Como os Cientistas Transformaram a Montanha Mais Alta do Mundo num Laboratório Climático

Uma equipa diversificada de especialistas enfrentou os elementos no Evereste para desvendar pistas sobre o aquecimento dramático do nosso planeta.

Monday, July 27, 2020,
Por Freddie Wilkinson
Como os Cientistas Transformaram a Montanha Mais Alta do Mundo num Laboratório Climático
Como os Cientistas Transformaram a Montanha Mais Alta do Mundo num Laboratório Climático
Durante a Expedição Perpetual Planet da National Geographic e da Rolex ao Evereste, uma equipa de cientistas e guias xerpa parte para recolher informações sobre alterações glaciares nos Himalaias. Ao extrair núcleos de gelo do glaciar mais alto do mundo, a equipa começa a descobrir detalhes sobre as alterações climáticas que até agora estavam escondidos neste gelo difícil de alcançar.

Esta reportagem foi patrocinada pela Rolex, numa parceria com a National Geographic Society destinada a esclarecer os desafios que os sistemas fundamentais de suporte da vida na Terra enfrentam, através da ciência, da exploração e da capacidade narrativa.
 

O final da primavera é geralmente o momento de avaliar a temporada anual de escalada do Monte Evereste, mas este ano, devido à COVID-19, a montanha esteve invulgarmente tranquila. O Nepal proibiu todas as expedições. A China proibiu a presença de montanhistas estrangeiros, mas permitiu aos cidadãos chineses escalarem do lado do Tibete, incluindo uma equipa de investigadores que tenta medir a altura da montanha após o sismo de 2015.

Mas enquanto a maior parte do mundo da escalada fez uma pausa ao Evereste, um grupo de cientistas de laboratórios espalhados pela Europa, EUA e Nepal trabalhou “remotamente” na montanha – analisando amostras de gelo, neve, água e sedimentos recolhidas na última primavera como parte da Expedição Perpetual Planet da National Geographic e da Rolex ao Evereste. O objetivo do projeto passa por transformar a montanha mais alta do mundo num laboratório climático gigante.

O cientista climático Paul Mayewski segura uma seção de um dos núcleos de gelo extraídos nas encostas superiores do Monte Evereste. Os núcleos foram transportados para os laboratórios da Universidade do Maine, nos EUA, onde algumas porções serão fundidas e analisadas à procura de pistas sobre as alterações no ambiente ao longo do tempo.

Fotografia de Becky Hale, National Geographic

Durante abril e maio do ano passado, uma equipa multidisciplinar de mais de 30 biólogos, glaciologistas, geólogos, meteorologistas e geógrafos trabalhou no flanco sul do Evereste, realizando trabalhos de campo na montanha e no Vale de Khumbu. “Acreditamos que a melhor forma de fazer ciência no Evereste não é apenas fazer um tipo de ciência, mas fazer vários tipos de ciência”, diz Paul Mayewski, da Universidade de Maine, líder da equipa científica, que viu a National Geographic Society fazer uma parceira com a Universidade Tribhuvan e o governo do Nepal.

Cada estudo individual promete oferecer uma imagem exclusiva do clima da montanha – passado, presente e futuro. Os núcleos de gelo e os sedimentos do lago irão fornecer um registo de como era o ambiente há milhares de anos. As amostras de neve e água revelam o que está a acontecer na montanha atualmente, incluindo o futuro dos glaciares, que servem como fontes de água cruciais para grandes populações a jusante. A equipa também instalou uma rede de estações meteorológicas automatizadas, que irão documentar as próximas tendências climáticas nos próximos anos.

O cientista climático Mariusz Potocki (à esquerda) usou uma broca especial para recolher um núcleo de amostra de gelo a 8 mil metros de altura, no Colo Sul do Evereste. Semelhante aos anéis de crescimento de uma árvore, cada camada de um núcleo de gelo contém um registo dos produtos químicos que estavam presentes na atmosfera quando a água foi congelada.

Fotografia de Dirk Collins, National Geographic

Uma das tarefas mais exigentes recaiu sobre o colega de Mayewski, Mariusz Potocki, que esperava perfurar núcleos de gelo em várias elevações da montanha, inclusive no Colo Sul (7905 metros) e no cume do Evereste (8848 metros). O trabalho exigia um sistema de perfuração especialmente modificado, alimentado por baterias, e uma equipa de xerpas para o guiar pela montanha e ajudar a transportar as pesadas secções de gelo. Depois, a equipa teve de tentar descobrir como manter os núcleos congelados durante a sua longa jornada de regresso ao laboratório da Universidade de Maine para análise.

Apesar de Potocki ter sido forçado a abandonar a sua tentativa de recolha de amostras no cume devido à presença de inúmeros alpinistas, conseguiu recolher um núcleo de gelo a uma altitude bastante elevada, exatamente por cima do Acampamento IV, 8020 metros acima do nível do mar – é a primeira vez que é recolhido gelo a esta altitude. “Este gelo é obviamente muito antigo... creio que tem muitas histórias para contar”, diz Potocki.

“O gelo não mente”, diz Mayewski. “A própria ideia de que a parte mais alta do planeta foi impactada pela atividade humana deve servir de alerta para todos.”

Os resultados dos vários estudos serão publicados em revistas especializadas durante os próximos meses. O documentário 'Expedição Evereste' emitido em junho no canal National Geographic descreveu os esforços dos cientistas para construir a estação meteorológica mais alta do mundo e recolher outros dados e amostras nas condições extremas do Evereste.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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