Como Combater a Solidão em Tempos de Pandemia? Idosos LGBTQ Partilham a sua Sabedoria

As pessoas LGBTQ mais velhas têm o dobro das probabilidades de viverem sozinhas, mas muitas criaram comunidades fortes para substituir a família que perderam.

Friday, June 26, 2020,
Por Rebecca Renner
Embora as estatísticas digam que as pessoas idosas LGBTQ provavelmente vivem sozinhas ou isoladas, muitas destas ...

Embora as estatísticas digam que as pessoas idosas LGBTQ provavelmente vivem sozinhas ou isoladas, muitas destas pessoas estão a envelhecer com a mesma teimosia alegre que as acompanhou durante toda a vida. E esta resiliência pode servir de lição para outras pessoas.

Fotografia de Annabel Clark, Redux

Depois de viver uma vida inteira como homossexual assumido, Elliot Englebaum, de 73 anos, ficou confinado a uma casa de repouso em Hollywood, na Califórnia. Devido à pandemia mortal de coronavírus, Englebaum passa a maior parte do tempo sozinho no seu quarto, onde recorda os tempos em que ia ao cinema todas as semanas com o seu falecido marido. E também passeia ocasionalmente pelos terrenos da propriedade para se deleitar com as iguanas invasoras que descansam no relvado.

Englebaum, antigo assistente social que viu a liberdade LGBTQ crescer desde que participou nos Motins de Stonewall no verão de 1969, nunca se sentiu tão sozinho. Mesmo que esteja com os seus amigos no lar, é o único homossexual ali presente.


“Não tenho aqui ninguém para mim”, diz Englebaum.

Em termos psicológicos, o abandono é diferente de solidão. Este estado mental pode surgir não só quando estamos separados de outras pessoas, mas também quando estamos no meio de uma multidão, e pode agravar condições de saúde, incluindo ansiedade, depressão, demência, doença de Alzheimer, tensão arterial elevada e problemas cardíacos. De acordo com a organização SAGE, um grupo de defesa dos idosos LGBTQ, isto pode ser particularmente preocupante para os idosos LGBTQ nos Estados Unidos, que têm duas vezes mais probabilidades de viverem sozinhos e em isolamento social do que os outros idosos.

Antes da pandemia, segundo uma sondagem feita pela AARP, já cerca de 50% dos idosos LGBTQ diziam sentir-se sozinhos ou isolados nesta fase da vida. Para além dos outros fatores típicos que contribuem para o sentimento de solidão neste segmento da população, os idosos LGBTQ enfrentam outros riscos, incluindo a ausência de filhos, o distanciamento da família, o ostracismo e a perda de amigos e companheiros durante o pico da epidemia de SIDA na década de 1980 e início da década de 1990.

“A minha vida durante a juventude foi muito dura. Mas mesmo quando as coisas são difíceis, conseguimos ultrapassá-las.”

por LILLIAN WOLF, 86 ANOS, VETERANA MILITAR APOSENTADA

A solidão de Englebaum deriva em parte das medidas de isolamento adotadas pela casa de repouso e pelo estado da Flórida, que visam conter a disseminação de coronavírus. De acordo com o Departamento de Saúde da Flórida, cerca de metade das 2993 mortes deste estado envolveu residentes ou funcionários de instituições de cuidados prolongados.

“A solidão já é o maior problema que os residentes enfrentam nas casas de repouso”, diz Steve Blay, cofundador da Friends Across the Ages, uma organização que faz a ligação entre residentes de casas de repouso e voluntários – com o objetivo de estabelecerem amizade a longo prazo e de participarem ativamente na comunidade. “Com a pandemia, o isolamento e a solidão aumentaram exponencialmente.” A SAGE estima que existam cerca de 1.5 milhões de idosos LGBTQ nos EUA, mas presume-se que nas casas de repouso residam menos de 5%. No entanto, é difícil avaliar os números exatos, já que a maioria dos idosos LGBTQ receia ser alvo de discriminação por parte das equipas dos lares ou de outros residentes se tiverem uma abordagem aberta sobre a sua sexualidade.

Mas ser um idoso LGBTQ tem um lado positivo. Nos EUA, antes dos Motins de Stonewall e do movimento Libertação Gay, muitas pessoas LGBTQ uniram-se para cuidarem umas das outras, criando uma comunidade para substituir o apoio familiar que muitas tinham perdido.

