Quer Reduzir os Riscos de COVID-19? Precisa de Dormir Mais.

Dormir é uma forma simples de fortalecer o sistema imunitário contra constipações, gripe e outras infeções respiratórias.

Tuesday, October 6, 2020,
Por Emily Sohn
Até que uma vacina esteja disponível, a solução para evitar a COVID-19 é reduzir, tanto quanto ...

Até que uma vacina esteja disponível, a solução para evitar a COVID-19 é reduzir, tanto quanto possível, o risco de infeção. Dormir melhor pode ajudar.

Fotografia de Magnus Wennman, Nat Geo Image Collection

As observações sobre o sono e os seus benefícios para a saúde datam de há pelo menos 2000 anos.

Em 350 a.C, o ensaio Do Sono e da Insónia de Aristóteles sugeria que a digestão produzia vapores quentes que nos faziam adormecer, e que as pessoas com febre sentiam algo semelhante, levando-as a adormecer para ajudar no processo de cura.

Embora a teoria dos vapores não estivesse correta, as décadas de evidências científicas mostram que o sono é uma forma sólida de fortalecer o sistema imunitário contra constipações, gripe e infeções respiratórias. Estes trabalhos sugerem que o sono pode ser uma ferramenta poderosa para combater a pandemia – e não se limita a reduzir a probabilidade ou gravidade de uma infeção. O sono pode, em última análise, aumentar a eficácia das vacinas contra a COVID-19, quando eventualmente estiverem disponíveis, e vários estudos em desenvolvimento estão a avaliar as defesas que ganhamos contra o coronavírus quando deitamos a cabeça na almofada.

“Temos muitas evidências de que, se dormirmos as horas adequadas de sono, podemos definitivamente ajudar a prevenir ou a combater qualquer tipo de infeção”, diz Monika Haack, especialista em psiconeuroimunologia da Escola de Medicina de Harvard, em Boston. “Quantas mortes poderemos evitar se as pessoas dormirem bem, ou quão menos severa é a gravidade dos sintomas? Creio que isso precisa de mais investigações.”

Até que uma vacina esteja disponível, a solução para evitar a COVID-19 passa por reduzir, tanto quanto possível, o risco de infeção. À medida que surgem novos dados sobre o sono e esta doença, os cientistas esperam conseguir elucidar melhor o complexo funcionamento do sistema imunitário, ao mesmo tempo que fornecem diretrizes mais claras sobre como se pode usar o sono como arma para evitar a pandemia.

A ligação sono-infeção
Os humanos não são os únicos animais que beneficiam do sono. Os estudos feitos no final do século XIX mostraram que, quando cães e ratos eram completamente privados de sono, os animais morriam em poucas semanas. Para as pessoas, a privação crónica de sono também tem consequências a longo prazo, aumentando os riscos de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, demência e depressão. Algumas destas condições crónicas estão entre os fatores de risco que aumentam a suscetibilidade à COVID-19.

As pessoas, quando estão cansadas, também tendem a correr mais riscos, diz o tenente-coronel Vincent Capaldi, chefe do Departamento de Biologia Comportamental do Centro Militar de Pesquisa em Psiquiatria e Neurociência do Instituto Walter Reed em Silver Spring, Maryland. A perda de sono é particularmente comum entre os soldados, e o Instituto Walter Reed tem um centro de investigação que se dedica a compreender as consequências de se ficar acordado durante muito tempo para a nossa capacidade de pensar e funcionar.

“Quando somos privados de sono, expomo-nos a um risco cada vez maior de cometer um erro”, diz o coronel Capaldi. Para o público em geral, isto pode manifestar-se sob a forma de desleixo ou esquecimento no uso de máscara, adicionando uma tensão extra sobre o sistema imunitário.

Cada vez há mais evidências que também mostram que a privação de sono afeta a capacidade de uma pessoa na luta contra uma doença depois de infetada. Vários estudos dizem que as pessoas com distúrbios do sono, pessoas que dormem menos de cinco ou seis horas por noite e pessoas com baixos níveis de eficiência de sono (a percentagem de tempo gasto a dormitar durante a noite) têm taxas mais elevadas de doenças respiratórias, constipações e doenças relacionadas.

Por outro lado, dormir mais de 10 horas por noite tem sido associado a taxas mais elevadas de doenças, mas os especialistas dizem que dormir um pouco mais provavelmente não faz com que as pessoas adoeçam. Em vez disso, há condições de saúde subjacentes que incluem depressão e que podem provocar este sono excessivo. Condições como diabetes ou apneia do sono também podem dar origem a uma má qualidade do sono, levando a noites mais longas em que se dorme menos em geral.

