Descoberta de Mulher Caçadora Pré-histórica Subverte Suposições de Género

Os investigadores assumiam que geralmente só os homens pré-históricos é que caçavam – mas e se as evidências que refutam essa ideia estivessem à vista de todos durante décadas?

Monday, November 9, 2020
Por Maya Wei-Haas
Esta ilustração mostra como seria caçar nas montanhas dos Andes, na América do Sul, há 9000 ...

Esta ilustração mostra como seria caçar nas montanhas dos Andes, na América do Sul, há 9000 anos. Com base nas ferramentas encontradas no enterro desta mulher, os arqueólogos acreditam que a caçadora pode ter usado roupas de couro tingidas com ocre vermelho.

Fotografia de MATTHEW VERDOLIVO, UC DAVIS IET ACADEMIC TECHNOLOGY SERVICES (ILUSTRAÇÃO)

Randall Haas, arqueólogo da Universidade da Califórnia, em Davis, lembra-se do momento em que a sua equipa de investigadores se reuniu em 2018 em torno do túmulo escavado de um indivíduo que foi sepultado nas montanhas dos Andes, no Peru, há cerca de 9000 anos. Juntamente com os ossos do que parecia ser um humano adulto estava um impressionante – e extenso – conjunto de ferramentas de pedra que um caçador da antiguidade precisaria para derrubar um animal de grande porte, ferramentas que seriam usadas desde o processo de caça até à preparação de peles.

“Ele deve ter sido um ótimo caçador, uma pessoa muito importante na sociedade” –foi o que Randall e a sua equipa pensaram naquele momento.

Mas uma análise mais aprofundada revelou uma surpresa: os restos mortais encontrados ao lado das ferramentas eram de uma mulher. Para além disso, esta caçadora da antiguidade provavelmente não era assim tão invulgar, de acordo com um estudo publicado no dia 4 de novembro na Science Advances. A descoberta da equipa de Randall foi acompanhada por uma revisão de estudos anteriores sobre enterros da mesma época nas Américas – e revelou que entre 30% e 50% dos caçadores de animais de grande porte podem ter sido mulheres.

Este novo estudo é a última reviravolta num debate que se arrasta há décadas sobre o papel de género entre as primeiras sociedades de caçadores-coletores. A suposição comum era a de que os homens pré-históricos caçavam enquanto as mulheres cuidavam dos filhos. Mas, durante décadas, alguns estudiosos argumentaram que esses papéis “tradicionais” – documentados por antropólogos que estudam grupos de caçadores-coletores no mundo inteiro desde o século XIX – não se estendiam necessariamente ao nosso passado mais distante.

Embora o novo estudo apresente fortes argumentos de que este indivíduo no Peru era uma mulher que caçava, existem muitas outras evidências que estão há muito tempo à vista de todos, diz Pamela Geller, arqueóloga da Universidade de Miami que não integrou a equipa do estudo.

O conjunto de ferramentas encontradas no enterro inclui pontas de projéteis; rochas pesadas que provavelmente eram usadas para quebrar ossos ou remover peles; lascas afiadas de pedra para raspar e cortar; e nódulos de ocre vermelho usados para preservar peles.

Fotografia de RANDY HAAS, UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA EM DAVIS

“Os dados estão lá”, diz Pamela. “Depende apenas da forma como os investigadores os interpretam.”

Ferramentas de quem?
Quando os arqueólogos escavaram a sepultura, encontraram uma coleção variada de 24 ferramentas de pedra. Entre estas ferramentas estavam pontas de projétil para derrubar um grande mamífero; rochas pesadas que provavelmente eram usadas para quebrar ossos ou remover peles; pequenos pedaços arredondados de pedra para raspar gordura das peles; minúsculas lascas de pedra com pontas muito afiadas que podem ter sido usadas para cortar carne; e nódulos de ocre vermelho que podem ter sido usados para preservar as peles. Espalhados pelo local estavam fragmentos de ossos de animais, incluindo ossos de antigos parentes de lamas e veados.

Nas discussões iniciais sobre este conjunto de ferramentas, os investigadores presumiram que o seu proprietário era do sexo masculino, talvez uma figura proeminente na sociedade, ou até o chefe de um grupo. “Sou tão culpado quanto qualquer pessoa”, diz Randall, que trabalha na região desde 2008. “Achei que, baseado na minha compreensão do mundo, aquilo fazia sentido”. Contudo, de regresso ao laboratório, uma inspeção minuciosa aos ossos sugeriu a fisiologia de uma mulher. Para confirmar, os investigadores analisaram uma proteína que forma o esmalte dos dentes e que está ligada ao sexo.

É importante salientar que a equipa não conseguia saber a identidade de género do indivíduo, mas apenas o sexo biológico (que, tal como o género, nem sempre existe em binário). Por outras palavras, não conseguiam determinar se este indivíduo viveu a sua vida há 9000 anos de uma forma que o identificaria dentro da sua sociedade como uma mulher.