Efeitos da solidão na saúde
A solidão é uma condição que tem início no cérebro, mas afeta o corpo todo. De acordo com o trabalho do casal John e Stephanie Cacioppo – a equipa de neurociência responsável por muitos dos avanços feitos durante as últimas duas décadas na investigação da solidão cognitiva – a solidão crónica e a perceção de isolamento podem ter um efeito dramático no bem-estar de um indivíduo de qualquer idade.

A Teoria Evolutiva da Solidão dos Cacioppo descreve a solidão como sendo uma condição contrária aos comportamentos sociais que os humanos desenvolveram para permanecerem em segurança durante tempo suficiente para transmitirem os seus genes. Na ausência desta socialização, o nosso cérebro começa a deteriorar-se, afetando tanto a saúde mental como o comportamento. E este stress pode alterar literalmente a estrutura do cérebro.

As investigações iniciais feitas por John Cacioppo demonstram que a perceção de isolamento social contribui para um declínio cognitivo mais acelerado nos idosos. A solidão também diminui as funções executivas, as capacidades mentais que nos permitem tomar decisões rapidamente e gerir as atividades diárias com o mínimo de stress. Para além disso, a solidão pode mudar a forma como pensamos e reagimos, tornando-nos mais propensos a sentir sintomas de depressão, mais sensíveis a ameaças sociais, mais propensos a pensamentos autodestrutivos e a outros processos negativos do pensamento. Tudo isto pode dificultar o regresso a uma interação social por parte das pessoas que já estão isoladas.

“O cérebro humano encara o isolamento como uma forma de ameaça.”

por STEVEN COLE, UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA EM LOS ANGELES

“O cérebro humano encara o isolamento como uma forma de ameaça”, diz Steven Cole, investigador de genómica na Universidade da Califórnia em Los Angeles, que estuda os efeitos das influências sociais na saúde. “Quando estamos sozinhos ou desconectados de outros, isso desencadeia respostas de stress que ativam processos inflamatórios e suprimem as respostas antivirais. E isso não é certamente uma coisa boa durante uma pandemia de coronavírus.”

Segundo as investigações de Cole, a solidão pode enfraquecer o sistema imunitário e provocar inflamação, deixando o doente suscetível a muitos tipos de doenças crónicas. Por exemplo, a solidão aumenta o risco de ataques cardíacos e de derrames vasculares cerebrais na mesma proporção que a obesidade ou o tabagismo.

Em muitos dos estados dos EUA, os centros de assistência a idosos, que não têm financiamento suficiente e que se debatem com a falta de pessoal, estão em dificuldades para equilibrar os efeitos da solidão com a necessidade de proteger os residentes mais vulneráveis à COVID-19. Em casas de repouso como a de Englebaum, os residentes podem sair para passear ou fazer compras, desde que se isolem durante um período de até duas semanas após o contacto com pessoas do exterior. Em outros lares de idosos, os funcionários dizem que as medidas de isolamento mais rigorosas confinam desde março os residentes não ambulatórios aos seus quartos, com poucas distrações ou contactos sociais.

“Algumas pessoas não se levantam da cama”, diz Ana Rodriguez, técnica de medicação em vários dos centros de cuidados prolongados em Jacksonville, na Flórida. “Eles veem apenas uma pessoa por dia. E quando vou eu, essa pessoa sou eu.”

Uma cura para a solidão
Embora as estatísticas digam que os idosos LGBTQ têm mais probabilidades de ficarem sozinhos ou isolados, muitos deles estão a envelhecer com a mesma teimosia alegre que os sustentou uma vida inteira. Alguns conseguiram-no estabelecendo grandes organizações como a SAGE, ou desenvolvendo programas em centros LGBTQ para se manterem em contacto à medida que envelhecem. A resiliência destas pessoas pode servir de lição para outros.

Lillian Wolf, de 86 anos, mudou-se de Maryland para uma casa de repouso em Orlando, na Flórida, no início de março, pouco antes do confinamento devido à pandemia. Vibrante e muito social, Lillian entrou imediatamente em contacto com o Centro LGBTQ+ de Orlando para integrar o programa Older Wiser Learning (OWL), que coloca idosos LGBTQ em contacto entre si e com a comunidade LGBTQ. Apesar de não poderem fazer as suas visitas habituais à cidade, o grupo OWL mantém-se informado através de reuniões semanais feitas em videoconferência por Zoom.

