Para Aliviar o Confinamento Mundial, Precisamos de Testes Serológicos

A estimativas atuais para os casos “escondidos” de coronavírus estão muito provavelmente erradas. Os testes de anticorpos podem alterar esta situação, e ajudar também a aliviar as ordens de confinamento.

quarta-feira, 29 de abril de 2020,
Por Nadia Drake
Nesta imagem, captada no dia 27 de março de 2020, em Berlim, na Alemanha, vemos voluntários ...

Nesta imagem, captada no dia 27 de março de 2020, em Berlim, na Alemanha, vemos voluntários médicos com equipamentos de proteção individual – máscaras, luvas e óculos – a recolher amostras de sangue para testar a presença de COVID-19 numa tenda montada ao lado de um consultório médico. A Alemanha está a tentar aumentar a sua capacidade de testes de coronavírus para até 200 mil testes por dia até ao final de abril, de forma a permitir que as pessoas regressem ao trabalho e, assim, reativar a economia alemã afetada pela crise.

Fotografia de Sean Gallup, Getty Images

À medida que o coronavírus continua na sua marcha global, começa a ficar evidente que muitos dos casos são ligeiros ou assintomáticos. No entanto, as pessoas com estas infeções furtivas ainda podem infetar os outros e propagar a doença, criando uma situação caótica sobre a quantidade de casos que podem realmente existir no mundo – e afetar os esforços de contenção da pandemia.

As estimativas preliminares para os casos assintomáticos são inconsistentes. No dia 5 de abril, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, sugeriu que este número poderia rondar os 50%, o dobro da estimativa avançada anteriormente pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC). Por exemplo, a bordo do cruzeiro Diamond Princess, outros estudos falaram em estimativas tão baixas quanto 18%, e nos cidadãos japoneses que foram evacuados de Wuhan, na China, o número rondava os 42%. As autoridades chinesas começaram a rastrear casos assintomáticos em abril e, até agora, apresentaram uma taxa de 60%.

As enormes variações entre estas percentagens “refletem que a população, o desenho do estudo e o momento em que o estudo é feito fazem uma enorme diferença”, diz  Keiji Fukuda, da Universidade de Hong Kong, que já chefiou várias equipas de resposta a surtos da Organização Mundial de Saúde.

Felizmente, é possível detetar quando uma pessoa teve uma destas infeções assintomáticas. As análises serológicas, ou testes que procuram proteínas chamadas anticorpos no nosso sangue, podem revelar se uma pessoa foi inadvertidamente infetada muito tempo depois de recuperar.

“As consequências económicas de estarmos errados sobre a percentagem de pessoas realmente infetadas são muito amplas...”

por SAMUEL SCARPINO, UNIVERSIDADE NORTHEASTERN

Conhecer o número real de casos assintomáticos é crucial para determinar o quão mortal é a COVID-19. E compreender como é que os anticorpos contra o coronavírus funcionam pode ajudar os cientistas a desenvolver uma vacina.

Talvez ainda mais importante, os testes serológicos podem identificar quem está agora imune à doença, podendo assim regressar ao trabalho, e também pode ajudar a prever as futuras probabilidades de vagas epidémicas.

“Digamos que nos atrapalhámos nos testes [genéticos] do vírus”, diz Nicholas Christakis, sociólogo e médico da Universidade de Yale. “Mas não precisamos de nos atrapalhar nos testes para a fase de imunidade.”

Criar ELISA
Há mais de 50 anos que os testes serológicos estão bem estabelecidos no mundo da medicina. Os testes de anticorpos são diferentes dos testes usados para diagnosticar pessoas que apresentam sintomas. Estes testes de diagnóstico funcionam através do reconhecimento de partes do genoma do coronavírus, e necessitam que o vírus esteja presente no corpo de uma pessoa.

O material viral desaparece quando um germe é vencido, mas o sistema imunitário humano produz anticorpos que têm como alvo os patógenos, e estes anticorpos geralmente permanecem no nosso corpo durante anos, conferindo assim uma imunidade duradoura.

Um dos métodos usados para procurar anticorpos é o teste de imunoabsorção enzimática, ou ELISA, ideal para testes rápidos e baratos, que podem ser feitos em dezenas de pessoas de cada vez. Este método rápido ajudou a resolver um mistério em Singapura, onde duas pessoas com doenças ligeiras não diagnosticadas eram o elo crucial entre dois micro-surtos de coronavírus – transferiram a doença sem saberem de uma igreja para outra e infetaram mais de duas dezenas de pessoas.

“É mais rápido, é igualmente fiável e não requer confinamento – nem sequer temos de lidar com o vírus.”

por DANIELLE ANDERSON, FACULDADE DE MEDICINA DUKE-NUS

“O ELISA pode ser feito em meio dia”, diz Danielle Anderson, virologista da Faculdade de Medicina Duke-NUS, em Singapura, que desenvolveu o teste serológico usado para estabelecer a ligação entre os focos de doença nas referidas igrejas. “É mais rápido, é igualmente fiável e não requer confinamento – nem sequer temos de lidar com o vírus.”

Para fazer um teste ELISA, colocam-se proteínas de coronavírus numa amostra de sangue de um paciente. Se esse espécime contiver os anticorpos adequados, aderem às proteínas do coronavírus e iniciam uma reação química de alteração de cor.