Suposições desafiadoras
A descoberta de 2018 representa um desafio para os binários de género que geralmente se associam aos nossos antepassados primordiais: os homens agiam como caçadores, as mulheres agiam como coletoras. Esta suposição vem de estudos sobre caçadores-coletores onde os homens são mais frequentemente responsáveis pela caça, e as mulheres são geralmente responsáveis por cuidar das crianças, diz Kim Hill, da Universidade Estadual do Arizona, especialista em antropologia evolutiva humana que não participou no estudo. “Não podemos simplesmente parar de perseguir um veado para amamentar um bebé que está a chorar”, diz Kim por email.

No entanto, o que se pode inferir atualmente sobre os caçadores-coletores tem os seus limites. Pamela Geller diz que, durante décadas, alguns arqueólogos têm argumentado que a visão simples de homens caçadores e mulheres coletoras é na verdade uma simplificação exagerada. “Salvo raras exceções, os investigadores que estudam grupos de caçadores-coletores – independentemente do continente onde trabalham – presumem que a divisão sexual do trabalho era universal e rígida. E como isto é algo do senso comum, os investigadores têm dificuldade em explicar porque é que indivíduos com corpos femininos também têm os marcadores esqueléticos de caça ou as ferramentas de caça nas suas sepulturas.”

“Antigamente, quando os investigadores encontravam sinais desta discrepância”, diz Pamela, “geralmente não diziam nada, como se ignorar as evidências as fizesse desaparecer.”

A caça provavelmente exigia o maior número possível de adultos fisicamente aptos para aumentar a segurança e eficácia – independentemente do seu sexo biológico. Quando já não era necessário amamentar as crianças, as mães podiam ficar disponíveis para ajudar nas grandes caçadas, diz Kathleen Sterling, arqueóloga da Universidade de Binghamton, que não participou no estudo. Mas mesmo com bebés, era possível caçar com a ajuda de cuidados da comunidade.

O significado dos bens funerários
Estimulada pela descoberta de 2018, a equipa de Randall Haas investigou relatórios sobre escavações anteriores de enterros de caçadores-coletores nas Américas. Muitos destes estudos descobriram uma presença semelhante de ferramentas de pedra para caçar em sepulturas de fêmeas biológicas, mas os casos individuais não são propriamente claros. Em alguns casos, o sexo não é definitivo. Noutros, o contexto conturbado não permite determinar se as ferramentas de pedra e os restos mortais foram enterrados ao mesmo tempo. E há ainda outras situações em que os poucos projéteis encontrados nas sepulturas podem ter sido armas do crime enterradas com as vítimas.

Mas quando as equipas de Randall fizeram uma revisão individual dos casos, um trabalho integrado num conjunto de dados maior, descobriram que em 27 dos 429 enterros com indivíduos onde se conhecia o sexo, de pessoas que foram enterradas com ferramentas de caça, 11 eram mulheres – incluindo os restos mortais agora identificados – e 16 eram homens. As inúmeras incertezas (como o contexto indeterminado e a identificação do sexo) estão presentes em enterros tanto de homens como de mulheres, diz Randall. Portanto, mesmo quando se excluem os casos de maior incerteza, a abundância de enterros com ferramentas de caça entre homens e mulheres permanece semelhante.

“Se os homens fossem [os únicos] a caçar, estes padrões não seriam de todo o que esperaríamos encontrar numa população”, diz Randall.

Kim Hill, da Universidade Estadual do Arizona, diz que ainda não está completamente convencido de que a mulher enterrada há 9000 anos era na verdade uma caçadora. Kim alerta que os bens funerários, incluindo as ferramentas de caça, podem ter sido lá colocados devido a crenças simbólicas ou religiosas.

Será que as ferramentas recém-descobertas pertenciam a esta pessoa sepultada? Kathleen Sterling contesta esta questão. “Normalmente não fazemos esta pergunta quando encontramos conjuntos de ferramentas enterrados com homens”, diz Kathleen. “Só quando isso coloca as nossas ideias de género em questão é que colocamos estas perguntas.”

Pamela Geller acrescenta: “Há muita ginástica mental envolvida na tentativa de explicar estas coisas”.

O conjunto de ferramentas encontrado no enterro de 9000 anos era bastante diversificado, incluindo instrumentos preciosos, como pontas de projéteis que eram difíceis de fazer, bem como ferramentas mais mundanas, como lascas de pedra que podiam facilmente ser criadas. Isto sugere que as ferramentas não eram algum tipo de oferenda; em vez disso, sugere que os objetos eram usados pelo indivíduo em vida, afirma Randall. Nesta questão, os números também são relevantes, com uma abundância de mulheres que foram encontradas enterradas com ferramentas nas Américas, acrescenta Kathleen Sterling.

Para Pamela Geller, este debate tem implicações que ainda hoje são importantes. “Atualmente, há tanta disparidade de género que, se presumíssemos que existe algo que nos predispõe biologicamente, então conseguiríamos justificar esta disparidade de género. Para mim, isso é perigoso e completamente infundado.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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