Ovos de Dinossauro de Casca Mole Revelam Detalhes Sobre Parentalidade Pré-histórica

Dois novos estudos contrariam teorias antigas sobre o nascimento dos dinossauros e descrevem o primeiro ovo fóssil alguma vez encontrado na Antártida.

Tuesday, June 23, 2020,
Por Michael Greshko
Este ovo fossilizado foi posto por um Mussaurus, um dinossauro herbívoro de pescoço comprido que atingia ...

Este ovo fossilizado foi posto por um Mussaurus, um dinossauro herbívoro de pescoço comprido que atingia os 6 metros de comprimento e que viveu há cerca de 227 e 208.5 milhões de anos onde agora fica a Argentina.

Fotografia de ©DIEGO POL

Uma investigação feita a nível global, desde os desertos da Mongólia até às terras altas da Argentina, revelou os primeiros ovos de dinossauro de casca mole alguma vez encontrados, fornecendo uma nova visão sobre como os dinossauros depositavam os ovos e cuidavam das crias. A imagem emergente é a de que, em termos reprodutivos, os primeiros dinossauros eram como os répteis da atualidade – que geralmente enterram os seus ovos em ninhos ou tocas e não ficam por perto para cuidar deles.

Estas informações surgem do trabalho de duas equipas internacionais que apresentaram fósseis impressionantes de ovos de casca mole, alguns com 200 milhões de anos. Uma das equipas descreve as primeiras cascas moles de ovos alguma vez identificadas entre os dinossauros, enquanto que a outra apresenta o primeiro ovo fóssil descoberto na Antártida até agora – possivelmente de um réptil marinho – que também parece ter casca mole.


A mera existência dos fósseis, para além da sua qualidade de preservação, surpreendeu a comunidade científica. “Como diz o ditado, há mais coisas no céu e na Terra do que imaginávamos”, diz Julia Clarke, paleontologista na Universidade do Texas, em Austin, e coatora de um dos estudos, ambos publicados na revista Nature.

Os ovos de dinossauro descobertos ao longo de décadas apresentavam cascas duras, como as dos pássaros da atualidade, que são os únicos descendentes vivos dos dinossauros. As cascas dos ovos das aves contêm uma camada de calcite mineral, que os torna mais fortes e rijos, permitindo aos pássaros sentarem-se sobre os ovos, ou chocar, para os incubarem. Os paleontólogos costumam especular que os dinossauros usavam estratégias parentais semelhantes. Mas os ovos encontrados até agora eram quase todos datados do período Cretáceo, no fim da evolução dos dinossauros. Agora, o mistério do desaparecimento dos ovos da antiguidade pode ter uma explicação – muito provavelmente, eram macios e semelhantes a couro, fator que os tornava mais propensos à degradação e impedia a fossilização.

Em conjunto, os novos estudos contribuem substancialmente para o que os cientistas sabem sobre a reprodução dos dinossauros e répteis da antiguidade.

“Existem mais coisas no registo fóssil para além de restos esqueléticos”, diz Johan Lindgren, paleontologista da Universidade Lund, na Suécia, que fez a revisão de ambos os estudos e é especialista em tecidos moles fossilizados, incluindo gorduras de répteis marinhos antigos. “Ocasionalmente, encontramos muito mais coisas.”

‘Auréolas’ misteriosas em torno de um bebé dinossauro
Algumas das evidências fósseis usadas nos dois estudos foram armazenadas nos escritórios do paleontólogo Mark Norell, no Museu Americano de História Natural – onde ficam guardados os espécimes de prioridade elevada. “São os fósseis mais surpreendentes e impensáveis do mundo”, diz Jasmina Wiemann, doutoranda em Yale, que os compara a “uma antevisão do que se pode seguir nos próximos 10 anos na paleontologia”.

Jasmina Wiemann e Matteo Fabbri, também ele doutorando em Yale, visitam regularmente Mark Norell em Nova Iorque, para observarem os fósseis que ele estuda. Entre esta coleção da antiguidade, Norell mostrou a Wiemann e a Fabbri uma dezena de embriões de dinossauros com mais de 72 milhões de anos – amostras que Norell e os seus colegas mongóis encontraram durante uma expedição feita em 1995 no Deserto de Gobi. Misteriosamente, os embriões, que pertenciam ao dinossauro com chifres Protoceratops, estavam envoltos em películas pretas e brancas, em vez de qualquer tipo de casca dura de ovo passível de identificação.

