Teoria do Espinossauro ‘Monstro do Rio’ Fortalecida por Novos Dentes Fósseis

Os fósseis encontrados recentemente no deserto marroquino sugerem que este enorme predador passava grande parte do tempo na água.

Wednesday, September 30, 2020,
Por Michael Greshko
As recentes e inéditas descobertas feitas em Marrocos fornecem evidências de que o espinossauro passava grande ...

As recentes e inéditas descobertas feitas em Marrocos fornecem evidências de que o espinossauro passava grande parte da sua vida dentro de água. Agora, um novo estudo descobriu que também há uma abundância de dentes destes dinossauros em sedimentos de rios antigos – sugerindo uma vida passada a nadar e até mesmo a caçar nos rios pré-históricos.

Fotografia de JASON TREAT, NG STAFF; MESA SCHUMACHER. ARTE: DAVIDE BONADONNA NIZAR IBRAHIM, UNIVERSIDADE DE DETROIT MERCY

Há mais de 95 milhões de anos, um poderoso sistema fluvial atravessava o que hoje se conhece por Saara marroquino e abrigava um dos monstros fluviais mais invulgares conhecidos pela ciência, o dinossauro predador espinossauro. Em adulto, este animal de sete toneladas e 15 metros de comprimento conseguia ficar mais comprido do que um Tyrannosaurus rex adulto, e tinha um focinho alongado semelhante ao de um crocodilo com fileiras de dentes cónicos afiados.

Agora, os paleontólogos que perscrutam estes sedimentos antigos encontraram muitos dentes cónicos em dois sítios arqueológicos no sudeste de Marrocos. Num dos leitos com ossos, os dentes de espinossauro superam os dos outros dinossauros em cerca de 150 para 1. Como estas rochas se formaram a partir de sedimentos de rios, a descoberta implica que o espinossauro perdia os seus dentes dentro de água com muito mais frequência do que os outros dinossauros que viviam na região – reforçando ainda mais a teoria de que este animal era um predador aquático singular.

“Com tamanha abundância de dentes de espinossauro, é altamente provável que este animal vivesse maioritariamente dentro dos rios, em vez de nas suas margens”, diz em comunicado de imprensa Thomas Beevor, autor do estudo e estudante de pós-graduação na Universidade de Portsmouth, no Reino Unido.

O novo estudo – publicado recentemente na revista Cretaceous Research – baseia-se em trabalhos feitos anteriormente que argumentam que o espinossauro era um ávido nadador. Um estudo químico feito em 2010 encontrou evidências de que o espinossauro e os seus parentes passavam grande parte dos seus dias na água, como acontece com os crocodilos ou hipopótamos da atualidade. E os estudos feitos sobre um esqueleto de espinossauro encontrado em Marrocos, publicados este ano e em 2014, encontraram evidências de características observadas noutros animais aquáticos, incluindo uma cauda em forma de remo que pode ter ajudado a impulsionar o dinossauro dentro de água.

“Quando estudamos os ossos, é muito difícil compreender como é que estes animais interagiam realmente com o seu ecossistema”, diz Matteo Fabbri, que não participou neste novo estudo. Matteo Fabbri, paleontólogo e candidato a doutoramento na Universidade de Yale, é coautor dos estudos esqueléticos de 2014 e 2020. “Este estudo é importante porque está a focar-se no próprio ecossistema.”

Conto de uma cauda
O espinossauro é um dos dinossauros mais invulgares alguma vez encontrados: um predador que era mais comprido, do focinho à cauda, do que um T. rex adulto, e que tinha uma espécie de vela com quase dois metros de altura nas costas.

Os primeiros fósseis conhecidos deste animal, descobertos na década de 1910 no Egito, foram destruídos durante um bombardeamento na Segunda Guerra Mundial, tornando extraordinariamente difícil para os paleontólogos dar sentido à anatomia da criatura.

Desde então, os paleontólogos encontraram espécies irmãs do espinossauro em todo o mundo, incluindo na Ásia, na América do Sul, na Europa e noutras partes de África. Os crânios destes animais são parecidos com os dos crocodilos e também sugerem uma capacidade semelhante à de um crocodilo – abocanhar presas, como peixes, que se movem rapidamente. Para além disso, uma espécie irmã do espinossauro encontrada em 1983 fossilizou com escamas de peixe na sua caixa torácica – evidência que sugeria, mas que não provava, que estes predadores comiam peixes, para além de pterossauros e dinossauros mais pequenos.

Nas décadas que se seguiram a estas descobertas, o grupo dos chamados espinossaurídeos destacou-se pela sua anatomia incomum que “imitava um crocodilo”. Mas por mais estranhos que estes espinossaurídeos sejam enquanto grupo, o misterioso espinossauro permanece numa classe à parte.

Em 2014, investigadores liderados pelo Explorador da National Geographic Nizar Ibrahim, coautor do novo estudo, anunciaram que um sítio arqueológico em Marrocos preservava um esqueleto surpreendentemente completo de espinossauro. Os novos ossos revelaram que os membros posteriores do animal eram excecionalmente curtos em relação aos anteriores e, como acontece com os hipopótamos e pinguins da atualidade, as paredes dos ossos também eram notavelmente grossas e densas. Estas adaptações apontaram para um estilo de vida semiaquático.

