Anthony Fauci: Não Existem Provas Científicas de que o Coronavírus Foi Criado num Laboratório Chinês

Nesta entrevista exclusiva, o rosto da resposta norte-americana à COVID-19 adverte contra a reabertura apressada dos estados e explica como lida com o dilúvio de informações sobre a pandemia.

segunda-feira, 11 de maio de 2020,
Por Nsikan Akpan, Victoria Jaggard
Anthony Fauci é o diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA há ...

Anthony Fauci é o diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA há quase 40 anos, onde enfrentou dezenas de surtos, incluindo o VIH/SIDA. Para Fauci, este coronavírus é “extraordinário”.

Fotografia de MARK THIESSEN, NATIONAL GEOGRAPHIC

Anthony “Tony” Fauci tornou-se no rosto científico da resposta norte-americana à COVID-19 e diz que as provas indicam que o vírus responsável por esta pandemia não foi criado num laboratório na China.

Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, acalmou o debate que está a ser travado entre políticos e especialistas, referindo numa entrevista dada à National Geographic que este se trata de um “argumento circular”.

“Se olharmos para a evolução do vírus em morcegos e o que se sabe atualmente, [as provas científicas] inclinam-se muito fortemente na direção de que isto não pode ter sido manipulado de forma artificial ou deliberadamente... Tudo sobre a evolução gradual do vírus ao longo do tempo indica que o vírus evoluiu na natureza e depois saltou entre espécies.” Com base nas provas científicas, Fauci diz que não acredita numa teoria alternativa – a de que alguém encontrou o coronavírus na natureza, levou o vírus para um laboratório e que depois este escapou acidentalmente.

No dia 9 de abril de 2020, o Dr. Anthony Fauci e a Dra. Deborah Birx, coordenadora da resposta ao coronavírus da Casa Branca, ouviam o presidente Donald Trump a falar sobre o coronavírus na Sala de Conferências de Imprensa James Brady da Casa Branca, em Washington DC.

Fotografia de Andrew Harnik, AP Photo

Fauci está mais preocupado com o facto de os Estados Unidos poderem vir a ser colocados à prova neste outono e inverno, com uma segunda vaga de COVID-19, caso o país não consiga diminuir a taxa de infeções até ao verão.

“Será uma vergonha se não tivermos testes suficientes na altura em que este regresso possa ocorrer, no outono e inverno”, diz Fauci, aconselhando que os EUA precisam de garantir que têm testes disponíveis em quantidades suficientes antes de uma segunda vaga, e também um sistema que leve esses testes às pessoas que mais necessitam.

“Não acredito na possibilidade de este vírus poder simplesmente vir a desaparecer. Vai andar por aí e, se tiver a oportunidade, vai ressurgir.” Como tal, Fauci diz que os EUA também se devem concentrar este verão no reforço adequado do sistema de saúde do país e garantir a disponibilidade de camas hospitalares, de ventiladores e de equipamentos de proteção individual para os profissionais de saúde.

E também enfatiza a importância de se continuar a praticar o distanciamento social até que o número de casos comece a diminuir. Durante o mês de abril, os EUA testemunharam cerca de 20 a 30 mil novos casos diariamente, sugerindo que o país se mantém firmemente no pico.

Ainda assim, Fauci continua otimista de que uma vacina pode estar pronta dentro de um prazo historicamente curto, citando a existência de uma vacina promissora que ele acredita poder entrar em ensaios clínicos mais avançados no início do verão. Fauci diz que uma vacina final pode estar disponível ao público já em janeiro, algo que quebraria os recordes com que as vacinas foram desenvolvidas anteriormente.

Vídeo Exclusivo: Anthony Fauci Afasta Rumores da COVID-19 e Defende Mudança

Uma das razões para a sua confiança reside nos resultados “impressionantes” observados nos animais testados com uma vacina candidata, feita pela empresa de biotecnologia Moderna Therapeutics, sediada em Cambridge, no Massachusetts, que começou a fazer testes em humanos num prazo recorde de 42 dias. A candidata dá pelo nome de vacina mRNA, um medicamento que usa fragmentos do material genético de um vírus, em vez do próprio vírus morto ou enfraquecido, para construir as proteínas que desencadeiam a resposta imunitária do corpo.

