Como os Cientistas Sabem que a COVID-19 É Muito Mais Mortífera do que a Gripe

Depois de meses de estudo, os cientistas têm um conhecimento mais aprofundado sobre o potencial mortífero do coronavírus – tornando os casos recentes ainda mais alarmantes.

Thursday, July 9, 2020,
Por Carrie Arnold
Um homem que morreu devido ao coronavírus é visto embrulhado num saco, na unidade de cuidados ...

Um homem que morreu devido ao coronavírus é visto embrulhado num saco, na unidade de cuidados intensivos para a COVID-19 do United Memorial Medical Center em Houston, no Texas, EUA, no dia 29 de junho de 2020.

Fotografia de Callaghan O'Hare, Reuters

Para James Scott, as preocupações começaram no final de maio, cerca de um mês depois de o estado do Texas ter começado a minimizar as restrições sobre o comércio e ajuntamentos públicos. Scott estava a analisar um modelo que tinha desenvolvido para prever mortes por COVID-19 através de dados de mobilidade de telemóveis. Enquanto observava o aumento dramático de pessoas que frequentavam restaurantes, bares, ginásios e salas de espetáculos, Scott sentiu que era apenas uma questão de tempo até que os casos começassem a surgir – e as mortes cedo se seguiriam.

“É como dizia o Bob Dylan, não precisamos de ser meteorologistas para saber qual é a direção para onde o vento vai soprar”, diz Scott, que trabalha na Universidade do Texas, em Austin, onde o seu modelo está a avaliar se as alterações nos padrões de mobilidade conseguem prever a mortalidade por coronavírus.


O Texas é apenas um dos estados que sofreu um aumento de casos de coronavírus nas últimas semanas, depois de enfraquecer as suas diretrizes de distanciamento social. No entanto, apesar de o número de mortos ainda não ter aumentado, os especialistas alertam que o coronavírus não perdeu a sua letalidade. Por um lado, a doença demora algum tempo a matar, mas os humanos demoram ainda mais tempo a registar a mortalidade da pandemia devido à burocracia administrativa. As pessoas que morrem hoje provavelmente foram infetadas há três ou quatro semanas.

Para além disso, os cientistas sabem agora medir melhor a mortalidade por COVID-19, e os números são alarmantes. Utilizando um cálculo mais sofisticado, chamado taxa de infeção-letalidade, combinado com os dados dos últimos meses, as estimativas recentes mostram que, em média, a COVID-19 é cerca de 50 a 100 vezes mais mortífera do que a gripe sazonal.

Isto significa que, se as estratégias não mudarem, os EUA e outros países que enfrentam um aumento de casos precisam de se preparar para um verão e outono mortíferos.

“Não precisamos de fazer muitos cálculos para perceber que 128 mil mortes é um número muito elevado”, diz Gideon Meyerowitz-Katz, epidemiologista da Universidade de Wollongong, citando o atual número de mortes nos EUA.

Como medir a letalidade da COVID-19
A questão passa por saber até que ponto as coisas vão piorar.

No início do surto, muitas pessoas confiavam no que se conhece por taxa de mortalidade por caso – o número de mortes por COVID-19 dividido pelo número de casos confirmados. Mas este método tornou-se um pouco obsoleto, dado que ficou claro que muitas pessoas podiam contrair o vírus sem apresentarem sintomas; portanto, não eram contabilizadas como casos confirmados.

Agora, depois de meses de estudo sobre o fluxo e refluxo da pandemia no mundo inteiro, os cientistas estão a adotar uma métrica semelhante, mas mais abrangente –  a taxa de infeção-letalidade. Esta ferramenta estatística usa dados sobre infeções conhecidas, incluindo as melhores estimativas sobre os casos não diagnosticados e assintomáticos, para atribuir numericamente as probabilidade de morte de uma pessoa infetada com a doença. Este tipo de cálculo é feito todos os anos para a gripe sazonal.

Os cientistas podem usar duas estratégias para estimar a taxa de infeção-letalidade, explica Meyerowitz-Katz. Por um lado, podem estimar o número de infeções usando os estudos serológicos, que procuram anticorpos numa pessoa contra o coronavírus. Estes testes podem revelar se uma pessoa foi infetada, mesmo que não apresente sintomas. Ou podem usar métodos estatísticos para inferir o número total de infeções com base no que se sabe sobre o número de casos confirmados e as estimativas sobre infeções assintomáticas.

No dia 30 de junho de 2020, uma equipa médica com equipamento completo de proteção individual empurrava uma maca com um paciente falecido, no United Memorial Medical Center de Houston, no Texas. As hospitalizações e casos de COVID-19 aumentaram desde que o estado do Texas reabriu, levando as unidades de cuidados intensivos a operarem na sua capacidade máxima e levantando preocupações sobre o aumento de mortes à medida que o vírus se propaga.

Fotografia de Go Nakamura, Getty Images

“Os estudos serológicos produzem geralmente estimativas mais baixas sobre a taxa de mortalidade por infeção, e os modelos estatísticos tendem a ser mais elevados”, diz Meyerowitz-Katz.

Através de um modelo estatístico, os epidemiologistas da Universidade de Colúmbia estimaram a taxa de infeção-letalidade na cidade de Nova Iorque, com base no surto maciço que ocorreu desde 1 de março a 16 de maio. Os resultados, publicados online no dia 29 de junho em pré-impressão e sem revisão por pares, mostram que o coronavírus pode ser ainda mais mortífero do que se pensava. De acordo com esta análise, a taxa de infeção-letalidade por COVID-19 é de 1.46%, ou duas vezes superior à apresentada pelas estimativas anteriores (e muito mais elevada do que uma taxa que foi amplamente partilhada nas redes sociais). Este risco varia de acordo com a idade, e as pessoas com mais de 75 anos têm a maior taxa de infeção-letalidade – 13.83%.

