Recordar Katherine Johnson – a Notável Matemática da NASA

Esta pioneira matemática ajudou a enviar os primeiros astronautas americanos para o espaço – incluindo as primeiras missões Apollo à lua.

Wednesday, March 11, 2020,
Por Nadia Drake
Katherine Johnson, investigadora matemática da NASA, sentada na sua secretária no Centro de Investigação Langley, em ...
Katherine Johnson, investigadora matemática da NASA, sentada na sua secretária no Centro de Investigação Langley, em Hampton, na Virgínia.
Fotografia de NASA

Katherine Johnson, a matemática que derrubou preconceitos e cujos cálculos ajudaram a NASA a enviar astronautas para o espaço, morreu no dia 24 de fevereiro. Katherine tinha 101 anos.

“Katherine G. Johnson recusou-se a ser limitada pelas expectativas da sociedade relativamente a género e raça, ao mesmo tempo que expandia os limites do alcance da humanidade”, disse Barack Obama quando concedeu a Katherine Johnson a Medalha Presidencial da Liberdade em 2015.

Durante décadas, Katherine Johnson, uma mulher afro-americana, esteve entre as pioneiras pouco reconhecidas da NASA. Na década de 1960, as suas capacidades requintadas em geometria analítica formaram a base para as missões espaciais mais ousadas da agência espacial, incluindo os primeiros voos tripulados à lua. Mas, tal como aconteceu com as outras mulheres negras que trabalhavam para a NASA na época, Katherine ficou praticamente na sombra – até 2016, quando Margot Lee Shetterly publicou o livro Elementos Secretos: O Sonho Americano e a História Desconhecida das Mulheres Negras Matemáticas Que Ajudaram a Vencer a Corrida Espacial.

O livro e o subsequente filme nomeado para os Óscares contam a história dos “computadores” da NASA – as mulheres que literalmente traçaram e computaram trajetórias aeronáuticas e astronáuticas – e colocaram Katherine Johnson no centro das atenções mundiais, quando esta já estava perto dos 100 anos de idade.

“De forma silenciosa, a qualidade da minha contribuição começou a superar as leis arbitrárias da segregação racial e os limites de género”, escreveu Katherine sobre os seus primeiros dias a trabalhar como computador. “Eu adorava mesmo ir trabalhar todos os dias.”

Paixão pelos números
Katherine nasceu em White Sulphur Springs, na Virgínia Ocidental, no dia 26 de agosto de 1918. A Primeira Guerra Mundial ainda não tinha acabado, Woodrow Wilson estava no seu segundo mandato de presidente dos Estados Unidos e a corrida espacial alimentada pela Guerra Fria ainda estava a décadas de distância. As mulheres não podiam votar, e a discriminação racial era legal e praticada de forma sistemática e cruel.

Katherine começou a demonstrar desde muito cedo uma aptidão natural para a aprendizagem. Aos 4 anos, sabia escrever e multiplicar, e contava tudo o que conseguia quantificar.

“A matemática foi sempre fácil para mim. Eu amava os números e os números amavam-me. E seguiam-me para todo o lado... era assim que a minha mente funcionava”, escreveu Katherine em Alcançar a Lua, a sua autobiografia de 2019. “Eu gostava tanto de aprender que, para mim, ir à escola não era suficiente.”

Quando tinha 10 anos, Katherine já frequentava o ensino secundário, e aos 18 acabou a faculdade com uma licenciatura em matemática na Faculdade Estadual da Virginia Ocidental.

Mas, enquanto mulher, e sobretudo enquanto mulher negra, a escolaridade e a vida profissional de Johnson estiveram sempre repletas de barreiras. O racismo generalizado e as políticas segregacionistas limitaram as suas opções, mesmo que o seu talento não tivesse limites.

“Podia ser enfermeira ou professora”, disse Katherine à MAKERS numa entrevista em vídeo, referindo-se à trajetória inicial da sua carreira.

Em 1953, Katherine abandonou a profissão de professora e começou a trabalhar como "computador" para o Comité Nacional de Consultoria Aeronáutica – antecessor da NASA. O seu papel estava designado como “subprofissional” e Katherine trabalhava numa instalação segregada que tinha uma placa com a inscrição: “Computadores de Cor”.

O seu trabalho, tal como o de outras mulheres negras com quem trabalhava, era fazer à mão complexos cálculos aeroespaciais – as primeiras máquinas computadorizadas da época ainda não conseguiam realizar esta tarefa. Inicialmente, Katherine estudava dados sobre acidentes de aviação, mas rapidamente foi transferida para a Divisão de Pesquisa de Voo.

Computar a corrida espacial
A carreira de Johnson transformou-se em 1957, quando a União Soviética lançou o Sputnik, o primeiro satélite artificial, e iniciou uma corrida espacial com os EUA. No final da década de 1950, quando a NASA estava a ponderar uma forma de enviar humanos para o espaço, as responsabilidades de Johnson passaram a ser os cálculos das trajetórias orbitais.

Durante a década que se seguiu, os homens que corajosamente voaram para além da atmosfera confiaram na precisão dos cálculos feitos por Katherine. Em 1961, calculou a trajetória da cápsula Freedom 7 de Alan Shepard, a primeira nave espacial dos EUA a transportar um humano que voou até à fronteira com o espaço antes de mergulhar no Oceano Atlântico.

E no ano seguinte, quando John Glenn se tornou no primeiro astronauta dos EUA a circular a Terra, John só subiu a bordo da cápsula Friendship 7 depois de Johnson ter conferido os cálculos feitos por um computador IBM. (Katherine demorou um dia e meio a validar os cálculos, e os números correspondiam.)

Mais tarde, em 1969, quando os astronautas da Apollo 11 – Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins – estavam a caminho da lua, fizeram-no com a matemática de Johnson. “Eu calculei o caminho que os levaria até lá”, recordou Johnson à MAKERS. “Dissemos-lhes as velocidades com que iriam viajar e que a lua estaria lá quando chegassem.”

Katherine Johnson aposentou-se da NASA em 1986, depois de ter desempenhado um papel em todos os programas espaciais tripulados da agência até àquele momento, desde o Projeto Mercury, o primeiro programa tripulado, ao vaivém espacial.

“A senhora Johnson ajudou a nossa nação a alargar as fronteiras do espaço, ao mesmo tempo que fazia progressos enormes e abria as portas para as mulheres e pessoas de cor”, disse em comunicado Jim Bridenstine, o administrador da NASA. “Nunca esqueceremos a sua coragem e liderança, e os marcos que teriam sido impossíveis de alcançar sem ela.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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