Até agora, nenhum tipo de vacina mRNA foi licenciado para utilização em humanos, mas Fauci acredita que esta tecnologia direcionada para o coronavírus é promissora, em parte pela experiência que ele próprio adquiriu no desenvolvimento de tratamentos para o VIH/SIDA nas décadas de 1980 e 1990.

“Por razões com as quais ainda nos estamos a debater, o corpo humano não produz uma resposta imunitária adequada ao VIH”, diz Fauci. Para combater esse vírus, uma vacina precisa de funcionar melhor do que a própria resposta natural do nosso corpo. Por outro lado, “é óbvio que muitas pessoas conseguem dar uma resposta imunitária bastante adequada” ao vírus SARS-CoV-2, e os testes feitos em animais mostram que as doses moderadas da vacina mRNA para o coronavírus também geram uma resposta imunitária forte.

Fauci acrescenta que o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas está a desenvolver e a apoiar várias vacinas, caso as que entram em testes mais cedo não se mostrem seguras e eficazes. “Nós queremos todos os remates possíveis à baliza. Queremos quatro ou cinco candidatas que possam ser apresentadas num prazo razoável.”

Fauci disse à National Geographic que está preocupado com os estados norte-americanos que estão a tentar reabrir antes de as taxas de infeção diminuírem. E também partilhou como é que lida com a enorme quantidade de informações científicas que são divulgadas sobre a COVID-19, e como a sua família e a fé o mantêm concentrado, apesar de ter uma agenda cada vez mais agitada.

(Esta entrevista foi editada para fins de clareza e extensão.)
 

Fauci e a vacina

Você é o diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas desde 1984 e já testemunhou dezenas de surtos de doenças. Um dos primeiros foi a epidemia de VIH/SIDA. Como é que essa experiência se compara com a COVID-19?

Uma das vantagens importantes é o que chamamos de desenvolvimento direcionado de medicamentos. Os vírus provocam doenças ligando-se a recetores que temos nas células do nosso corpo, sejam elas nas vias respiratórias superiores ou nos pulmões – como acontece no caso da COVID-19. Depois, replicam-se a um ritmo acelerado que desencadeia uma variedade de processos patogénicos. Os medicamentos direcionados, que interferem num ou mais locais vulneráveis dentro deste ciclo de replicação, foi algo que aprendemos com o VIH.

Esquerda: No dia 19 de junho de 2008, o presidente dos EUA, George W. Bush, entregava a Medalha Presidencial da Liberdade a Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, em Bethesda, Maryland, durante uma cerimónia na Casa Branca. A Medalha Presidencial da Liberdade, o maior prémio do país atribuído a civis, reconhece um serviço de mérito excecional.
Direita: O presidente dos EUA, Barack Obama, ouve a Dra. Nancy Sullivan – chefe da secção de pesquisa de defesa biológica do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas – a explicar a vacina candidata contra o ébola que estava a ser testada em humanos, durante uma visita ao laboratório do Centro de Pesquisa de Vacinas dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), em Bethesda, Maryland, no dia 2 de dezembro de 2014. O Dr. Anthony Fauci e o Dr. Francis Collins, diretor do NIH, assistem em segundo plano.

Fotografia de KAREN BLEIER, AFP VIA GETTY IMAGES (ESQUERDA) E WHITE HOUSE PHOTO / ALAMY STOCK PHOTO (DIREITA)

O SARS-CoV-2 [o vírus que provoca a doença COVID-19] tem o mesmo tipo de vulnerabilidades. Precisamos de as identificar e de desenvolver medicamentos, isolados ou em conjunto, que impeçam a sua replicação.

Existem lições aprendidas com o VIH/SIDA empregues no desenvolvimento de uma vacina contra a COVID-19?

As vacinas são ligeiramente diferentes. Temos melhores probabilidades de obter rapidamente, relativamente falando, uma vacina para o novo coronavírus do que contra o VIH porque, devido a razões que ainda desconhecemos, o corpo não produz uma resposta imunitária adequada ao VIH.

