim, é mais fácil falar do que fazer. Mas as crianças conseguem sentir o nosso estado de espírito. Se demonstrarmos pânico ou ansiedade, as crianças também o sentem. Em vez disso, devemos validar as preocupações das crianças para mostrar que compreendemos as razões por detrás do seu nervosismo – e um pouco de nervosismo não tem nada de mal. “Mas é importante que as crianças percebam que não há necessidade de entrar em pânico”, diz Ryder.

Depois, devemos falar tranquilamente sobre o que está a acontecer e assegurar que existem pessoas que estão a trabalhar arduamente para melhorar a situação. “As crianças precisam de saber que os adultos estão a trabalhar em conjunto para garantir a sua segurança”, diz Rebecca Goertzel, diretora da Escola Primária Chautauqua, na Ilha Vashon, na costa de Seattle.

Vá ao encontro das necessidades das crianças
As crianças mais pequenas podem não fazer perguntas e, nesse caso, não há motivo para tocar no assunto. Mas há outras crianças que querem respostas, e os pais não devem deixar de falar sobre o que está a acontecer. “Seja honesto”, diz Goertzel. “Mas não as assuste, nem seja alarmista.” Limitar a exposição às reportagens televisivas e redes sociais – sobretudo quando a taxa de infeção continua a aumentar – pode ajudar, uma vez que muita da imaginação das crianças pode seguir numa direção semelhante a um apocalipse zombie.

Ajude as crianças a sentir que podem ajudar
Uma das melhores formas de acalmar as crianças é fazê-las sentir que se podem proteger – e que também podem ajudar a proteger os outros. Explique que o respeito das regras das autoridades de saúde também ajuda outras pessoas e que assim as crianças não propagam o vírus. “É assim que as crianças devem agir – fazer o que sabem que devem fazer para se manterem a si e aos outros saudáveis”, diz Ryder.

Portanto, quando informa as crianças como podem evitar adoecer – com lavagens frequentes das mãos, espirrar e tossir para as pregas dos cotovelos e evitar tocar no rosto – ajude-as a compreender que estas ações também protegem os outros. “E faça com que seja divertido”, diz Goertzel. “Ensine-as a usar os cotovelos para cumprimentarem os outros, em vez de usarem as mãos.”

Seja realista sobre o facto de poderem adoecer
A boa notícia é a de que parecem estar poucas crianças infetadas com o coronavírus e, quando eventualmente adoecem, os sintomas costumam ser ligeiros. Explique às crianças que elas já estiveram doentes com coisas semelhantes, com constipações ou gripe, e que melhoraram. E explique que o coronavírus provavelmente vai afetá-las da mesma forma.

Ainda assim, as crianças podem ficar preocupadas com os outros membros da família. Mais uma vez, explique que a maioria dos adultos que teve a doença acabou por melhorar e que os médicos e cientistas estão a trabalhar arduamente para proteger a vida de todos. E em relação ao avô e avó? “Estamos a aconselhar que, se os pais ou filhos tiverem sintomas de constipações, para evitarem e adiarem estas visitas”, diz Ryder. Conforte as crianças com ligações telefónicas ou em vídeo para demonstrar que está tudo bem.

Mantenha uma rotina próxima da normalidade
Quando estamos a respeitar o “distanciamento social” e a escola dos nossos filhos está temporariamente encerrada, é importante fazer com que as crianças sintam que as suas vidas não vão ser muito afetadas. Estabeleça uma rotina diária em casa e (seguindo o conselho do seu médico) continue fazer atividades normais – seja ler uma história na hora de dormir, cozinhar com as crianças ou até mesmo brincar no quintal. “Na maioria dos casos, as crianças (livres de sintomas) podem brincar com os amigos”, diz Ryder. “Mas lembre-as de que devem respeitar as regras de espaço pessoal e que devem manter algum distanciamento para que, quando elas ou os seus amigos tossirem ou espirrarem, não o fazerem para cima uns dos outros.”

Considere fazer novas atividades domésticas à mesma hora todos os dias, como as chamadas em vídeo para os avós, ou exercícios físicos (pode dizer que é uma festa de dança!). Ficar fechado em casa e longe dos amigos não é muito divertido. “Mas, ao ficarem em casa, as crianças e as suas famílias estão a ajudar”, diz Goertzel. “As crianças fazem parte da solução.”


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Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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