“Arca de Noé Microbiana" Tem Apoio do Instituto Gulbenkian de Ciência

A intenção de criar uma “Arca de Noé microbiana” servirá para preservar a diversidade de micróbios e garantir a saúde de gerações futuras. O Instituto Gulbenkian de Ciência junta-se à equipa de peritos científicos.

Thursday, August 20, 2020,
Por National Geographic
Tratamento de amostras de bactérias para estudo.

Tratamento de amostras de bactérias para estudo.

Fotografia de Márcia Lessa - IGC 2020

O projeto de criar uma “Arca de Noé microbiana” surge pela iniciativa da Universidade de Rutgers e conta com a colaboração dos peritos científicos Karina Xavier e Luís Teixeira, do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC).

Com o intuito de preservar a diversidade de micróbios existente, e de garantir a saúde das gerações futuras, surge um projeto piloto que inclui uma infraestrutura de armazenamento de micróbios na Noruega ou na Suíça, assente numa forte rede de colaboração na recolha de amostras de todo o mundo.

Em 2019, ocorreu uma ação de formação organizada pelo IGC para a comunidade científica na cidade de Lisboa. Neste momento, foi formalizado o apoio ao estudo de viabilidade, preparado por uma empresa independente na Suíça, a EvalueScience.


O projeto foi apoiado por instituições e universidades sem fins lucrativos, que realizam pesquisas no campo do microbioma humano. O consórcio de financiamento inclui a Fundação Gebert Rüf (Suíça), a Fundação Seerave (Jersey), a Fundação Calouste Gulbenkian, a Universidade Rutgers (EUA), a Universidade de Kiel (Alemanha) e o CIFAR (Canadá).

Os investigadores do IGC vão dinamizar a colaboração para a recolha de amostras junto de Países de Língua Oficial Portuguesa, assumindo um papel fundamental no projeto, uma vez que se trata de um cofre global e diversificado de micróbios.

'Microbiota Vault' e o papel do Instituto Gulbenkian de Ciência
O microbioma humano tem triliões de organismos microscópicos que vivem no nosso corpo e que contribuem, de diversas formas, para a nossa saúde. O 'Microbiota Vault', nome do projeto agora viabilizado, vai permitir preservar os micróbios que possam ser armazenados, replicados e reintroduzidos, de forma a proteger a saúde das gerações do futuro.

Para esta “Arca de Noé microbiana”, o IGC vai ter um papel determinante no que respeita à contribuição com o conhecimento científico que produz nesta área de investigação. A sua função será potenciar as redes que tem vindo a construir nos últimos anos, no âmbito do Programa de Pós-Graduação Ciência para o Desenvolvimento (PGCD). Este programa, centrado na formação científica de investigadores oriundos dos PALOP e de Timor-Leste, tem também por objetivo melhorar a qualidade da investigação científica e do ensino das ciências nestes países.

À semelhança do 'Microbiota Vault', existe a maior coleção de diversidade de sementes do mundo, o Cofre-forte de Sementes Global de Svalbard, na Noruega. Esta “Arca de Noé do reino vegetal” conta já com um milhão de depósitos. Chegou agora a vez dos micróbios.

A importância de um cofre-forte microbiano
Os estudos já desenvolvidos têm vindo a avaliar o impacto do ambiente, da alimentação e do consumo de antibióticos na perda massiva de diversidade do microbioma humano e os efeitos negativos que representam para a saúde humana.

Vários estudos indicam que a diversidade do microbioma nos humanos é extremamente importante para uma boa nutrição, para a maturação do sistema imunitário e para a defesa contra organismos patogénicos.

Observa-se, nas populações das sociedades modernas, a perda de diversidade microbiana e, tal facto, está associado a uma maior suscetibilidade a vários tipos de doenças. Esta diminuição relaciona-se com uma alimentação mais processada e menos diversa.

Por outro lado, as populações latino-americanas ou africanas, mais remotas e com práticas tradicionais, demonstram uma maior diversidade no seu microbioma, devido às suas dietas naturais ricas em fibras vegetais. Revela-se, portanto, de extrema importância a criação desta “Arca de Noé microbiana”, de forma a preservar os micróbios enquanto estes ainda existem.

Colaboração mundial para o cofre de micróbios da humanidade
Para além da recolha de amostras, de forma segura e centralizada, a iniciativa 'Microbiota Vault' envolve uma rede de coleções regionais de países com povos tradicionais, que demonstram possuir uma elevada diversidade.

Para o sucesso da “Arca de Noé microbiana” espera-se um esforço internacional de constante colaboração. Desde os pequenos repositórios de micróbios, às coleções de amostras de todo o mundo.

Para além disto, expressa-se como necessário um financiamento significativo, para tornar possível reunir e armazenar os micróbios num repositório mundial. Espera-se que se iniciem angariações de fundos para o projeto.

A coleção ficará armazenada nessa “Arca de Noé microbiana”, mas contemplará coleções locais nos sítios onde forem realizadas recolhas. As amostras da coleção ficam congeladas e passíveis de serem reativadas sempre que for pretendido, ficando disponíveis para os cientistas que as queiram estudar.

O projeto é liderado por Maria Gloria Dominguez Bello, da Universidade de Rutgers, Martin Blaser, da CIFAR, e por Rob Knight e Jack Gilbert, da Universidade da Califórnia, em San Diego.

No IGC, Karina Xavier e Luís Teixeira têm estudado as implicações da perda do microbioma e procurado identificar espécies específicas que possam explicar os efeitos diretos do microbioma no hospedeiro. Realizam também cursos sobre o papel do microbioma na simbiose entre micróbios e o seu hospedeiro.

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