Em abril deste ano, as evidências sobre o “monstro do rio” espinossauro aumentaram quando a equipa de Nizar anunciou que tinha encontrado a primeira cauda fossilizada de um espinossauro. Ao contrário das caudas de praticamente todos os outros dinossauros relacionados, a cauda do espinossauro parecia um remo. Os testes robóticos preliminares sugerem que esta estrutura de cauda teria impulsionado o espinossauro através da água de forma mais eficaz do que as caudas de dinossauros terrestres relacionados.

Tesouro de dentes
Para examinar melhor a ligação que o espinossauro tinha com a água, Nizar e os seus colegas escavaram dois locais em outubro e novembro de 2019, no sudeste de Marrocos, perto da vila de Tarda. As rochas nesta região pertencem à formação Kem Kem, uma escarpa de 240 quilómetros de comprimento que contém rochas formadas num antigo sistema fluvial de há 95 milhões a 100 milhões de anos.

Embora os investigadores que trabalham nos leitos de Kem Kem mantenham a esperança de encontrar esqueletos completos, os fósseis perfeitos são extraordinariamente raros nesta região, uma vez que os rios da antiguidade eram lugares turbulentos. Quase todos os fósseis de Kem Kem são fragmentos de ossos isolados, ou dentes, que os dinossauros perderam e substituíram ao longo das suas vidas, como acontece com os crocodilos atualmente.

Animação de Um Espinossauro a Nadar
Uma animação mostra como o espinossauro pode ter usado a sua cauda semelhante a um remo para a propulsão na água. Modelagem: Davide Bonadonna e Fabio Manucci; Animação e texturas: Fabio Manucci; Design de cor: Davide Bonadonna, DI.MA. Dino Makers; Supervisão científica: Simone Maganuco, Marco Auditore.

Ambos os locais também foram minerados pelos habitantes da região que procuram fósseis para vender a exportadores, vendedores a retalho, colecionadores e investigadores, um comércio artesanal que emprega milhares de pessoas no sudeste de Marrocos.

O primeiro local já tinha sido abandonado quando os investigadores chegaram, mas ainda continha enormes pedaços de arenito repletos de dentes e ossos, o suficiente para os investigadores recuperarem 926 fósseis em 2019. O segundo local, a menos de um quilómetro de distância, ainda era uma zona de mineração ativa. Para obter uma amostra abrangente dos fósseis, David Martill, coautor do estudo e paleontólogo da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, comprou 1261 fósseis encontrados por um habitante neste local.

Na primeira zona de escavações, quase metade de todos os dentes fósseis recuperados – e um sexto do total de fósseis no local – eram dentes de espinossauro. E no segundo local, mais de dois em cada cinco dentes fósseis recuperados pertenciam ao espinossauro. No total, os dentes de espinossauro constituíam quase um terço dos fósseis de vertebrados no segundo local, uma descoberta extremamente incomum. “Não conhecemos outro local onde uma imensidão de dentes de dinossauro tenha sido encontrada nas rochas”, disse David Martill através de comunicado.

Os outros “dentes” mais comuns nos dois locais não eram tecnicamente dentes; eram escamas parecidas com dentes que cobriam o focinho do antigo peixe-serra Onchopristis. Os dentes de outros dinossauros, para além do espinossauro, são muito escassos.

Nadador imponente
Os investigadores reconhecem uma alternativa para as suas noções de um espinossauro nadador: em vez de nadador completo, o espinossauro pode ter abocanhado peixes nas margens dos rios e em zonas de pouca profundidade, como fazem as garças da atualidade, perdendo assim os dentes que caíam na água. No entanto, os cientistas salientam que as aves pernaltas tendem a ter membros posteriores desproporcionalmente longos, enquanto que o espinossauro de Marrocos tem membros anormalmente curtos.

“Não só estas proporções dos membros posteriores são inconsistentes com as de um animal pernalta, como também sugerem que o espinossauro estava mais mal adaptado para um modo de vida terrestre do que quase qualquer outro terópode não aviário”, escrevem os autores do estudo. Em vez disso, os investigadores alegam que a explicação mais viável é a de que o espinossauro nadava ativamente nos rios de Kem Kem, perdendo assim os dentes enquanto nadava e caçava na água.

As rochas de Kem Kem irão certamente revelar mais fósseis – e estes dentes estão longe de ser a última palavra sobre o intrigante espinossauro. Mas, por enquanto, os dados correspondem a uma imagem provocadora de um passado distante: um passado onde um enorme dinossauro parecido com um crocodilo nadava através de rios poderosos onde agora fica o Saara.

Matteo Fabbri diz que as descobertas deste novo estudo são muito bem-vindas: são mais evidências consistentes com a ideia que se forma há décadas de que o espinossauro era um monstro do rio que vivia dentro de água. “A ciência está sempre a corrigir-se”, diz Matteo. “Mas também é bom ter notícias positivas de que tínhamos razão!”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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