Em 1995, os paleontólogos que trabalhavam no Deserto de Gobi, na Mongólia, encontraram este conjunto de ovos e embriões fossilizados de Protoceratops, os primeiros ovos de um dinossauro com chifres alguma vez descritos.

Fotografia de M. ELLISON/©AMNH

“O Mark mostrou-nos aquele conjunto de fósseis e, assim do nada, disse que achava que os animais colocavam ovos de cascas moles”, diz Wiemann. “Inicialmente, pensámos que não podia ser. Mas, quando observámos os fósseis mais de perto, percebemos que tinham umas auréolas muito estranhas.”

Se o Protoceratops colocava ovos de casca mole, seria o primeiro dinossauro identificado a fazer isto, contrariando anos de especulação. Já foram descobertas cascas moles de ovos de outros animais da antiguidade, como os antepassados distantes dos dinossauros e os répteis voadores extintos chamados pterossauros, mas não no reino dos dinossauros.

A equipa recolheu pequenas amostras dos fósseis para examinar ao microscópio. As secções transversais revelaram “auréolas” com cerca de um terço de um milímetro de espessura e não possuíam a estrutura calcificada padrão encontrada nos ovos dos dinossauros posteriores. “Uma das coisas mais marcantes foi não haver casca de ovo”, diz Fabbri.

Uma nova visão sobre a parentalidade dos dinossauros
Em 2012 e 2013, onde agora fica a atual região da Patagónia argentina, uma equipa de investigadores partiu em várias expedições financiadas pela National Geographic Society para procurar fósseis de um dinossauro herbívoro, chamado Mussaurus, que viveu há mais de 200 milhões de anos.

A expedição encontrou espécimes de Mussaurus num estado de desenvolvimento muito precoce e que supostamente eram embriões – mas a equipa ficou surpreendida por não conseguir encontrar cascas de ovos calcificadas junto aos mesmos. “Nunca conseguíamos acertar”, diz Diego Pol, Explorador National Geographic e paleontólogo do Museu de Paleontologia Egidio Feruglio, na Argentina. “Estávamos a fazer a pergunta errada. Estávamos à procura da coisa errada.”

Um dia, Diego Pol falou com Mark Norell, o seu antigo orientador de doutoramento, e ambos perceberam que os embriões encontrados na Mongólia e na Argentina partilhavam em comum a ausência de uma casca de ovo calcificada. Diego enviou rapidamente amostras para Wiemann e Fabbri, em Yale, para observarem detalhadamente os restos mortais do Mussaurus.

Com um laser apontado às amostras para analisar a forma como a luz se dispersava, Wiemann conseguiu deduzir as assinaturas químicas dos ovos de Protoceratops e Mussaurus – da mesma forma que consegue distinguir a composição dos ovos de aves da atualidade, dos jacarés, das tartarugas e de outros répteis. Os dados químicos dos ovos dos dinossauros assemelham-se mais aos dos ovos com cascas moles.

Os ovos de casca mole, como os ovos de casca rija, não retêm água, o que significa que o Protoceratops e o Mussaurus provavelmente enterraram os seus ovos da mesma forma que as tartarugas ou os jacarés da atualidade o fazem, e possivelmente podiam ficar a vigiar o local durante pouco tempo e depois seguiam o seu caminho. As linhagens de dinossauros com cascas de ovo rijas seguiram várias estratégias diferentes de nidificação, incluindo enterrar os ovos. Mas um dos grupos de dinossauros que tinha ovos de casca rija, os terópodes, que mais tarde geraram as aves, tinha ninhos ao ar livre e eles chocavam-nos – cuidados parentais que exigiam mais envolvência.

