A Antártida É o Último Continente Sem COVID-19 – os Cientistas Querem que Assim se Mantenha

O estudo da Antártida é fundamental para combater as alterações climáticas, mas a maioria dos cientistas não vai poder viajar para o continente durante a próxima temporada.

Por Di Minardi
Publicado 19/08/2020, 16:20 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Uma pessoa sentada perto de uma colónia de pinguins-gentoo, Pygoscelis papua, junto a uma antiga cabana ...

Uma pessoa sentada perto de uma colónia de pinguins-gentoo, Pygoscelis papua, junto a uma antiga cabana de pesquisa.

Fotografia de Ronan Donovan, Nat Geo Image Collection

A movimentada época de verão na Antártida começa em outubro e dura até fevereiro, quando milhares de cientistas de dezenas de países se costumam reunir nas remotas estações de pesquisa do continente. Quarenta bases permanentes pontilham esta paisagem desolada, um número que quase duplica quando as instalações exclusivas de verão retomam as operações. Contudo, este ano, viajar até este reino científico gelado acarreta sérias preocupações: a Antártida é o único continente sem casos de COVID-19.

Os cuidados médicos nas estações de pesquisa são limitados e a vida num dormitório facilita a propagação de doenças, mesmo na melhor das condições. Durante uma pandemia, a redução do número de cientistas no continente mitiga o risco de um surto, mas também interrompe investigações urgentes.

Os cientistas que trabalham na Antártida observam estrelas com telescópios, procuram partículas fundamentais e estudam alguns dos animais mais notáveis do nosso planeta. Este continente remoto também é crucial para compreender as alterações que abrangem todo o globo. Os cientistas climáticos estudam bolhas de ar antigas que estão presas no gelo para compreender a história da Terra e monitorizam o degelo da camada e o aquecimento do Oceano Antártico para prever o possível futuro do nosso mundo.


Mas nesta temporada de campo, muitos dos cientistas terão de fazer o seu trabalho longe do continente, contando com sensores remotos e com os enormes volumes de dados e amostras recolhidas em anos anteriores.

“É angustiante”, diz Nancy Bertler, diretora da Plataforma Antártica de Ciência da Nova Zelândia. “Temos apenas alguns anos para fazer algumas mudanças muito significativas e evitar as piores consequências das alterações climáticas, e não nos podemos dar ao luxo de esperar um ano.”

Manter a COVID-19 longe do gelo
O ambiente antártico é tão extremo que Dirk Welsford, cientista-chefe do Programa Antártico Australiano, o compara ao espaço sideral, e com razão. A Estação Espacial Internacional orbita a pouco mais de 350 quilómetros acima da Terra, enquanto que a base mais remota na Antártida – as instalações de pesquisa Concordia de França e Itália – está a cerca de 560 quilómetros do seu vizinho mais próximo e a mais de 965 quilómetros da fonte mais próxima de mantimentos na costa.

A grande maioria das bases na Antártida está localizada na vasta linha costeira, e não no interior, como acontece com Concordia, mas mesmo estas bases são difíceis de alcançar. Os cientistas viajam em aviões e navios que sofrem atrasos com tanta frequência, devido ao clima extremo, que o Programa Antártico dos Estados Unidos tem uma secção no seu guia de participantes intitulada “Seja paciente”.

Este ano, ser paciente por si só não vai ser suficiente. “Para todas as nações que trabalham na Antártida, o objetivo principal é manter o vírus longe do gelo”, diz Christine Wesche, coordenadora de logística do programa Antártico da Alemanha. Mas saber exatamente como é que se consegue atingir esse objetivo permanece uma questão em aberto, dado que ainda há muitas incógnitas.

O Conselho de Gestores de Programas Antárticos Nacionais (COMNAP) e os seus 30 membros estão a coordenar uma enorme redução de pessoal. Todos os programas irão reduzir as suas equipas em diferentes níveis – a Austrália e a Alemanha em 50% e a Nova Zelândia em 66%, por exemplo. Os Estados Unidos não divulgaram a sua redução de pessoal, mas os comunicados à imprensa dizem que o número de pessoas que podem enviar em segurança é “limitado”.

Ao reduzir o tamanho das equipas, os programas podem garantir melhor um regime restrito de quarentena e de testes, uma vez que os testes podem ser dispendiosos e a obtenção de resultados é morosa. Limitar o número de funcionários nas estações também ajuda a garantir que, se o vírus conseguir chegar ao continente – devido a um teste defeituoso, por exemplo – há menos pessoas expostas.