“É possível ver a olho nu”, diz Fatima Amanat, estudante de pós-graduação da Faculdade de Medicina Icahn do Monte Sinai. Fatima desenvolveu um teste para o SARS-CoV-2 no início de março. Um dos desafios no desenvolvimento do seu teste foi a obtenção de sangue de pacientes com COVID-19 que estivessem a combater a doença há pelo menos 10 dias – uma etapa crucial para garantir que o teste identificava as proteínas corretas, que são lentas a atingir níveis detetáveis.

O nosso corpo não consegue produzir novos anticorpos da noite para o dia. Portanto, os testes serológicos são mais úteis depois do amadurecimento de uma infeção, diz Elitza Theel, diretora do Laboratório de Serologia de Doenças Infecciosas da Clínica Mayo. Se tentarmos encontrar alguns anticorpos demasiado cedo no processo da doença – antes de o sistema imunitário os ter produzido – isso pode dar origem a um resultado falso negativo. Recentemente, os cientistas que estudavam pacientes COVID-positivos na China informaram que demora entre 11 a 14 dias até os anticorpos circulantes ficarem detetáveis no sangue.

“Quando se trata de resultados fiáveis, o tempo é fundamental”, alerta Elitza.

Muitos laboratórios estão agora a desenvolver testes serológicos, depois de a agência FDA, do Departamento de Saúde dos EUA, ter aliviado uma série de regulamentos que normalmente governam estes testes. Nos Estados Unidos, a primeira versão comercial foi aprovada no dia 2 de abril, e a agência tem uma lista atualizada dos laboratórios académicos e empresas que querem iniciar o desenvolvimento de testes.

Lições sanguíneas
Ter testes suficientes disponíveis é fundamental para se poder rastrear a disseminação oculta do coronavírus – é um dos primeiros passos para acabar com surtos e prevenir futuras reinfeções. Os epidemiologistas dizem que testar uma pequena amostra aleatória de uma população, talvez 1%, pode ser o suficiente para definir o alcance da pandemia num país como os Estados Unidos.

“Quanto maior for a precisão com que conhecemos a percentagem de indivíduos infetados, mais específicos podemos ser no que diz respeito às recomendações”, diz Samuel Scarpino, que gere o Laboratório de Epidemias Emergentes da Universidade Northeastern.

Os esforços para identificar a extensão das infeções já estão em andamento. As autoridades italianas testaram todos os residentes na cidade em quarentena de Vò (3 mil habitantes) e descobriram que aproximadamente metade das infeções eram assintomáticas. Em Telluride, no Colorado, a empresa de biotecnologia United Biomedical está a fornecer testes serológicos para os seus 8 mil habitantes.

E operações de testes em grande escala estão a ser montadas na Islândia, nos Países Baixos, em Singapura, na Alemanha e no Reino Unido. E no dia 10 de abril, o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA começou a recrutar 10 mil voluntários para participarem numa investigação serológica aleatória.

Contabilizar os casos não diagnosticados numa população, assintomáticos ou ligeiros de COVID-19, pode ajudar a identificar quem está imune e pode assim regressar ao trabalho. Estas informações podem ser particularmente valiosas para os profissionais de saúde e para as pessoas que estão na linha da frente no combate a esta doença, e são informações muito procuradas pelas empresas que lutam para ultrapassar o confinamento continuado.

“O vírus vai continuar a infetar-nos até chegar a todas as pessoas possíveis. A única forma de o evitar é através do desenvolvimento de imunidade natural, ou com vacinação.”

por NICHOLAS CHRISTAKIS, UNIVERSIDADE DE YALE

“Em janeiro, recebi dezenas de emails e contactos de pessoas a dizer que tinham uma doença respiratória bastante séria. Perguntavam-me se eu as podia testar para ver se tinham realmente o SARS-CoV-2”, diz Robert Garry, virologista da Universidade de Tulane que desenvolve testes serológicos. “Precisamos de ir buscar o sangue destas pessoas para saber.”

Para além disso, o teste de imunidade pode determinar a resistência de uma população a vagas secundárias de infeção. Se uma enorme proporção da população for resistente, é pouco provável que a doença consiga propagar-se novamente como se fosse um incêndio. No entanto, se a percentagem de resistência for baixa, aliviar as restrições de confinamento e socializar cedo demais aumenta as probabilidades de outro surto.

“As consequências económicas de estarmos errados sobre a percentagem de pessoas realmente infetadas são muito amplas, pelo que devemos investir nesta investigação a nível nacional”, diz Scarpino.

Os testes serológicos também ajudam a identificar o quão mortal é a COVID-19. Atualmente, a taxa de mortalidade provavelmente está inflacionada, diz Martin Hibberd, epidemiologista da Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres. Como até agora a maioria dos casos foi diagnosticada quando os pacientes procuraram atendimento médico, os cientistas têm estimado essencialmente a taxa de mortalidade hospitalar, diz Martin. Adicionar infeções mais ligeiras ao número total de casos pode diminuir a proporção de mortes no total.

Por fim, à medida que os testes serológicos são implementados, os cientistas podem reunir uma enorme quantidade de informações sobre a forma como o corpo humano constrói uma resposta imunitária ao SARS-CoV-2. Atualmente, não se sabe quanto tempo demora, ou quão forte é essa resposta, embora as comparações com o surto de SARS e os resultados de um estudo sobre a COVID-19 em macacos-rhesus sugiram que a imunidade pode demorar mais de um ano.

“A emergência de imunidade – é isso que vai colocar um ponto final nesta pandemia”, diz Christakis, da Universidade de Yale. “O vírus vai continuar a infetar-nos até chegar a todas as pessoas possíveis. A única forma de o evitar é através do desenvolvimento de imunidade natural, ou com vacinação.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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