O Segundo Maior Surto de Ébola da História Pode Ter Finalmente Terminado

Há quase dois anos que a República Democrática do Congo luta para acabar com este vírus mortal. Agora, o surto parece ter sido derrotado.

sexta-feira, 17 de abril de 2020,
Por Tim Vernimmen
Nesta fotografia, tirada no ano passado, um profissional de saúde transportava Kakule Kavendivwa, de 14 anos, ...

Nesta fotografia, tirada no ano passado, um profissional de saúde transportava Kakule Kavendivwa, de 14 anos, para uma ambulância em Beni. No dia anterior, as irmãs de Kakule tinham-no levado a um centro de saúde, mas fugiram quando a equipa as encorajou a ir a um centro de tratamento. O centro de saúde alertou a Organização Mundial de Saúde que encontrou a família. Depois de várias horas de conversa com os agentes de sensibilização comunitária, a família permitiu que ele fosse levado de ambulância para tratamento.

Fotografia de Nichole Sobecki

Nota do Editor: Um novo caso de Ébola foi relatado na República Democrática do Congo no dia 10 de abril, reiniciando a contagem decrescente para o surto poder ser oficialmente declarado como terminado.
 

Enquanto o mundo se debate com a pandemia de coronavírus, o segundo maior surto de Ébola da história pode estar finalmente a chegar ao fim.

A República Democrática do Congo (RDC) registou os primeiros casos daquele que ficou conhecido por surto de Kivu em agosto de 2018. Até agora, este evento originou cerca de 3.453 casos e 2.273 mortes. Mas não foram registados novos casos de Ébola na RDC desde 17 de fevereiro e, se esta situação se mantiver, a Organização Mundial de Saúde planeia declarar o fim do surto no dia 12 de abril.

No ano passado, Kavugho Mukoni Romelie, de 16 anos, recebia tratamento contra o Ébola no centro da Aliança de Ação Médica Internacional (ALIMA), em Beni. O tratamento é feito dentro de Unidades de Cuidados Intensivos de Biossegurança, conhecidas por “cubos”, um avanço recente na tecnologia para tratar o vírus.

Fotografia de Nichole Sobecki

O Ébola, tal como o novo coronavírus, é um vírus zoonótico, o que significa que pode passar de animais para humanos. Contudo, o Ébola é uma doença muito diferente que ataca vários órgãos, provocando febre hemorrágica grave, enquanto que o coronavírus atinge sobretudo os pulmões. Para além disso, as pessoas propagam o Ébola assim que começam a apresentar sintomas, ao passo que o novo coronavírus pode ser transmitido mesmo quando as pessoas se sentem saudáveis.

A maior epidemia de Ébola aconteceu na África Ocidental entre 2014 e 2016. A doença surgiu numa região fronteiriça que não tinha experiência com o vírus, e o Ébola abriu uma rota de destruição ao longo de vários países, matando mais de 11.000 pessoas. Por outro lado, o surto de Kivu ficou confinado principalmente à RDC. No entanto, a agitação local, impulsionada pelas tensões políticas e sociais de longa data, ajudou a alimentar a sua propagação e dificultou os esforços iniciais de contenção.

A eventual contenção do Ébola no nordeste da RDC deve-se a uma campanha de vacinação intensa, com um foco crescente no envolvimento da comunidade. Estas ações tinham como objetivo diminuir as suspeitas sobre os esforços governamentais, sobre as organizações internacionais e os profissionais de saúde que tentavam acabar com a disseminação do vírus.

Parte vital destes esforços passou pela disponibilização de uma nova vacina que foi testada pela primeira vez durante o surto de Ébola na África Ocidental em 2016. Desde o início do surto de Kivu, mais de 300.000 pessoas foram vacinadas, marcando a maior implementação alguma vez feita de medicação preventiva para o Ébola. Atualmente, os investigadores estão a trabalhar numa vacina para o novo coronavírus, e é provável que as versões preliminares não estejam amplamente disponíveis durante pelo menos um ano.

Mulyanza Vithya Huguette, sobrevivente do Ébola de 24 anos, partilha o seu testemunho com um grupo de mulheres para diminuir o estigma em relação ao vírus.

Fotografia de Nichole Sobecki

“Se não tivéssemos agido desta forma, teria sido muito pior”, diz Thibaut Jombart, epidemiologista que trabalhou na RDC durante seis meses para analisar o surto em tempo real e para aconselhar os profissionais de saúde no terreno.

‘A população revoltou-se’
Em 2018, quando as organizações internacionais chegaram ao leste da RDC, já enfrentavam suspeitas da população local devido a uma longa história de conflitos na região. Esta desconfiança aumentou quando o governo anunciou alterações nas eleições gerais desse ano.

As regiões de Beni e Butembo estavam entre as áreas mais afetadas pelo surto de Ébola. E claro, depois de uma longa história de violência e negligência, as pessoas tendem a desconfiar mais do governo. Em dezembro de 2018, as autoridades governamentais anunciaram que estas regiões teriam de aguardar até março de 2019 para votar, mesmo que as eleições continuassem conforme planeado, no último dia de 2018, noutras regiões da RDC.