Não temos necessariamente de enfrentar esse desafio com este coronavírus, porque é óbvio que muitas pessoas conseguem dar uma resposta imunitária bastante adequada. Eliminam o vírus e ficam bem. Como sabemos pela história natural desta doença, a maioria das pessoas melhora ou não apresenta sintomas – são assintomáticas – ou apresentam sintomas mínimos onde ficam com febre e sentem algumas dores e depois recuperam.

O facto de grande parte das pessoas conseguir eliminar o vírus é um sinal muito bom para a viabilidade do desenvolvimento de uma vacina.

As duas candidatas mais faladas são a vacina mRNA da Moderna, que começou a ser testada em humanos num prazo recorde de 42 dias, e a candidata da Universidade de Oxford, que se baseia no que é conhecido por vetor viral não replicante. No entanto, nenhuma das vacinas baseadas nestas duas tecnologias foi licenciada para uso humano. O que faz com que estas duas vacinas sejam tão promissoras, sobretudo numa janela temporal tão curta?

Estas vacinas estão a induzir, pelo menos nos modelos animais, respostas imunitárias substanciais, particularmente a vacina mRNA. Quando observamos a resposta imunitária que conseguimos induzir com uma dose moderada – que tem viabilidade para fazer o mesmo em humanos – e a quantidade de tempo que demora a chegar a esse nível de imunidade, é realmente bastante impressionante. E também é muito fácil ampliar estas duas vacinas, ou seja, podemos fazer muitas doses rapidamente. Portanto, você está correto, não foram aprovadas, ao contrário de muitas outras plataformas de vacinas, mas são bastante promissoras.

No Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas estamos a desenvolver e a apoiar o desenvolvimento de várias candidatas. Nós queremos todos os remates possíveis à baliza. Queremos quatro ou cinco candidatas que possam ser apresentadas num prazo razoável – talvez em junho, julho ou agosto – para as colocarmos em testes avançados. A mRNA já está na fase 1 dos ensaios clínicos, e estamos a preparar-nos para entrar nas fases 2 e 3 até ao início do verão.

Desconfinamento e máscaras

À medida que os estados e as empresas começam a reabrir e o clima mais quente atrai as pessoas para a rua, o que pensa sobre um novo pico de infeções nos EUA?

Veja as diretrizes para Reabrir a América. Existem pontos de controlo muito bem delineados. Existe uma fase onde as infeções devem diminuir durante um período de 14 dias, antes de podermos entrar na fase 1 de reabertura. Se preenchermos os requisitos da fase 1, passamos para a fase 2. Se o fizermos desta forma, passamos para a fase 3.

Portanto, quando vemos alguém num ambiente onde as infecções não diminuem, e vemos 30 ou 40 pessoas na praia sem máscara... bem, é muito bom desfrutar do sol, mas estamos a colocar todos em risco e podemos assistir a um aumento ainda maior no número de infeções.

Receia uma segunda vaga de infeções?

O que mais me impressiona – mas de uma forma perturbadora – é a eficácia extraordinária com que o vírus se propaga. É um vírus que se espalha muito mais eficazmente do que a gripe. Vemos situações em que as pessoas estão em casa e tentam distanciar-se fisicamente; não têm contacto, mas tocam em qualquer coisa, ou na maçaneta da porta, e ficam infetadas.

Temos como exemplo os focos em grupos familiares, os surtos no porta-aviões Teddy Roosevelt, a enorme disseminação no cruzeiro Diamond Princess no porto de Yokohama – é um vírus muito, muito transmissível.

Anthony Fauci abraça Nina Pham, a enfermeira que ficou infetada com ébola quando tratava do paciente Thomas Eric Duncan, em Dallas. Vemos também a sua mãe Diana, a irmã Cathy, e a diretora dos Institutos Nacionais de Saúde Francis Collins. Este momento foi captado do dia 24 de outubro de 2014, em Bethesda, Maryland, quando Pham foi declarada livre do vírus.

Fotografia de Alex Wong, Getty Images

Vamos ser colocados à prova à medida que avançamos em direção ao outono e inverno deste ano. Se fizermos tudo bem, seremos capazes de mitigar e diminuir a taxa diária de infeções neste país até ao verão. Não o posso garantir, mas se fizermos as coisas corretamente, é provável que isso aconteça.

