Investigadores Portugueses Resolvem o Mistério do Corante Azul Medieval

Investigadores portugueses revelam o mistério do corante azul medieval através de uma planta colhida no sul de Portugal. A descoberta mudará a história da conservação das obras de arte.

Tuesday, June 2, 2020,
Por National Geographic
Manuscrito medieval produzido no Mosteiro de Alcobaça (séc. XII-XIII); Alc 402, fl 227 na coleção da ...

Manuscrito medieval produzido no Mosteiro de Alcobaça (séc. XII-XIII); Alc 402, fl 227 na coleção da Biblioteca Nacional de Portugal.

Fotografia de Duarte Belo


Os corantes naturais são provenientes de plantas, de invertebrados ou de minerais. A maioria deles provém de partes de plantas como raízes, cascas de árvores, folhas ou madeira, outros têm origem biológica como fungos.

Uma equipa de investigadores portugueses recriou a tinta azul púrpura, utilizada na Idade Média em manuscritos, que permanecia perdida no tempo. O estudo foi desenvolvido por um grupo interdisciplinar composto por investigadores do Laboratório Associado para a Química Verde (LAQV-REQUIMTE), juntamente com uma bióloga da Universidade de Lisboa.

Chrozophora tinctoria no seu habitat (Granja-Amareleja, Alentejo).

Fotografia de Maria João Melo e Paula Nabais

Fonte natural medieval para tingir ou produzir tintas
O azul milenar é extraído dos frutos da pequena planta que nasce na Granja-Amareleja, Chrozophora tinctoria. Esta era utilizada numa indústria em Gallargues-le-Montueux (França), onde se capturava este azul em trapos, que eram exportados para a Holanda, onde a cor era utilizada para tingir de vermelho a crosta do queijo holandês, semelhante ao queijo flamengo português.

No processo de investigação decorreu uma análise de documentos medievais e, com base nas descrições detalhadas selecionadas de três tratados medievais, foi possível determinar a melhor época para a recolha da espécie e a melhor forma de extração.

Frutos da Chrozophora tinctoria, após alguns dias no laboratório.

Fotografia de Maria João Melo e Paula Nabais

Planta selvagem, nativa em Portugal
A Chrozophora tinctoria foi encontrada na região alentejana, mais concretamente em Granja, e os frutos foram colhidos durante os meses de julho, agosto e setembro de 2017 e 2018, tal como indicavam os estudos medievais.

Os frutos foram recolhidos tanto verdes como maduros, com o devido cuidado de não moer as sementes encontradas no interior, que anunciavam um líquido semelhante ao azul medieval tão procurado.

A planta selvagem é caracterizada como uma pequena erva com folhagem verde-prateada. As flores são agrupadas em racemos tipo espiga, com flores masculinas no topo e flores femininas na base, geralmente solitárias. É uma planta monoica, tendo órgãos reprodutores masculinos e femininos em diferentes flores.

As flores masculinas são amarelas e discretas. As flores femininas exibem um ovário esférico e as pétalas não estão presentes. A floração ocorre de maio a setembro e a maturação dos frutos ocorre entre julho e outubro.

Paula Nabais, investigadora do Departamento de Conservação e Restauro da Faculdade de Ciências e Tecnologia (NOVA) e primeira autora do estudo, teve uma intervenção direta nesta fase do estudo, em que os extratos obtidos na recolha apresentaram o corante natural azul como principal componente.

Os extratos dos frutos da Chrozophora tinctoria são usados para obter uma aguarela medieval, o folium, seguindo as instruções de tratados escritos nos sécs. XII a XV.

Fotografia de Maria João Melo e Paula Nabais

A combinação de receitas antigas com técnicas modernas
Após a extração do pigmento dos frutos do tamanho de uma pequena noz, a molécula foi isolada, purificada e caracterizada, através de uma metodologia multianalítica e estudos computacionais.

Tratou-se de um processo moroso até ao resultado pretendido, a começar pelo livro que se encontrava escrito em judaico-português. A equipa de investigadores também simulou a interação da luz com a molécula, para verificar se assim obteriam o azul desejado.

A descoberta foi de grande impacto, pois a chrozophoridina, a molécula por trás do folium, foi utilizada desde a antiguidade. Não se trata de antocianina, como as que se encontram em muitas flores e frutos, nem se trata de índigo, o mais estável dos corantes naturais para o azul. Por si só, a chrozophoridina é única.

Para o património cultural, o conhecimento destas moléculas históricas é importante não só pela recuperação de um saber fazer que se perdeu, mas para criar estratégias de conservação das obras de arte.

Recuperou-se uma tonalidade do azul medieval perdida no tempo
Durante a Idade Média, o folium, uma aquarela azul popular na ilustração de textos como obras do século XV, que eram decoradas com ouro, prata ou cores brilhantes, consideradas obras-primas do mundo medieval.

O pigmento que acabou por cair em desuso durante mil anos acaba resolvido, desbloqueando a estrutura molecular para o azul medieval, de origem botânica.

Com o mapeamento da estrutura química da molécula produtora de azul, foi possível desmascarar a identidade do folium, de classe própria.

O resultado apresentado por este estudo revela-se indispensável para a caracterização do corante medieval em obras de arte, como a iluminação de manuscritos medievais, para testar a sua estabilidade e contribuir para a preservação do património cultural.

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