O Filme ‘Parque Jurássico’ Errou Quase Tudo Sobre Este Icónico Dinossauro

As descobertas de novos fósseis e as análises mais detalhadas feitas até agora do Dilophosaurus revelam a primeira imagem clara de como era realmente este dinossauro.

Friday, July 10, 2020,
Por John Pickrell
Esta reconstrução mostra um Dilophosaurus wetherilli adulto a cuidar de uma ninhada de ovos.

Esta reconstrução mostra um Dilophosaurus wetherilli adulto a cuidar de uma ninhada de ovos.

Fotografia de BRIAN ENGH (ILUSTRAÇÃO)

No filme Parque Jurássico de 1993, uma das personagens encontra o seu destino final durante um confronto com um Dilophosaurus. Da mesma altura que um humano, o curioso dinossauro transforma-se numa verdadeira ameaça quando abre um folho enorme no pescoço, começa a sibilar e cospe veneno para os olhos da sua vítima. A cena cimentou o Dilophosaurus como um ícone da cultura pop – mas o verdadeiro predador jurássico era bastante diferente daquele que aparece no filme.

“Eu costumo dizer que o Dilophosaurus é o dinossauro mais bem-mal conhecido”, diz Adam Marsh, paleontologista que trabalha no Parque Nacional da Floresta Petrificada do Arizona, que liderou uma descrição abrangente da espécie que foi publicada no dia 7 de julho na Journal of Paleontology.

Apesar de ter sido descoberta há 80 anos, a espécie permanecia pouco compreendida.

Esta fotografia mostra uma escavação feita em 1942 por cientistas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, quando um espécime de Dilophosaurus foi descoberto.

Fotografia de Universidade da Califórnia, Museu de Paleontologia

Agora, as novas análises incluem dois espécimes fósseis encontrados no Arizona que ainda não tinham sido estudados, oferecendo a primeira imagem clara de como era o Dilophosaurus em vida. Em vez de um pequeno dinossauro que dependia de truques como um folho no pescoço e veneno para subjugar as suas presas, o Dilophosaurus era um predador poderoso e um dos maiores animais terrestres na América do Norte, onde viveu durante o início do período Jurássico, há cerca de 201 a 174 milhões de anos.

“Era muito maior do que as pessoas poderiam pensar depois de verem o Parque Jurássico”, diz Marsh.


Parte fóssil, parte gesso
Jesse Williams, um homem navajo, encontrou o primeiro espécime de Dilophosaurus em 1940, nas terras da Nação Navajo, perto de Tuba City, no Arizona. Em 1942, Williams mostrou os fósseis aos paleontólogos da Universidade da Califórnia, em Berkeley, incluindo Samuel Welles, que descreveu o espécime como uma nova espécie em 1954.

A equipa que reconstruiu o dinossauro para a exposição usou versões de gesso para preencher os ossos que faltavam no fóssil. “O dinossauro daí resultante foi feito intencionalmente para se parecer com [o predador] Allosaurus... porque estava a ser montado numa parede e eles queriam que parecesse completo”, diz Marsh. Mas o estudo de 1954, e uma investigação adicional publicada por Welles em 1984, não descreviam quais eram os ossos fósseis reais e quais eram as partes de gesso.

As investigações subsequentes, baseadas nos artigos iniciais, deram origem a uma confusão sobre se o Dilophosaurus estava mais relacionado com os carnívoros do tamanho de perus do Triássico, como o Coelophysis, ou com as espécies maiores do Jurássico tardio, como Ceratosaurus e o Allosaurus.

“Depois de 1984, não se sabia realmente se eles estavam a falar sobre uma anatomia real ou sobre algo descrito a partir do gesso”, diz Marsh. Sem ninguém que perdesse tempo e investisse recursos em estudos adicionais, a imagem da anatomia do animal manteve-se difusa durante décadas.

“Todos dependiam daquela monografia para fins de investigação, mas havia alguns problemas com a forma como aquele trabalho foi organizado”, diz Peter Makovicky, paleontologista da Universidade do Minnesota que não participou neste novo estudo.

Redescobrir o Dilophosaurus
Para esclarecer as coisas, Marsh passou sete anos a estudar cada um dos três esqueletos mais completos do Dilophosaurus, que pertencem à Nação Navajo e estão armazenados na Universidade da Califórnia, em Berkeley. E também examinou dois espécimes não estudados que foram encontrados em terras Navajo há duas décadas pelo paleontologista da Universidade do Texas, Timothy Rowe, coautor da nova investigação e orientador de doutoramento de Marsh.

