Anthony Fauci 'Duvida Seriamente' que a Vacina da Rússia Esteja Pronta Para Uso Generalizado

Formular uma vacina contra a COVID-19 não é o mesmo que provar que uma vacina é segura e eficaz, disse à National Geographic o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA.

Publicado 18/08/2020, 15:41 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Um técnico de laboratório remove um conjunto de vacinas da criopreservação, no dia 6 de agosto ...

Um técnico de laboratório remove um conjunto de vacinas da criopreservação, no dia 6 de agosto de 2020, durante a produção de uma vacina contra a COVID-19. Esta vacina foi desenvolvida pelo Centro Nacional de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya e pelo Fundo de Investimento Direto Russo, no Centro Nacional de Pesquisa Gamaleya em Moscovo, na Rússia.

Fotografia de Andrey Rudakov, Bloomberg via Getty Images

Formular uma vacina não é o mesmo que provar que uma vacina é segura e eficaz. É esta a opinião de Anthony Fauci sobre as notícias vindas de Moscovo de que a Rússia aprovou e está pronta para comercializar uma vacina contra o coronavírus.

Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID), fez estes comentários durante uma entrevista para o Stopping Pandemics, um evento exclusivo que foi emitido pela National Geographic.

“Espero que os russos tenham realmente provado que a vacina é segura e eficaz”, disse Fauci a Deborah Roberts, correspondente da ABC News que está a moderar o evento. “Duvido seriamente que eles tenham feito isso.”


A Rússia deu a entender durante todo o verão que estava a progredir rapidamente na sua vacina candidata, que se chama Sputnik V – em homenagem ao satélite inovador lançado pelo país em 1960. Em maio, o diretor do Instituto de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia de Gamaleya em Moscovo, onde a vacina está a ser desenvolvida, disse que ele e outros investigadores tinham começado a testar o medicamento neles próprios, antes do início da primeira fase de testes em humanos, com 76 indivíduos, que começou um mês depois.

Mas Gamaleya ainda não publicou nenhum dos resultados dos testes feitos em humanos, que normalmente envolvem três fases para verificar a segurança, eficácia e dosagem de um medicamento. O instituto também não divulgou quaisquer investigações pré-clínicas que envolvam modelos animais ou experiências com células criadas em placas de Petri.

Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, usa uma máscara facial da equipa de basebol Washington Nationals durante uma audiência do subcomité da Câmara em Washington DC, no dia 31 de julho de 2020.

Fotografia de Kevin Dietsch, UPI, Bloomberg via Getty Images

Apesar desta escassez de informações públicas, o presidente russo Vladimir Putin diz que o órgão regulador de saúde do país está pronto para aprovar a vacina para uso generalizado. “Devemos estar gratos àqueles que deram este primeiro passo muito importante, muito importante para a Rússia e para o mundo inteiro”, disse Putin através de um comunicado divulgado pelo Kremlin.

Embora a vacina tenha sido aprovada, outras autoridades russas dizem que os testes da fase três ainda estão a decorrer. Kirill Dmitriev, chefe-executivo do Fundo de Investimento Direto Russo que está a financiar a vacina, disse à Associated Press (AP) que estes testes avançados estavam programados para começar no dia 12 de agosto em vários países, incluindo na Rússia, na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos, nas Filipinas e, possivelmente, no Brasil. Mas a AP não conseguiu encontrar documentação nos registos do Ministério da Saúde da Rússia a citar que estes testes tinham sido aprovados.

Os testes da fase três são cruciais para validar se uma vacina está pronta para uma distribuição generalizada. Esta etapa final do ensaio é projetada para identificar a dosagem mais segura para o público em geral – uma deliberação que só pode ser feita através da administração da vacina a um grupo diversificado de milhares de pessoas. Este estágio de desenvolvimento da vacina também determina o grau de ação da mesma.

De acordo com um estudo de 2018 do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, uma em cada três vacinas passa pelos testes da fase três – estabelecendo uma dosagem recomendada e respeitando os padrões estabelecidos de segurança e eficácia. A Food and Drug Administration dos EUA declarou que só aprova uma vacina contra o coronavírus se esta tiver pelo menos 50% de eficácia.

“Temos meia dúzia de vacinas ou mais”, disse Fauci a Roberts. “Portanto, se quiséssemos arriscar e colocar em perigo muitas pessoas, ou dar-lhes algo que não funciona, poderíamos começar a fazer isso na próxima semana, isto se quiséssemos. Mas não é assim que funciona.”

Durante a entrevista, o diretor do NIAID também falou sobre as suas expectativas em relação à pandemia para o outono e ofereceu conselhos sobre como as escolas podem reabrir em segurança. Em geral, Fauci não está satisfeito com a trajetória dos EUA, dado que o país já ultrapassou os 5 milhões de casos e mais de 160 mil mortes. E também está desapontado com as críticas dirigidas a si e a outros investigadores de saúde pública. Fauci, que se tornou diretor do NIAID em 1984, diz que as reações que enfrenta hoje superam de longe qualquer coisa vivida por ele durante os dias politicamente agitados da pandemia de VIH no início dos anos 1980.

Em resposta às suas orientações sobre a COVID-19, as pessoas estão a ameaçar a vida de Fauci e “assediam terrivelmente a minha esposa e os meus filhos com telefonemas”, disse Fauci a Roberts. “Parece inconcebível que... quando estamos a tentar promover os princípios de saúde pública para salvar a vida das pessoas e para as manter saudáveis, que exista tanta divisão no país e que isso seja interpretado de uma forma tão distante da nossa própria maneira de pensar, chegando a um ponto em que alguém quer realmente ameaçar uma pessoa.”

O evento Stopping Pandemics também contou com a presença do Mayor de Washington DC, Muriel Bowser, da editora-chefe da National Geographic, Susan Goldberg, do escritor científico Richard Conniff e da correspondente médica da ABC News, Jen Ashton.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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