Não acredito na possibilidade de este vírus poder simplesmente vir a desaparecer. Vai andar por aí e, se tiver a oportunidade, vai ressurgir.

Vamos ter alguns meses – maio, junho, julho e agosto – para nos prepararmos e garantir que o nosso sistema de saúde está devidamente equipado com ventiladores, camas nos cuidados intensivos, equipamentos de proteção individual, etc. Precisamos não só de testes, mas também de garantir que as pessoas que precisam dos testes os podem fazer.

Senão, quando chegarmos a setembro, vamos ter novamente as atenções viradas para o facto de não termos testes suficientes. Será uma vergonha se não tivermos testes suficientes na altura em que este regresso possa ocorrer, no outono e inverno

Qual é a sua posição sobre o uso generalizado de máscaras?

Ainda bem que faz essa pergunta, porque isto tem evoluído ao longo de semanas e meses. Quando se falou sobre isto pela primeira vez, foi num momento em que as máscaras faciais – máscaras cirúrgicas ou respiradores N95 – eram muito escassas.

Vamos assumir que agora temos máscaras suficientes ou que podemos facilmente fazer uma máscara de tecido, conforme sugerido pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças. Creio que são cenários plausíveis. Sabemos que as máscaras são melhores nos ambientes profissionais de cuidados de saúde porque impedem que alguém infetado, quando tosse ou espirra, infete as pessoas nesse ambiente. Quando olhamos para o que a máscara faz para a população em geral, os dados não atingem os níveis de proteção a 100%: não impedem a 100% que eu infete outra pessoa, e não impedem certamente a 100% que outra pessoa me infete.

Mas se usarmos uma máscara, temos alguma proteção para nós próprios e, se estivermos infetados e não o soubermos, estamos a impedir, até certo ponto, a transmissão a outra pessoa. Assim sendo, faz sentido que, antes de tudo, a melhor forma de impedir a propagação é manter a distância física de 2 metros.

Portanto, se estivermos numa situação em que não temos contacto com ninguém, não precisamos de andar com uma máscara o dia inteiro, isso é garantido. Mas se estivermos numa situação em que o distanciamento social não é possível – no supermercado ou até a passear na rua – devemos usar uma máscara.

Gestão de informação e alegações de um “vírus feito num laboratório chinês”.

Como é que consegue acompanhar tanta informação e filtrar a ciência que realmente importa?

É como beber água de uma boca de incêndio. É mesmo. Felizmente, tenho uma equipa de três a quatro pessoas que é muito boa. Eles examinam os estudos e, quando algo parece irracional, ou demasiado bom para ser verdade, nem sequer me incomodam com isso. Quando todos estes estudos aparecem na minha secretária, leio o título e o resumo. Se parecerem viáveis, coloco-os de parte e tento ler depois. Quando surge algo que a minha equipa acha que eu devo mesmo ler, eles asseguram-se que eu leio.

E mesmo com este processo de triagem, é muito difícil absorver tudo o que existe, sobretudo com esta tendência relativamente recente de pré-publicações não revistas por pares [que não passaram pelo processo de veto tradicional para serem publicadas nas revistas de renome].

Qual é o seu conselho para o público em geral em relação às alegações mais sensacionalistas?

No dia 31 de agosto de 1990, o Dr. Anthony Fauci falava com membros do seu laboratório durante uma reunião onde descrevia um fator de crescimento natural necessário para a multiplicação do vírus da SIDA.

Fotografia de George Tames, The New York Times via Redux

Qualquer um pode afirmar que é especialista, mesmo quando não faz ideia do que está a falar – e é muito difícil para o público em geral conseguir distinguir a verdade. Portanto, temos de verificar se o estudo é proveniente de uma organização respeitável – se bem que, mesmo com algumas organizações respeitáveis, ocasionalmente deparamo-nos com alguém que só diz disparates. Se for algo publicado na New England Journal of Medicine, Science, Nature, Cell ou JAMA – sabemos que, geralmente, são estudos muito bem revistos por pares, porque os editores e a equipa editorial destas revistas levam realmente as coisas a sério.