As primeiras investigações sobre o Dilophosaurus sugeriam que este animal tinha maxilares fracos e uma crista frágil – algo que Marsh acredita poder ter influenciado a representação deste dinossauro como uma criatura esbelta que cuspia veneno no romance Parque Jurássico de 1990 escrito por Michael Crichton. O veneno e o folho no pescoço que foram adicionados no filme não têm por base as evidências fósseis.

Os novos fósseis incluem uma perna traseira completa e várias partes do esqueleto que os espécimes anteriores não tinham, incluindo a caixa torácica e a pélvis, e os ossos mostram que o Dilophosaurus tinha maxilares fortes que estavam equipados com músculos poderosos. Com sete metros de comprimento – cerca de metade do tamanho de um T. rex adulto – e cerca de 400 quilos, o Dilophosaurus teria conseguido facilmente capturar presas grandes que viviam nos mesmos ambientes, como o Sarahsaurus, um parente dos saurópodes de pescoço comprido do tamanho de um SUV.

Wann Langston Jr., na Universidade da Califórnia, em Berkeley, supervisiona a reconstrução do primeiro esqueleto de Dilophosaurus no início dos anos 50.

Fotografia de Texas Vertebrate Paleontology Collections

“O Dilophosaurus foi claramente construído para ser um grande macro-predador”, diz Marsh. “Era um animal de grande porte construído para comer outros animais.”

“O trabalho é uma descrição muito bem-vinda sobre este animal”, diz Martín Ezcurra, paleontologista que estuda os primeiros dinossauros carnívoros no Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, em Buenos Aires. “É muito interessante que os autores tenham aumentado o número de espécimes... dizendo-nos que o Dilophosaurus era mais comum nos ecossistemas do início do Jurássico do que pensávamos.”

Crista charmosa
Uma das características que o filme Parque Jurássico acertou é a crista dupla ao longo do topo do focinho da criatura. A crista, provavelmente um recurso estético, pode ter sido colorida, e pode ter sido usada para intimidar rivais ou atrair parceiros, semelhante ao efeito produzido pelos chifres de um veado ou pela cauda de um pavão.

“É um animal muito impressionante. Tinha aquelas duas cristas ósseas ao longo do topo do crânio, basicamente desde as narinas até à órbita ocular”, diz Peter Makovicky.

Marsh diz que, apesar de ser constituída por ossos finos, esta crista, única na sua construção, estava reforçada com bolsas de ar em forma de favo de mel que a fortaleciam e protegiam. Marsh e Rowe também descobriram que as bolsas de ar continuam através do cérebro e de outros ossos do esqueleto, sugerindo como é que os antepassados do Dilophosaurus desenvolveram esqueletos mais leves. Isto permitiu que os animais alcançassem tamanhos maiores sem serem prejudicados pelo próprio peso, tornando-se nos primeiros grandes dinossauros carnívoros da América do Norte.

As aberturas na crista – que se uniam às passagens nasais do animal – podiam até ter estado ligadas a sacos de ar insufláveis, possivelmente semelhantes aos das aves fragatas da atualidade. No entanto, esta teoria precisa de ser testada por outros paleontologistas com os dados anatómicos publicados recentemente, diz Marsh.

O Dilophosaurus, o Cryolophosaurus e os dinossauros com crista da China e da Argentina apareceram todos no início do Jurássico, representando “um aumento repentino no tamanho do corpo através da fronteira Triássico-Jurássica, que coincide com o desaparecimento dos grandes crocodilianos”, diz Makovicky. “O nicho dos predadores de topo estava disponível, e estes dinossauros com crista parecem ter ficado rapidamente com esse lugar.”

Apesar do seu sucesso inicial, os dinossauros com crista não viveram muito tempo em termos evolutivos – algumas dezenas de milhões de anos – antes de serem substituídos por espécies como o Ceratosaurus e o Allosaurus. As cristas na cabeça são menos comuns nos dinossauros posteriores, talvez porque estes animais começaram a desenvolver penas, algo que seria mais eficaz visualmente e menos dispendioso biologicamente do que as camadas ósseas.

“De muitas maneiras, o Dilophosaurus é uma espécie fundamental para a nossa compreensão dos terópodes do início do Jurássico”, diz Makovicky. “Mas a literatura sobre este tema está desatualizada há muito tempo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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