Para rastrear a evolução dos ovos de dinossauro, Fabbri traçou uma árvore genealógica com aproximadamente 250 milhões de anos e descobriu que o antepassado comum de todos os dinossauros provavelmente colocava ovos de casca mole. E este trabalho sugere que as cascas de ovo calcificadas não evoluíram apenas uma vez entre os dinossauros, como se pensava anteriormente, mas sim pelo menos três vezes diferentes. De repente, dizem os investigadores, a grande diversidade de ovos de casca rija dos dinossauros tem uma explicação.

“Está tudo a começar a encaixar muito bem”, diz Wiemann.

Ovo enorme na Antártida
Mais para sul, nas rochas da Antártida, outro ovo captou a atenção dos cientistas – o segundo maior ovo fossilizado alguma vez encontrado, com cerca de 30 centímetros.

Este ovo, com 68 milhões de anos, chamado Antarcticoolithus bradyi, é o primeiro ovo fóssil alguma vez encontrado na Antártida, e só é ultrapassado em tamanho pelos ovos do extinto pássaro-elefante de Madagáscar. E o Antarcticoolithus também é um dos poucos ovos fósseis alguma vez encontrados em sedimentos marinhos. “O facto de o primeiro ovo encontrado na Antártida estar quase completo e possuir uma microestrutura finamente preservada é quase uma loucura”, diz Julia Clarke, da Universidade do Texas, em Austin.

O Antarcticoolithus foi descoberto em 2011 por uma equipa de investigadores chilenos durante uma expedição feita à Ilha Seymour, na Antártida. A deformação estranha e vazia confundiu a equipa. Em 2018, quando David Rubilar-Rogers, coautor do estudo e paleontólogo do Museu Nacional de História Natural do Chile, apresentou o fóssil a Clarke, chamou-lhe “A Coisa”.

Visto de lado, o ovo fóssil de Antarcticoolithus bradyi parece uma bola de futebol americano vazia. Oficialmente, o nome de espécie bradyi, que deriva do grego antigo para “adiado”, refere-se à raridade de fósseis de ovos marinhos. No entanto, o nome também presta homenagem ao famoso jogador da NFL Tom Brady.

Fotografia de Legendre et al. (2020)

Ao microscópio, o Antarcticoolithus não só carece da estrutura interna das cascas rijas de ovo, mas também dos poros, sugerindo que este ovo era mole.

Na época em que o ovo foi posto, as águas antárticas eram povoadas por enormes répteis marinhos chamados mosassauros. E foram encontrados ossos de um mosassauro a pouco mais de 200 metros do local, sugerindo que o ovo pode ter pertencido a estes répteis nadadores de 6 metros de comprimento.

Esta ilustração mostra a hipótese do Antarcticoolithus ter sido colocado por um mosassauro, um tipo de réptil marinho extinto. As mães mosassauro teriam colocado ovos com cascas macias e finas, e as crias chocavam e seguiam imediatamente para a superfície para respirarem pela primeira vez.

Fotografia de Francisco Hueichaleo (ILUSTRAÇÃO)

No entanto, o ovo não tem ossos no seu interior, pelo que ninguém sabe a identidade dos pais. Sabe-se que outros répteis marinhos da antiguidade davam à luz como as baleias modernas. Se os mosassauros colocavam realmente ovos, as suas crias teriam de eclodir imediatamente para alcançar a superfície e respirar pela primeira vez.

Será que o Antarcticoolithus pertence a um dinossauro? A ser verdade, este ovo teria sido quase certamente colocado em terra e depois levado para o mar. “Felizmente, se escavarem mais esta área, podem encontrar embriões associados a ovos semelhantes, e assim conseguiremos saber”, diz Lindgren. (Leia sobre o Espinossauro, o primeiro dinossauro nadador de que há conhecimento.)

Estes ovos pré-históricos existem pelo mundo inteiro e sublinham o que ainda falta aprender sobre a evolução dos répteis, sobretudo entre os dinossauros, cujos membros mais antigos enterravam os seus ovos como muitos dos répteis o fazem hoje em dia – e como os seus antepassados fizeram há mais de 250 milhões de anos.

“Durante este tempo todo, encarámos os dinossauros como répteis especiais... mas, pelo menos ao início, eles não eram assim tão especiais”, diz Fabbri. “Estamos constantemente a contrariar tudo o que assumíamos há décadas.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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