A Gronelândia Pode Perder Mais Gelo Neste Século do que Perdeu nos Últimos 12 Mil Anos

O ritmo do degelo nas últimas duas décadas é comparável ao dos picos mais elevados da história geológica recente – e ainda está a acelerar.

Tuesday, October 6, 2020,
Por Madeleine Stone
A velocidade com que a camada de gelo da Gronelândia está a derreter é demasiado rápida ...

A velocidade com que a camada de gelo da Gronelândia está a derreter é demasiado rápida para fazer parte de um ciclo natural, dizem os cientistas. Se toda a camada desaparecesse, acrescentaria mais de sete metros aos níveis globais do mar.

Fotografia de MARTIN ZWICK, REDA&CO/UNIVERSAL IMAGES GROUP/GETTY IMAGES

De acordo com um novo estudo alarmante, a Gronelândia está a caminho de perder mais gelo neste século do que em qualquer outro ponto do Holoceno, o período de 12 mil anos em que a civilização humana floresceu.

O estudo, publicado no dia 30 de setembro na revista Nature, oferece as evidências mais recentes de que a camada de gelo mais a norte da Terra, que contém água congelada suficiente para elevar o nível do mar global em 7.4 metros, entrou num período de rápido declínio e pode derreter por completo se a humanidade continuar a queimar combustíveis fósseis aos níveis atuais. A investigação também põe fim à teoria de que a recente deterioração da Gronelândia pode fazer parte de um ciclo natural, ao mostrar o quão rápido o degelo atual é em comparação com os períodos mais altos e baixos do nosso passado geológico.

“Agora estamos confiantes de que este século será único no contexto da variabilidade natural dos últimos 12 mil anos”, diz Jason Briner, autor principal do estudo e glaciologista na Universidade de Buffalo.

Alinhar o passado e o futuro
Nos últimos 40 anos, o rápido aquecimento do Ártico fez com que a Gronelândia perdesse gelo a um ritmo acelerado. Mas, para colocar esta tendência num contexto de longo prazo, os cientistas precisam de registos do aumento e declínio da camada de gelo ao longo de milhares de anos.

Os investigadores já tinham tentado reconstruir as alterações no tamanho da camada de gelo da Gronelândia ao longo do Holoceno usando os isótopos de oxigénio-18 presente nos núcleos de gelo, que dão uma indicação das temperaturas do passado. Mas a maioria destas análises extrapolou as condições climáticas de toda a Gronelândia a partir de um único núcleo de gelo, dando origem a muitas incertezas na reconstrução. E nenhum estudo tinha alinhado os modelos de reconstrução da história da Gronelândia com projeções que levassem em consideração a quantidade de gelo que pode derreter durante este século.

“Os investigadores modelaram o passado da camada de gelo da Gronelândia e modelaram o futuro”, diz Jason Briner. “Na verdade, nunca houve realmente um estudo que usasse o mesmo modelo, os mesmos métodos e alinhasse tudo desde o passado até ao futuro.”

Jason e os seus colegas preencheram agora essa lacuna no tempo e, durante esse processo, reconstruíram a história do degelo da Gronelândia de uma forma mais sofisticada. Os investigadores combinaram um modelo da camada de gelo com dados de temperatura e queda de neve de uma série de amostras de gelo recolhidas na Gronelândia. Depois aplicaram estas informações ao longo da camada de gelo usando um modelo climático. Os investigadores executaram os seus modelos para trás e para a frente no tempo, desde há 12 mil anos até ao ano 2100, usando cenários com emissões baixas e altas de carbono para discernir os possíveis futuros para a camada de gelo.

Os resultados mostram que o colapso atual da Gronelândia está ao nível dos eventos mais extremos que alguma vez aconteceram durante o Holoceno.

Entre há 10 mil e 7 mil anos atrás, um evento de aquecimento conhecido por máximo térmico do Holoceno fez com que o manto de gelo da Gronelândia recuasse dramaticamente. Durante um século particularmente extremo, derreteram cerca de 6 mil milhões de toneladas de gelo – comparável com os 6100 milhões de toneladas de gelo que a Gronelândia pode perder neste século se a taxa média de degelo de 2000 e 2018 for extrapolada para o futuro.