Lillian tem saudades da sua companheira de uma relação de 40 anos, que morreu em 2015, mas enfrenta cada novo desafio da sua vida com resiliência e sabedoria. E continua a gostar de falar ao telefone com os seus familiares, continua a participar no seu jogo semanal de póquer e não tem vergonha de contar uma piada ou duas. Tal como Elliot Englebaum, Lillian Wolf também é a única pessoa LGBTQ na sua casa de repouso – de que ela tem conhecimento. Mas a sua vida fê-la valorizar o pouco que sempre teve e a encontrar alegria nas pequenas coisas da vida, e isso preparou-a para manter a sua teimosa e positivismo durante a pandemia.

“Temos de estar cientes de que existem coisas para além do nosso controlo”, diz Lillian, que serviu na Marinha e no Exército. “A minha vida durante a juventude foi muito dura. Mas mesmo quando as coisas são difíceis, conseguimos ultrapassá-las. Talvez seja por isso que não estou realmente preocupada.”

Ao permanecer ativamente ligada à comunidade LGBTQ, Lillian consegue manter uma rede de pessoas que a apoiam emocionalmente à medida que envelhece. E os estudos demonstram que estas relações sociais evitam o declínio no desempenho cognitivo que geralmente acompanha o envelhecimento e a solidão.

“O simples ato de falar faz diferença.”

por CHARLES PITRE HOY-ELLIS, UNIVERSIDADE DE UTAH

A sinceridade também pode proporcionar algum alívio, mesmo que seja feita pela internet – embora o investigador Seydi Ahmet Satici alerte que, se as pessoas não forem cuidadosas, o vício das redes sociais também pode ter o efeito psicológico oposto. Outros idosos esqueceram a solidão através de atividades de lazer “sérias” baseadas em objetivos, como a procura pela receita perfeita para fazer massa fermentada. E tal como acontece com Liliian Wolf e Elliot Edlebaum, os idosos na China também encontraram formas de combater a solidão através de chamadas telefónicas semanais agendadas com voluntários, familiares e velhos amigos. E mesmo que não possam ir a um desfile do Orgulho, o facto de poderem dançar sozinhos pode melhorar o seu estado de humor e as funções cognitivas. E não importa quanto tempo dura uma chamada telefónica, conversar com outro ser humano em tempo real, com sinceridade e compreensão, pode elevar uma pessoa das profundezas da solidão.

“Quando temos de esconder uma parte integrante de quem somos, isso tem impactos significativos e profundos na nossa saúde física e mental”, diz Charles Pitre Hoy-Ellis, recordando os momentos que viveu enquanto jovem homossexual e que o inspiraram a investigar e a zelar pela saúde dos idosos LGBTQ. Hoy-Ellis é agora professor assistente de assistência social na Universidade de Utah e é especializado em equidade em saúde LGBTQ.

Como o apoio social positivo não é um dado adquirido, a SAGE criou programas para ajudar os membros idosos da comunidade a permanecerem em contacto uns com os outros. Um destes programas é o Programa de Visitantes Amigáveis de Idosos do Instituto do Sul da Flórida, que junta voluntários (Visitantes Amigáveis) com idosos LGBTQ isolados.

A pandemia está a dificultar a continuidade de muitas das atividades habituais destes programas. Mas os idosos LGBTQ ainda conseguem manter contactos pessoais com outras pessoas, seja por Zoom ou vivendo em grupos que se isolaram. Edlebaum tenta falar ao telefone sempre que pode, mas também tenta encontrar formas de manter uma sensação de propósito, que é um fator importante para um envelhecimento saudável.

Hoy-Ellis cita o exemplo de uma organização chamada ACT UP, que operou em São Francisco durante a epidemia de SIDA.

“O mantra deles era o de que o silêncio é igual à morte. Portanto, se não nos manifestarmos, contribuímos para a morte”, diz Hoy-Ellis. “E mesmo no reino dos idosos LGBTQ, com o isolamento social e a solidão, o simples ato de falar, apenas falar, faz a diferença.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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