A COVID-19 Pode Acabar por Danificar o Ambiente

O ar nunca esteve tão limpo devido aos confinamentos globais, mas enquanto não estávamos atentos, um futuro mais poluído pode ter estado a fermentar.

Tuesday, June 23, 2020,
Por Beth Gardiner
Trabalhadores em Kiev, na Ucrânia, descartam máscaras e luvas médicas usadas, queimando-as num incinerador.

Trabalhadores em Kiev, na Ucrânia, descartam máscaras e luvas médicas usadas, queimando-as num incinerador.

Fotografia de Volodymyr Tarasov, Ukrinform/Barcroft Medi/Getty Images

A noção popular de que a pandemia de COVID-19 tem sido “boa para o ambiente” – a ideia de que a natureza está a recuperar enquanto a humanidade está em casa – é atraente para muitas das pessoas que procuram algo positivo nesta tragédia global. A realidade, porém, pode não cooperar com estas esperanças.

Os benefícios que muitos achavam animadores ao início – desde o ar mais limpo ao canto dos pássaros recentemente audível devido à ausência de carros e aviões em movimento – seriam sempre temporários. E com os confinamentos a diminuírem, estas supostas vantagens começaram a dissipar-se. Agora, alguns especialistas temem que o mundo arrisque um futuro com mais trânsito, mais poluição e que as alterações climáticas piorem mais depressa do que nunca. É muito cedo para se saber se este cenário sombrio se irá verificar, mas os sinais de alerta parecem estar a aumentar pelo mundo inteiro.


No início de abril, com o confinamento generalizado, as emissões globais diárias de carbono caíram 17% em comparação com o ano passado. Mas a partir de 11 de junho, os novos dados mostram que as emissões estão apenas 5% abaixo do período homónimo de 2019, mesmo que a atividade normal ainda não tenha sido retomada na sua totalidade.

“Continuamos a ter os mesmos carros, as mesmas estradas, as mesmas indústrias, as mesmas casas”, diz Corinne Le Quéré, professora especializada em alterações climáticas na Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e autora principal do estudo original e atualização posterior. “Assim que as restrições forem levantadas, regressamos ao ponto onde estávamos.”

“Agora, os riscos de a produção de carbono poder ultrapassar os níveis pré-pandemia são muito elevados”, diz Corinne, “sobretudo porque já o fizemos no passado, e não foi há muito tempo”. Durante a crise financeira de 2007-08, as emissões caíram, mas depois recuperaram.

Indícios de uma recuperação poluente na China
A experiência da China, o primeiro país a entrar em confinamento quando o vírus apareceu e um dos primeiros a começar a reabrir, oferece uma antevisão do que pode estar reservado para outros lugares. As melhorias dramáticas verificadas na qualidade do ar, quando as fábricas e os transportes pararam quase por completo em fevereiro e março, já desapareceram.

Um novo empreendimento de carvão a iniciar a sua atividade no norte da China. Os especialistas dizem que estas infraestruturas de energia acarretam enormes problemas para a saúde e para o clima, pois costumam ser utilizadas durante muitos anos.

Fotografia de Yang Shiyao Xinhua, eyevine/R​edux

No início de maio, quando as fábricas começaram a tentar compensar o tempo perdido, a poluição regressou aos níveis pré-coronavírus e, em alguns locais, até os ultrapassou durante um curto período de tempo, embora tenham diminuído um pouco desde então. Enquanto isso, as autoridades das províncias chinesas, desesperadas pelo impulso económico que acompanha qualquer construção, estão a dar o aval para uma série de novas fábricas a carvão, diz Lauri Myllyvirta, analista do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo de Helsínquia, que publicou os dados sobre a poluição da China. Os especialistas dizem que, se as novas fábricas avançarem, podem trazer muitos problemas para o futuro, não só ao nível da saúde como para o clima, pois costumam ser utilizadas durante muitos anos.

“De repente, estão a ser concedidas muitas mais licenças”, diz Myllyvirta. “Se o mundo quiser evitar os cenários climáticos mais catastróficos, a China tem de aumentar o seu investimento em energias limpas, e não no carvão. Isto é muito alarmante.”

Poluidores ‘mais ousados do que nunca’
No meio de uma pandemia e da implosão económica daí resultante, as indústrias de combustíveis fósseis, os fabricantes de plástico, as companhias aéreas e de automóveis estão a tentar obter alguns benefícios. Alguns governos – nomeadamente o dos Estados Unidos – estão a aceitar pedidos de financiamento por parte das empresas, e estão a fazer reversões regulatórias e outros favores especiais.

“Existe o sério risco de os poluidores poderem emergir desta crise de forma mais ousada e potencialmente com mais lucros do que nunca”, diz Lukas Ross, analista político da organização Friends of the Earth.

As indústrias que mais estão a lucrar com isto são as do petróleo e gás. Através da pressão política, as empresas estão a ganhar milhares de milhões de dólares em fundos públicos que têm como destino aliviar os prejuízos económicos provocados pela pandemia, diz Ross, que escreveu dois relatórios sobre estes empreendimentos.

Este auxílio financeiro inclui alterações tributárias que beneficiam o setor, interrupções nas taxas que as empresas pagam para perfurações ou extrações em terrenos públicos e o acesso ao programa de Empréstimos Main Street de 600 mil milhões de dólares da Reserva Federal. “Este programa foi especificamente alterado de acordo com as linhas solicitadas pela indústria de petróleo e gás”, diz Ross.