“Por cada 100 mil casos de infeção por COVID-19, morrem entre 500 a 1000 pessoas.”

Numa análise informal publicada na Medium, Meyerowitz-Katz comparou as taxas de infeção-letalidade da gripe com várias taxas calculadas até agora no mundo inteiro para a COVID-19. E tal como a COVID-19, a gripe também tem um número elevado de infeções ligeiras e assintomáticas. Estes casos não são contabilizados na maioria dos cálculos feitos pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA sobre a severidade da gripe – porque dependem de hospitalizações. No que diz respeito à gripe, os médicos e os hospitais não se preocupam muito com os casos ligeiros que não necessitam de grandes tratamentos.

Usando vários estudos que calcularam as taxas de infeção-letalidade da gripe sazonal, Meyerowitz-Katz determinou que, por cada 100 mil infetados, morrem entre 1 e 10 pessoas. E por cada 100 mil casos de infeção por COVID-19, morrem entre 500 e 1000 pessoas. De acordo com estes cálculos, o coronavírus é provavelmente 50 a 100 vezes mais mortífero do que a gripe sazonal, suportando as descobertas feitas pela Universidade de Colúmbia.

“Estes números são de certa forma académicos”, diz Meyerowitz-Katz. “Sabemos avaliar o que pode ser uma situação realmente má.” Mas continuam a ser valiosos para comunicar a conjuntura a um público que tem dificuldades em respeitar o distanciamento social.

Atrasos na contabilização de mortes
Parte do problema na comunicação da taxa real de mortalidade deve-se ao facto de as mortes por COVID-19 serem particularmente difíceis de rastrear em tempo útil. Registar a ocorrência de uma morte e determinar a sua causa são duas funções básicas na saúde pública. Mesmo em situações menos caóticas e com um ritmo mais lento do que acontece com a COVID-19, pode demorar vários dias até que as autoridades estaduais recebam a notificação de uma morte. Os estados norte-americanos encaminham os seus dados para o Centro Nacional de Estatísticas de Saúde do CDC, onde são registadas as mortes e respetivas causas.

Dada a relevância da pandemia de COVID-19, o CDC adicionou uma etapa extra em que a agência usa pessoas em vez de computadores para verificar as informações presentes nos atestados de óbito, antes de as adicionar formalmente à sua contagem. Embora o CDC tenha acelerado a execução desta tarefa desde março, ainda demora cerca de uma semana para registar formalmente uma morte por coronavírus, diz Kirk Bol, gestor do Programa de Estatísticas Vitais do Departamento de Saúde Pública e Meio Ambiente do Colorado.

“Somando tudo, pode demorar mais de um mês entre uma infeção e a morte.”

Este atraso burocrático ultrapassa os processos biológicos naturais da doença, diz Jennifer Nuzzo, epidemiologista do Centro Johns Hopkins para a Segurança na Saúde. Se alguém estiver infetado com o coronavírus hoje, geralmente só começa a apresentar sintomas dentro de quatro ou cinco dias, mas também pode demorar até duas semanas.

Uma análise do CDC constatou que as dificuldades respiratórias mais graves começam entre cinco a oito dias após o início dos sintomas, e a admissão nas unidades de cuidados intensivos acontece cerca de 10 a 12 dias depois. Na Califórnia e no estado de Washington, os pacientes com COVID-19 foram hospitalizados em média 12.7 dias antes de morrerem. Somando tudo, pode demorar mais de um mês entre uma infeção e a morte.

Jovens e inquietos
Para além disto, a idade pode desempenhar um papel no atraso da contabilização de mortes. Os jovens com menos de 35 anos estão cada vez mais a contrair o vírus, e estes indivíduos têm menos probabilidades de morrer do que os idosos. Jill Roberts, epidemiologista da Universidade do Sul da Flórida, diz que está preocupada não só com o número crescente de infeções nos jovens, mas também com o facto de estes poderem transmitir o vírus aos seus contactos mais velhos e vulneráveis.

Numa sondagem com 4042 participantes adultos, feita pelo CDC no dia 19 de junho, 43.1% das pessoas entre os 18 e os 29 anos disseram que se sentiriam seguras se as ordens de distanciamento social fossem suspensas, em comparação com 19.2% das pessoas com mais de 65 anos de idade. Roberts e Nuzzo também realçam que os trabalhadores da indústria hoteleira são normalmente mais jovens e, à medida que este setor reabre, os trabalhadores podem não se conseguir isolar.

“Temos de levar em consideração os mais jovens. São eles que têm mais mobilidade, e são eles que estão a propagar a doença”, diz Roberts.

Embora os jovens continuem a correr menos risco de morte por coronavírus, muitos exigem hospitalização num momento em que os hospitais já estão sobrecarregados com pessoas mais velhas. Em março, os adultos com menos de 50 anos representavam 25% de todas as hospitalizações nos EUA, mas estes valores aumentaram 10% desde o início de maio, quando a reabertura começou.

“Mas quanto mais pessoas precisam de camas hospitalares, mais difícil é oferecer cuidados de qualidade”, diz Nuzzo. “E todos os profissionais de saúde estão a  trabalhar há muito tempo sem parar.”

Portanto, o que tem vindo a acontecer recentemente nos hospitais pode potencialmente aumentar as taxas de mortalidade para todas as faixas etárias. O que isto significa, diz Scott, é que pode ser apenas uma questão de tempo até que a taxa de mortalidade comece a aumentar rapidamente.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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