Há algumas cidades no hemisfério sul que são pontos de passagem cruciais para se chegar à Antártida. A equipa alemã costuma voar pela Cidade do Cabo, na África do Sul, um país com mais de meio milhão de casos de Coronavírus. A incerteza em torno dos voos internacionais significa que a equipa alemã pode ter de viajar no seu navio de abastecimento, o Polarstern.

Os Estados Unidos vão continuar a voar por Christchurch, na Nova Zelândia, onde completam regularmente a formação pré-partida e se equipam com material para enfrentar um clima frio, antes de seguirem para McMurdo e para a Base Scott com a equipa da Nova Zelândia. Os dois países estão a trabalhar numa estratégia de quarentena e de testes para manter a COVID-19 fora de Christchurch quando os EUA passarem pela cidade.

Assim que as equipas chegarem à Antártida, a vida será aparentemente igual ao que era antes da pandemia. Os programas podem ter de testar os recém-chegados ou exigir que se distanciem socialmente, mas os cientistas não irão manter estas práticas durante os meses de vida em comunidade. Todos no continente serão considerados livres do vírus, a menos que exibam sintomas; nesse caso, serão isolados, testados e, se acusarem positivo, retirados do continente. Um surto de COVID seria ainda mais perigoso durante o inverno, quando as fortes tempestades polares tornam os voos de evacuação médica quase impossíveis de realizar em segurança.

Manter as estações de pesquisa em funcionamento
Os programas de investigação na Antártida contam com algumas interrupções todos os anos devido às tempestades, ao gelo marinho e a problemas mecânicos em lugares remotos, mas nunca foram cancelados projetos com esta escala anteriormente. A maioria das colaborações internacionais, sejam novas experiências ou trabalhos de campo, como a marcação de pinguins e a recolha de amostras, foram interrompidas. No entanto, os gestores de programa dizem que não podem cancelar as suas temporadas por completo.

A Antártida é o continente mais frio, seco e ventoso da Terra. O explorador polar Sir Douglas Mawson denominou a Antártida de “país amaldiçoado”, enquanto que Robert Falcon Scott, o segundo homem a chegar ao Polo Sul, escreveu a famosa frase: “Meu Deus! Este é um lugar terrível”. Cem anos depois das suas expedições, pouco mudou.

Portanto, as instalações de pesquisa precisam da intervenção humana para manter as estações de água e esgotos em funcionamento e para evitar perigos como fugas de combustível e incêndios. A manutenção está programada para o clima mais ameno do verão austral, que é a única altura em que os postos avançados podem ser reabastecidos para o inverno. Deixar as bases sem pessoal – ou pior, evacuar forçosamente as bases – seria mais complicado do que numa temporada normal.

Com algumas exceções para alguns projetos, incluindo a viagem científica marinha da Austrália para estudar krill nas águas da Antártida Oriental, os programas antárticos nacionais estão a limitar os seus trabalhos às atividades operacionais essenciais e a manter a recolha de dados a longo prazo em funcionamento.

Na Base Scott da Nova Zelândia, os dados mais antigos datam de 1957, ano em que a instalação foi estabelecida. Estes conjuntos de dados das estações meteorológicas, das pesquisas ecológicas e dos ancoradouros na água ajudam os cientistas a rastrear a variabilidade do clima na Antártida. A ciência pode ser um jogo lento de alterações incrementais, e estas medições com mais de 60 anos permitem que os investigadores identifiquem tendências a longo prazo nos dados.

“Alguns destes registos nunca foram interrompidos”, diz Bertler, “por isso, não queremos ser a geração que os vai interromper”.

Temporada seguinte
Este ano vai servir de ensaio para testar as medidas preventivas dos programas da Antártida. Se conseguirem manter as suas equipas isoladas, saudáveis e seguras durante esta temporada, podem escalar para expedições maiores e com mais cientistas no próximo ano – mesmo que a COVID-19 continue a ser uma ameaça.

“Espero que as coisas estejam diferentes na próxima temporada”, disse Sarah Williamson, CEO do instituto Antártida da Nova Zelândia. “Vamos ter como prioridade uma temporada completa, com o máximo de empreendimentos científicos que conseguirmos, e estar preparados para alterar os nossos planos, assim como o fizemos este ano.”

Por mais importante que a pesquisa do clima na Antártida seja para a saúde do planeta, a saúde dos cientistas e da equipa está em primeiro lugar, acrescenta Wesche. “O meu objetivo principal é enviar as pessoas com saúde e trazê-las de volta com saúde.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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