Mas 6100 milhões de toneladas é uma estimativa conservadora sobre a quantidade de gelo que a Gronelândia está a caminho de perder: à medida que o carbono se continua a acumular na atmosfera, o planeta continua a aquecer e as taxas médias de degelo devem continuar a acelerar. Também é provável que a Gronelândia passe por anos de degelo mais extremo, como aconteceu em 2012 e 2019, quando vagas de calor juntamente com as alterações climáticas conspiraram para desencadear enormes perdas de gelo durante o verão.

Num cenário otimista, onde a humanidade reduz rapidamente as emissões globais de carbono, os modelos de Jason Briner mostram que a Gronelândia pode perder cerca de 9700 milhões de toneladas de gelo neste século. Mas se continuarmos a queimar combustíveis fósseis indiscriminadamente, a Gronelândia pode perder cerca de 21 mil milhões de toneladas de gelo neste século, uma taxa de degelo cerca de quatro vezes superior à das estimativas mais elevadas do modelo para os últimos 12 mil anos.

Este último cenário, denominado RPC 8.5, é considerado pessimista do ponto de vista das emissões, mas é o trajeto que a Gronelândia está a seguir mais de perto com base nas recentes perdas de gelo. As descobertas do RPC 8.5 também são consistentes com outro estudo recente que concluiu que a Gronelândia pode ficar sem gelo em apenas 1000 anos.

Ted Scambos, glaciologista do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo dos EUA, que não esteve envolvido no estudo, diz que este trabalho “é uma excelente fusão entre registos, medições atuais e modelagem que estende o trabalho para projeções futuras.”

“O artigo também é uma resposta para aqueles que descartam os efeitos contínuos das alterações climáticas com a teoria de que ‘a Terra sempre mudou’– porque a resposta é: ‘mas não a este ritmo’”, diz Ted.

Limitações e próximos passos
Os resultados do estudo também revelam uma advertência importante: os autores restringiram os modelos ao sudoeste da Gronelândia porque a região tem uma física relativamente simples, com a maior parte do degelo a ser impulsionado pelas temperaturas do ar, em vez de pelo aquecimento do oceano e pelos glaciares que se partem e desfazem no mar. A partir desta região, os investigadores extrapolaram o cenário para toda a Gronelândia.

As perdas de gelo apresentadas nos modelos são semelhantes aos dados observacionais dos últimos 40 anos, fortalecendo as descobertas. Ainda assim, para uma próxima etapa, a equipa gostaria de aplicar os modelos a toda a Gronelândia e incorporar os processos adicionais que derretem e quebram o gelo.

“O sudoeste da Gronelândia é a região que apresentou um dos maiores aumentos no degelo nos últimos anos, pelo que é um bom indicador para como o resto da camada de gelo pode mudar no geral”, diz Ruth Mottram, glaciologista do Instituto Meteorológico Dinamarquês que não participou no estudo.

Ruth salienta que os autores também usaram moreias glaciares – campos de detritos rochosos que ficam para trás quando um glaciar recua – para ver como os seus modelos de aumento e declínio de gelo correspondiam às evidências do mundo real. “A combinação entre os resultados de campo e os do modelo ajuda-nos a ter mais confiança nos resultados do modelo para o clima do passado e, esperamos nós, mais confiança nas projeções sobre o futuro.”

Mas Ellyn Enderlin, glaciologista da Universidade Estadual de Boise, acredita que uma extrapolação feita a partir da região sudoeste da Gronelândia para toda a camada de gelo é “um pouco exagerada”.

“Embora os autores refiram que as tendências na perda de massa atual sejam semelhantes para esta região e para a camada de gelo na sua totalidade, é possível que esta correlação não se consiga sustentar ao longo de períodos de tempo muito mais longos no passado, quando a geometria da camada de gelo era diferente da atual”, diz Ellyn Enderlin.

Numa camada de gelo maior, com mais glaciares que acabam no mar, diz Ellyn, “o degelo teria sido fortemente controlado pelas instabilidades inerentes a esses sistemas, que podem não seguir os mesmos padrões de perda de massa modelados no estudo para a porção sudoeste da camada de gelo.”

Embora haja trabalho a fazer para descortinar os detalhes mais subtis do passado da Gronelândia e respetivo futuro, Ted Scambos diz que, neste momento, a comunidade científica acumulou evidências suficientes para dizer com confiança que a Gronelândia – tal como o clima da Terra em geral – será dramaticamente alterada, a não ser que a humanidade mude de rumo.

“Em termos de clima, carregámos no acelerador e metemos um tijolo em cima”, diz Ted. “E isso só vai parar quando mudarmos.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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