Alguns estudos conseguiram até rastrear as ligações entre sono e doença, em vez de observarem simplesmente se o sono estava associado a infeções. Investigadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco, e da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, recrutaram 164 adultos saudáveis para usarem dispositivos de pesquisa que monitorizaram os seus hábitos de sono durante uma semana. Depois, em laboratório, os investigadores injetaram gotas de rinovírus (a constipação comum) no nariz dos voluntários antes de os colocarem de quarentena num hotel durante cinco dias.

O vírus tinha a mesma probabilidade de invadir o corpo e de se replicar independentemente das horas de sono que as pessoas dormiam, informou a equipa em 2015. Mas as que dormiam menos de seis horas tinham probabilidades 4.5 vezes mais elevadas de desenvolver sintomas de constipação, em comparação com as pessoas que dormiam mais de sete horas por noite. Os rinovírus são bons corolários para os coronavírus; por um lado, as respostas imunitárias a ambos parecem ser semelhantes, diz Aric Prather, coautor do estudo e psiconeuroimunologista da Universidade da Califórnia, em São Francisco.

O sono e as consequências relacionadas de saúde também estão interligados com os tipos de desigualdades sociais que a pandemia revelou. Noutro estudo, publicado em 2017, Aric Prather e colegas reuniram dados sobre três estudos de rinovírus com 732 pessoas e encontraram uma relação semelhante, com uma diferença.

Apenas as pessoas que se classificaram numa posição baixa em termos de estatuto socioeconómico (com base em questões sobre salário, educação e emprego) mostraram mais probabilidades de apanhar uma constipação depois da privação de sono. Estas disparidades refletem-se nas taxas de infeção do vírus SARS-CoV-2. Parte do problema deve-se ao facto de nem todas as pessoas conseguirem dormir o suficiente, e as pessoas com salários mais baixos costumam ter mais do que um emprego ou trabalhos em turnos noturnos. (Millennials e Geração Z estão a propagar coronavírus – mas não em festas ou bares.)

“É realmente uma questão de justiça social que gira em torno das pessoas conseguirem dormir o que precisam”, diz Aric. “Todas estas coisas levam a perturbações do sono e revelam disparidades numa série de resultados, e provavelmente com a COVID acontece o mesmo.”

Sono e sistema imunitário
Os estudos que manipulam o sono – privando as pessoas de sono ou aumentando o tempo que dormem – estão a começar a desvendar as razões pelas quais existe uma relação tão complexa entre o sono e o sistema imunitário.

“Sabemos que precisamos de dormir para combater infeções”, diz Monika Haack, de Harvard. “Mas para saber como é que isto funciona exatamente, acho que ainda há muito trabalho para fazer.”

Num estudo feito em 2019, Monika e colegas listaram mais de três dezenas de formas pelas quais vários intervenientes no sistema imunitário variam consoante as mudanças no sono. Por exemplo, as células T fazem parte do sistema imunitário e costumam ser descritas como se fossem soldados que lutam contra infeções. Durante o sono, de acordo com estudos de investigadores alemães, as células T normalmente movem-se para fora do sangue e provavelmente para os nódulos linfáticos, onde vigiam os patógenos invasores, diz Monika. Mas basta uma noite de privação de sono, de acordo com os estudos, para manter as células T a circular no sangue, dificultando a sua aprendizagem e resposta aos vírus invasores. Quando o corpo é privado de sono, as células T também se tornam menos capazes de interagir com as células infetadas por vírus, reduzindo o seu poder na luta contra uma infeção.

As citocinas, uma categoria de moléculas inflamatórias relacionadas com a pandemia, também são um importante foco de pesquisa sobre sono e imunidade. As citocinas pró-inflamatórias normalmente ajudam a organizar uma resposta imunitária às infeções, fazendo com que outras células ajudem nesta luta, diz Sheldon Cohen, psiconeuroimunologista da Universidade Carnegie Mellon. Mas a produção excessiva destas moléculas resulta numa tempestade de citocinas, uma reação exagerada que está associada aos casos mais graves e letais de COVID-19. Nos estudos sobre constipações e gripe, as pessoas infetadas que tinham problemas de sono apresentavam sintomas mais graves, provavelmente porque os níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias interferem com as células T e outras células do sistema imunitário.

As citocinas não funcionam isoladamente, fazem parte da criação de um equilíbrio no sistema imunitário entre fatores que promovem e neutralizam uma inflamação. Aprender como é que estes processos influenciam doenças como a COVID-19 ainda é um trabalho em desenvolvimento.