A indústria de fraturamento hidráulico, que representa uma hemorragia financeira há anos, está entre as que pediram ajuda. “O sustento destas companhias significa não só um perigo para o clima, mas também para os contribuintes que arriscam o seu dinheiro.”

O Instituto Americano do Petróleo diz que as empresas de petróleo e gás que representa não pediram favores especiais – recorreram apenas a programas projetados para ajudar todos os setores a enfrentarem esta tormenta económica. As alterações tributárias e os empréstimos “aplicam-se a todos os negócios – sejam fabricantes, retalhistas, restaurantes ou produtores de energia – que enfrentam dificuldades financeiras”, diz Scott Lauermann, porta-voz do instituto.

Mas o apoio financeiro surge das reversões regulatórias agressivas que o governo de Trump continuou a impulsionar durante a pandemia. Entre muitas outras medidas, o governo dos EUA suspendeu efetivamente a aplicação de regulamentos sobre a poluição do ar e da água, reduziu a capacidade dos estados em bloquear os projetos energéticos e suspendeu a exigência de uma revisão ambiental pública sobre as novas minas, oleodutos, autoestradas e outros projetos.

“Sinceramente, durante o mês de abril, acompanhar as ofertas dadas a estas indústrias tornou-se quase num emprego a tempo inteiro”, diz Amy Westervelt, jornalista e apresentadora do podcast Drilled, que tem feito o rastreio das ajudas financeiras.

De qualquer forma, a administração de Trump poderia até querer implementar algumas destas mudanças, mas se a pandemia não se tivesse tornado no centro das atenções, não teria sido tão fácil, diz Amy.

O trânsito automóvel é outra das preocupações. Com as dificuldades em respeitar o distanciamento social nos transportes públicos – e muitas pessoas vão provavelmente evitar os transportes com receio de contrair o vírus – as grandes cidades podem estar a dirigir-se para um “carropocalipse” pós-confinamento, isto de acordo com os alertas de um site de notícias sobre transportes.

Na China, o trânsito regressou aos níveis pré-pandemia, mas muitas pessoas ainda não retomaram as suas viagens para o trabalho, diz Myllyvirta. “E apesar de muitas cidades pelo mundo inteiro estarem apressadamente a expandir ciclovias, para gerir o afastamento do metro, dos comboios e dos autocarros, saber se tudo isto vai chegar perto de satisfazer as necessidades ainda é um enorme ponto de interrogação.”

Vale tudo na Amazónia
No Brasil, enquanto o coronavírus assola o país, os madeireiros ilegais aceleram a destruição da floresta amazónica. De acordo com os dados de satélite da agência de pesquisa espacial INPE, em abril de 2020 a destruição de terras subiu 64% em relação ao período homónimo do ano passado – embora 2019 tenha sido o ano de maior desflorestação em mais de uma década.

O presidente Jair Bolsonaro defende há muito tempo o aumento da exploração comercial da Amazónia. Nos últimos meses, à medida que se foram apoderando de terrenos públicos, os madeireiros, mineiros e fazendeiros ilegais enfrentaram poucos obstáculos por parte das autoridades.

“Podemos fazer o que quisermos na Amazónia e não somos punidos”, diz Ane Alencar, diretora do departamento científico da organização IPAM Amazónia, uma organização sem fins lucrativos. “As autoridades estão a usar a pandemia como uma cortina de fumo, uma distração, para permitir a destruição.”

Num país que se tornou no epicentro global da doença, a Amazónia, incluindo a sua população indígena, está entre as regiões mais atingidas pela COVID-19. Agora, estas duas crises ameaçam convergir. A vegetação cortada pelos madeireiros é normalmente incendiada a partir de julho, e o fumo espesso libertado por este processo provoca problemas cardíacos e pulmonares.

Os incêndios do ano passado foram devastadores, mas desta vez – com tanta vegetação já cortada e à espera para ser queimada, e com a propagação desenfreada de uma doença respiratória – os perigos são ainda maiores. Para além dos impactos climáticos da perda de uma floresta tropical, o fumo pode agravar o sofrimento dos pacientes com COVID-19 e aumentar ainda mais a pressão sobre os hospitais que já enfrentam dificuldades na luta contra a pandemia, diz Alencar.

‘Quais serão as prioridades?’
Mesmo em lugares como a Europa, onde os líderes não estão a exercer pressão para reduzir as normas ambientais, as crises económicas e sanitárias podem desviar as atenções da catástrofe mais lenta que é representada pelas alterações climáticas. E este problema só recebeu finalmente a sua atenção na agenda política durante o ano passado, quando as manifestações feitas por jovens ativistas alertaram para a urgência da situação, diz Åsa Persson, diretora de investigação do Instituto Ambiental de Estocolmo.

“Quais serão as prioridades?”, pergunta Persson. Será que os governos vão procurar fortalecer a economia através do reforço de indústrias antigas e poluidoras, ou será que vão aceitar os pedidos de “estímulo ecológico” e utilizar os fundos de recuperação para criar empregos em setores de energia limpa e de eficiência energética?

Alocar estas vastas quantias de dinheiro de uma forma que impulsione o mundo em direção a um futuro com menos carbono – e que lide também com as desigualdades raciais e económicas colocadas a nu pela pandemia – seria muito mais proveitoso do que alguns meses com emissões reduzidas, argumenta Ross.

“Não vamos ter outra oportunidade para fazer isto. Não nos podemos dar ao luxo de reconstruir sobre os erros do passado.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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