No dia 2 de março de 2019, em Butembo, na RDC, um céu carregado de nuvens pairava sobre as dezenas de enlutados que tentavam abrir caminho entre as sepulturas recentemente cobertas. Estas pessoas dirigiam-se para o enterro do agente das autoridades Tabu Amuli Emmanuel (50 anos) no cemitério Kitatumba. Este cemitério com vista para Butembo, a maior cidade do nordeste da RDC, é onde as vítimas da recente batalha do Congo contra o Ébola têm sido sepultadas.

Fotografia de Nichole Sobecki

Esquerda: No dia 4 de março de 2019, uma equipa local de trabalhadores de sensibilização comunitária reunia-se para debater o seu progresso coletivo e os desafios encontrados nos arredores de Kyondo, na RDC. A Organização Mundial de Saúde montou vários campos de resposta ao Ébola em áreas como Kyondo, fora das grandes cidades, onde foram detetados pequenos focos de pacientes com Ébola. Kyondo fica a uma hora e meia de carro de Butembo, em direção a Virunga.
Direita: Em 2019, uma equipa da Organização Mundial de Saúde verificava a temperatura de Masika Mughanyira, de 7 anos, na cidade de Vayana, uma pequena vila a duas horas de distância de Butembo. Masika perdeu os pais, o irmão mais velho e a irmã mais nova devido ao Ébola. Sendo a única sobrevivente da sua família, está agora ao cuidado de parentes.

Fotografia de NICHOLE SOBECKI

“Por isso, a população revoltou-se”, diz Mathias Mossoko, epidemiologista do Ministério da Saúde da RDC. “A população barricou as estradas e isso impediu-nos de acompanhar todos os casos de Ébola, e não os conseguimos levar para os centros de tratamento. Assim, ficaram na comunidade, onde contaminaram os outros.”

Os protestos, juntamente com diversos ataques aos profissionais de saúde e centros de tratamento, fizeram com que a transmissão do Ébola aumentasse. Os incidentes violentos continuaram durante a primavera de 2019, com a disseminação de rumores de que o surto tinha sido fabricado, e que os profissionais de saúde estavam a fazer testes nos habitantes locais e que roubavam os seus órgãos. Em abril, os casos de Ébola estavam a subir, e havia relatos de mais de 100 novos casos por dia.

Dominação do Ébola
Percebendo que eram necessárias ações drásticas, um grupo liderado por Michel Yao, gestor de incidentes da OMS designado para o surto de Kivu, lançou uma estratégia vigorosa. A equipa decidiu responder aos novos casos mais depressa, idealmente dentro de 24 a 48 horas. E também começaram a rastrear e a vacinar qualquer pessoa que estivesse em contacto com um caso de infeção, e os contactos desses contactos.

“Em alguns lugares mais pequenos, com apenas algumas centenas de habitantes, onde todos estavam em contacto, vacinávamos todas as pessoas”, diz Mossoko.

Esta estratégia também tinha como objetivo melhorar o envolvimento da comunidade, tornando a resposta no terreno menos intimidadora e invasiva.

“Formámos uma equipa de influenciadores que nos ajudaram a convencer as pessoas a aceitar as intervenções das equipas de resposta, a visitarem os centros de tratamento caso tivessem sintomas, e a fazerem enterros seguros e dignos para os falecidos”, diz Mossoko.

No dia 7 de maio de 2019, depois de esta iniciativa ter sido implementada, o número de casos no centro de tratamento em Butembo, um dos últimos grandes focos do vírus, começou finalmente a diminuir, diz Jombart. A sua investigação revela que este foi o início do fim do surto. A equipa de Jombart espera que a eficácia desta estratégia motive outros governos e autoridades de saúde a implementarem atempadamente táticas semelhantes, durante futuros surtos onde a violência é um problema, concentrando-se na criação de laços de confiança com as comunidades afetadas e na vacinação rápida e em grandes números.

Mossoko acredita que o surto pode estar perto do fim, mas acrescenta, “isso não diminui a nossa vigilância”. A sua equipa continua a reforçar a prevenção da doença por toda a região, tanto em áreas afetadas como em lugares sem casos conhecidos, para tentar evitar qualquer possibilidade de um ressurgimento.

Vista para Kyondo, na RDC, no dia 4 de março de 2019. A OMS montou vários campos de resposta ao Ébola em áreas como Kyondo, fora das grandes cidades, onde foram encontrados pequenos focos de pacientes com Ébola. Kyondo fica a uma hora e meia de carro de Butembo, em direção a Virunga.

Fotografia de Nichole Sobecki

Esta vigilância é justificada: uma análise publicada no ano passado alertava que, se mais de 1 em cada 5 casos não forem relatados durante o surto, os 42 dias que faltam, para se declarar oficialmente que a epidemia terminou, podem não ser suficientes. Neste momento, não existem dados fidedignos sobre o possível número de casos não relatados. Mas, considerando que todos os casos mais recentes surgiram de cadeias de transmissão conhecidas, Jombart acredita que o recente pesadelo de Ébola na RDC pode finalmente estar perto do fim.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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