Um dos tópicos presentes nas notícias mais recentemente tem sido a origem do SARS-CoV-2. Você acredita, ou existem evidências, de que o vírus foi produzido, ou acidentalmente libertado, de um laboratório na China?

Se olharmos para a evolução do vírus nos morcegos e para o que circula agora, [as provas científicas] inclinam-se muito fortemente na direção de que isto não pode ter sido manipulado de forma artificial ou deliberadamente – a forma como as mutações evoluíram naturalmente. Há vários biólogos evolucionistas bastante qualificados que já disseram que a evolução gradual do vírus ao longo do tempo indica que o vírus evoluiu na natureza e depois saltou entre espécies.

Mas o vírus pode ter sido encontrado na natureza, levado para laboratório e depois pode ter escapado?

Mas isso significa que estava na natureza desde o início. É por isso que não percebo do que estão a falar e não perco muito tempo com este argumento circular.

O quotidiano de Fauci

Como é o seu dia a dia?

Acordo por volta das cinco da manhã e, geralmente, desço apressadamente as escadas, tomo um pequeno-almoço rápido e vejo mil emails – literalmente mil.

Depois, vou para o Instituto Nacional de Saúde, que é onde trabalho diariamente – a tentar desenvolver uma vacina e medicamentos, e faço a gestão de uma instituição de 6 mil milhões de dólares. Fico lá até cerca da uma da tarde e depois vou para a Casa Branca, para ter várias reuniões. Primeiro tenho uma reunião com o grupo médico – eu, a coordenadora de resposta ao coronavírus Debbie Birx, o diretor do CDC Bob Redfield, o comissário da FDA Steve Hahn e outros. Depois, fazemos uma reunião de equipa dirigida pelo vice-presidente [Mike Pence], que geralmente demora cerca de uma hora e meia. Fazemos um sumário deste encontro com o vice-presidente e depois informamos o presidente [Donald Trump] para a conferência de imprensa.

Depois, o trabalho começa... Vou para casa, ou regresso ao Instituto Nacional de Saúde, e trabalho até de madrugada. O dia é marcado por inúmeras reuniões: com os governadores de todos os estados, com todos os líderes do congresso, todos os líderes da Casa Branca. Estou constantemente a fazer videochamadas. É uma situação quase impossível – e isto acontece sete dias por semana.

E a isto juntam-se todas as conferências de imprensa que tenho de fazer – para a televisão, para a rádio ou entrevistas. Parece uma coisa surrealista. Eu acordo de manhã e, sem querer exagerar, pergunto à minha esposa que dia é.

Como é que consegue descomprimir?

Faço caminhadas com a minha mulher, geralmente à noite, ou ao fim de semana. Está escuro, mas fazemos na mesma.

As coisas não se tornam demasiado cansativas?

Há alguns meses, fui um pouco longe demais, porque achava que não precisava de dormir. Quero dizer, dormia três horas por noite. Fiz isto durante algumas semanas e quase que coloquei a minha vida em risco. Foi muito desgastante. Graças a Deus, tenho uma esposa muito inteligente e clinicamente qualificada, que alterou as coisas e disse: tens de te lembrar de comer e dormir. Os dias ainda são insuportáveis, mas acho que não vou morrer por isso. Espero que não.

Estudou numa escola secundária jesuíta, onde aprendeu a importância de praticar o bem. Como é que essa experiência afetou a sua vida profissional?

Os meus pais eram muito vocacionados para o serviço público e a minha vida foi praticamente toda assim. Eles nunca se interessaram muito por dinheiro ou por coisas materiais. Eles eram ambos assim. Por isso, eu não tinha realmente a noção de que podia sair e ganhar muito dinheiro, e isto foi cimentado quando fui para uma escola jesuíta e uma faculdade jesuíta, onde todas as temáticas se baseavam em servir os outros.

Quase nunca senti vontade de fazer outra coisa que não tivesse uma componente de serviço público. Sou praticamente uma pessoa do povo, mas também tenho apetência científica. Toda a minha formação está embebida nas ciências humanas, e quando combinamos isso com uma aptidão para a ciência, acabamos na medicina.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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