Sono, vacinas e COVID-19
Como os investigadores não podem eticamente expor as pessoas à maioria das doenças, incluindo a COVID-19, a investigação de vacinas ofereceu outra forma de sondar as ligações entre o sono e o sistema imunitário. Até agora, este trabalho apresenta um caso convincente de que o sono dá um impulso real ao sistema imunitário. Isto verifica-se sobretudo nos anticorpos, que geralmente são proteínas de longa duração que o corpo produz em resposta a patógenos (e vacinas). Os anticorpos ajudam o corpo a lembrar-se destas infeções.

Num dos primeiros estudos deste género, feito em 2002, um grupo de pessoas dormiu cerca de oito horas durante quatro noites, antes de tomar a vacina contra a gripe e, de seguida, dormiu o mesmo número de horas nas duas noites que se seguiram à vacinação. Dez dias depois, os investigadores informaram que os níveis de anticorpos da gripe nos participantes eram mais de duas vezes superiores em comparação com as pessoas de outro grupo que dormiram apenas quatro horas por noite durante o mesmo período. A privação de sono também pode reduzir a resposta dos anticorpos às vacinas contra a hepatite A, hepatite B e gripe suína H1N1. E alguns estudos revelam que, para isto acontecer, basta uma noite sem dormir.

Estas vantagens para os anticorpos têm resultados de saúde mensuráveis, mesmo a longo prazo. Um dos estudos relacionou um bom sono, antes da vacinação contra a hepatite B, com uma probabilidade mais pequena de se contrair a doença durante os seis meses seguintes.

Dado o enorme interesse em desenvolver uma vacina contra a COVID-19 que acabe com a pandemia, saber que um comportamento simples pode tornar as imunizações mais eficazes seria uma boa notícia. No Instituto Walter Reed, os investigadores estão a desenvolver uma vacina contra COVID-19 e, quando o seu ensaio clínico de fase um começar neste inverno, o coronel Capaldi diz que planeiam colocar um grupo de participantes a dormir até 10 horas por noite durante várias noites antes de receberem a vacina. Se dormir der origem a uma resposta melhor à vacina, em comparação com as pessoas que sofrem de privação crónica de sono, os trabalhos futuros podem avaliar se o facto de se dormir mais com a ajuda de medicamentos pode oferecer os mesmos benefícios.

“Isto pode ter uma relevância muito importante para as políticas de vacinação.”

por ARIC PRATHER, UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, SÃO FRANCISCO

Compreender a ligação com o sono também pode ajudar a direcionar a distribuição da vacina pelos profissionais de saúde na linha da frente, sobretudo aqueles que trabalham 80 horas por semana durante a pandemia. Estes profissionais podem precisar de descansar antes da vacinação para aumentar a eficácia de uma dose. “Isto pode ter uma relevância muito importante para as políticas de vacinação”, diz Aric. “Qualquer coisa que possamos fazer para tentar melhorar uma resposta parece realmente importante.”

Investigadores do Instituto Walter Reed, da Universidade da Califórnia e de outras instituições estão agora a analisar montanhas de dados para fazer a ligação entre o sono e os riscos de COVID-19. Estes estudos ainda não foram publicados, mas Monika Haack fez a revisão de várias investigações e os resultados parecem promissores.

O sono está longe de ser o único fator que afeta a suscetibilidade a doenças, diz Sheldon Cohen, da Universidade Carnegie Melon. De acordo com uma análise publicada por Sheldon em 2020, o exercício físico, os apoios sociais, os níveis de stress, o tabagismo, o consumo de álcool e outros fatores também explicam porque é que apenas um subconjunto de pessoas adoece quando exposto a qualquer vírus.

Ainda assim, os especialistas aconselham que, para quem o pode fazer, o sono deve ser uma prioridade dada a sua influência no risco de infeções. Seguir um cronograma consistente de sono é uma forma eficaz para se conseguir um sono de melhor qualidade, diz Aric Prather – assim como relaxar antes de dormir, diminuir a intensidade das luzes, desligar os ecrãs e fazer uma pausa na assimilação de notícias. Sheldon recomenda que as pessoas durmam pelo menos sete horas por noite para aumentar as suas probabilidades de se manterem saudáveis durante a pandemia.

“Mostrámos repetidamente que as pessoas que dormiam uma quantidade insuficiente de horas tinham mais probabilidades de adoecer quando as expusemos a um vírus”, diz Sheldon. “Isto desempenha claramente um papel na saúde e no bem-estar.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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