Inundação Cataclísmica Deu Vida a Um Mediterrâneo Quase Seco

Novos indícios reacendem um antigo debate sobre a forma como este mar se ligou novamente ao oceano.

Wednesday, March 18, 2020,
Por Maya Wei-Haas
A única ligação entre o Mediterrâneo e os oceanos mundiais é feita através de uma estreita ...
A única ligação entre o Mediterrâneo e os oceanos mundiais é feita através de uma estreita faixa de água, que separa a Europa e África, conhecida por Estreito de Gibraltar – visto aqui numa imagem captada pela Estação Espacial Internacional.
Fotografia de NASA

As serenas águas turquesa do Mar Mediterrâneo escondem um segredo de paladar acentuado: uma camada de sal de até 3 quilómetros de espessura escondida nas profundezas da bacia. Estes minerais brancos são os vestígios de um antigo mar Mediterrâneo que desapareceu há milhões de anos. Alguns cientistas acreditam que o mar se evaporou por completo durante algum tempo – dissecou como o Saara mais a sul.

Mesmo depois de décadas de estudo, os detalhes sobre este desaparecimento e sobre as torrentes de água que mais tarde reabasteceram a bacia permanecem um mistério de longa data. O reabastecimento do Mediterrâneo, que aconteceu há cerca de 5 milhões de anos, pode ter sido a maior inundação da história do planeta. De acordo com uma estimativa, a torrente de água que encheu esta bacia cavernosa pode ter sido cerca de 500 vezes maior do que o fluxo do rio Amazonas.

“Foi uma coisa sensacional”, diz Daniel García-Castellanos, do Instituto de Ciências da Terra Jaume Almera, em Espanha. Numa análise feita recentemente, publicada na Earth-Science Reviews, Garcia-Castellanos e a sua equipa identificaram uma bolsa de sedimentos que pode ter sido depositada por uma inundação de proporções gigantescas.

Sem esta ligação cataclísmica com o Oceano Atlântico, o Mediterrâneo como o conhecemos atualmente não existiria. E as embarcações não teriam sido capazes de atravessar o curso de água para alimentar as ricas culturas que habitam as suas margens desde os primeiros estágios da civilização humana. Hoje, o Mar Mediterrâneo é vital na circulação global de água. A evaporação infunde as suas águas com uma dose extra de sal, e estas águas escoam para o Atlântico e ajudam a transportar correntes oceânicas pelo planeta, influenciando as temperaturas, os padrões das tempestades e muito mais.

À medida que as temperaturas da atualidade continuam a subir e as calotas polares a diminuir, é “muito importante” descobrir quais foram os processos que fizeram do nosso planeta o que é hoje, diz Rachel Flecker, geóloga na Universidade de Bristol.

Inundação cataclísmica
Hoje, os milhões de quilómetros cúbicos de água do Mar Mediterrâneo estão constantemente em evaporação, com mais de 1 metro de água a evaporar todos os anos. As chuvas e os rios não conseguem saciar este sistema por si só. A única fonte de água que mantém este corpo de água estável é o fluxo constante que vem do Oceano Atlântico, e que flui pelo estreito canal entre Espanha e Marrocos, o Estreito de Gibraltar.

Há muitos milhões de anos, as alterações tectónicas nas profundezas podem ter empurrado a paisagem para cima, afetando a ligação vital entre o Mediterrâneo e o Oceano Atlântico. É provável que as águas continuassem a fluir para a bacia, mas esta alteração pode ter interrompido a rota de fuga das densas correntes carregadas de sal, junto ao fundo da bacia, onde fluíam para o oceano. Há cerca de 6 milhões de anos, o sal começou a acumular – e acumulou o suficiente para dar a cada um dos 7.7 mil milhões de habitantes do planeta Terra quase 50 Pirâmides de Gizé cheias de sal.

Alguns investigadores sugerem que, antes da inundação, a região pode ter secado quase por completo, ficando com uma bacia cavernosa com perto de 2 quilómetros abaixo do nível atual do mar. Tudo o que separava esta bacia vazia e o poderoso Atlântico pode ter sido um pequeno pedaço de terra – onde atualmente fica o Estreito de Gibraltar (não se sabe ao certo qual era a largura deste pedaço de terra).

Há cerca de 5.3 milhões de anos, uma inundação colossal rompeu esta divisão e ligou o oceano ao mar. Mas, tal como a extensão da seca do Mediterrâneo ainda é debatida, o mesmo acontece com as proporções desta inundação. Com poucas evidências disponíveis, García-Castellanos e a sua equipa queriam saber com que rapidez a bacia vazia do Mediterrâneo podia encher. De acordo com os modelos de um estudo feito em 2009, a brecha provavelmente começou com um gotejar sobre a barragem natural que ligava a Europa da atualidade a África. Mas a erosão interferiu no processo, “e rapidamente se tornou imparável”, diz García-Castellanos.

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À medida que a quantidade de água aumentava, percorria um caminho mais profundo e permitia a passagem de ainda mais água. No seu auge, o fluxo pode ter jorrado 100 milhões de metros cúbicos por segundo, enchendo a bacia em dois anos ou menos. Este evento pode ter escavado cerca de 400 milhões de piscinas olímpicas de sedimentos, rasgando um canal através do Estreito de Gibraltar e esculpindo um desfiladeiro que se estende até ao fundo do mar.

“Seria como água a sair de uma mangueira de incêndio”, diz William Ryan, geólogo marinho na Universidade de Colúmbia que participou nos primeiros trabalhos de identificação dos depósitos de sal do Mediterrâneo.

Este evento cataclísmico transformou toda a região, movendo não apenas água, mas também pedaços de rocha, areia e tudo o que encontrou pela frente. “Quando temos este tipo de energia, os sedimentos não se mexem como se fossem pequenos grãos a saltitar no fundo do mar. Estava tudo misturado num caos muito turbulento”, diz Victor Baker, geólogo na Universidade do Arizona e especialista em grandes inundações.

Decifrar um mistério pré-histórico
Os geólogos do século XIX não consideravam possíveis inundações com esta dimensão. Eram necessárias provas de processos modernos para provar a ocorrência de tais eventos na antiguidade. “O problema é que as grandes inundações são raras”, diz Baker. Semelhante ao impacto catastrófico do asteroide Chicxulub, que mudou a vida na Terra para sempre, as inundações gigantes não acontecem todos os anos – ou sequer a cada milhão de anos.

Os cientistas começaram a investigar a história do Mediterrâneo na década de 1950, quando encontraram depósitos de sal nas suas margens, depósitos que sugeriam um mar antigo particularmente salgado. Na década de 1970, os investigadores a bordo do navio Glomar Challenger perfuraram núcleos no fundo do mar, permitindo finalmente a observação dos vestígios salgados de um período conturbado da história do Mediterrâneo.

Nas camadas superiores de sal foram encontradas características que se assemelhavam à superfície rachada de uma planície de lama – quando deixada a secar ao sol – um indício de que as águas nem sempre estiveram presentes, diz Ryan. Mas saber exatamente qual foi a quantidade de água que desapareceu do Mediterrâneo, e durante quanto tempo, ainda é um tema muito debatido.

Ao longo dos anos, muitos investigadores estudaram estas águas misteriosas e, com o acumular das evidências, a situação foi ficando cada vez mais complexa. Ao longo de toda a bacia podem ser encontrados fósseis de criaturas que apontam para um Mediterrâneo quase cheio de água, pouco antes da época apontada para a ligação ao Atlântico, diz Wout Krijgsman, geólogo na Universidade de Utrecht, nos Países Baixos. Talvez antes da inundação a região não fosse um deserto, mas sim um mar mais retraído.

Uma das grandes questões que García-Castellanos e outros tentam responder é: para onde foram todos os sedimentos? Estima-se que na bacia do Mediterrâneo podem estar espalhadas 240 milhas cúbicas de sedimentos, em zonas onde o fluxo de água era baixo. Mas os sedimentos, que assentaram muito antes de os humanos marcarem presença na região, estão agora enterrados no fundo do mar.

Para identificar estes vestígios antigos, os investigadores usam um método semelhante a um ultrassom geológico – enviam vibrações sísmicas de uma embarcação para o fundo do Mediterrâneo e medem os ecos. E foi descoberta uma bolsa de rochas e areia, possivelmente depositada pelo dilúvio, numa zona a leste da divisão entre as bacias ocidental e oriental. Observando os dados sísmicos mais antigos, García-Castellanos e os seus colegas acreditam ter encontrado outro depósito de sedimentos sob a forma de uma cauda rochosa que se estende ao longo de um vulcão submarino. Apesar de estas bolsas de sedimentos serem intrigantes, ainda não foram recolhidas amostras, portanto os cientistas não sabem exatamente quando se formaram, diz Flecker.

Porém, as respostas podem surgir em breve. Flecker e outros investigadores esperam perfurar vários locais por todo o Mediterrâneo à procura de pistas adicionais sobre estes momentos vitais do passado geológico da região.

“As futuras perfurações podem ter um impacto enorme e revelar o que realmente aconteceu, e como aconteceu”, diz Ryan.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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