Caçadores de Alienígenas Detetam Sinal de Rádio Misterioso Vindo de Uma Estrela Próxima

É quase certo que não se trata de um telegrama extraterrestre. Mas estas ondas de rádio, que parecem vir das vizinhanças de Proxima Centauri, podem ajudar os astrónomos a refinar as suas técnicas de procura.

Publicado 28/12/2020, 15:12 WET
O radiotelescópio Parkes em Nova Gales do Sul, na Austrália, gerido pela Organização de Pesquisa Científica ...

O radiotelescópio Parkes em Nova Gales do Sul, na Austrália, gerido pela Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth (CSIRO), detetou recentemente um sinal de rádio inexplicável vindo da direção de Proxima Centauri, a estrela mais próxima do sol.

Fotografia de A. Cherney, CSIRO

Astrónomos que procuram sinais de vida para além da Terra descobriram algo estranho. Um sinal de rádio ainda por explicar que parece vir da direção da estrela mais próxima do sol – uma pequena estrela vermelha chamada Proxima Centauri que fica a cerca de 4.2 anos-luz de distância. Para aumentar o entusiasmo dos astrónomos, há pelo menos dois planetas que orbitam esta estrela, um dos quais pode ser temperado e rochoso como a Terra.

O projeto Breakthrough Listen, que durante uma década vai procurar por transmissões alienígenas nos milhões de estrelas mais próximas, estava a usar o Observatório Parkes da Austrália para estudar Proxima Centauri quando a equipa detetou um sinal conspícuo, sinal que foi apelidado de BLC-1. Estas ondas de rádio foram captadas em observações feitas entre abril e maio de 2019.

“É normal que, de vez em quando, encontremos algo estranho, mas isso é interessante porque é algo que nos leva a pensar sobre as etapas seguintes”, diz Sofia Sheikh, estudante de pós-graduação na Universidade Estadual da Pensilvânia e membro da equipa Breakthrough que lidera a análise do sinal.

Embora Sofia e outros astrónomos suspeitem que este sinal tenha realmente origem humana, o BLC-1 é a deteção mais estimulante que o Breakthrough fez até agora na sua busca por inteligência extraterrestre, processo designado em inglês pela sigla SETI. A equipa está a preparar dois artigos que descrevem o sinal e uma análise de acompanhamento que ainda não está concluída. (Houve uma fuga de informação sobre esta deteção que chegou ao The Guardian antes de a investigação estar pronta para publicação.)

Enquanto os investigadores continuam a analisar o sinal – e os especialistas alertam que muito provavelmente existe uma explicação terrestre comum para o mesmo – a simples sugestão, mesmo que remota, de vida para além da Terra deixa as pessoas entusiasmadas.

“Fala-se muito sobre o sensacionalismo em torno dos trabalhos SETI”, diz Andrew Siemion, investigador principal da Breakthrough Listen. “O motivo pelo qual estamos tão entusiasmados com isto, e as razões pelas quais dedicamos as nossas carreiras a estas investigações, é o mesmo motivo pelo qual o público fica tão entusiasmado com estas coisas. São alienígenas! É incrível!”

Seis décadas de busca por extraterrestres

Os cientistas perscrutam os céus à procura de sinais de rádio que podem ter origem artificial há 60 anos – começando com o Projeto Ozma, uma pesquisa realizada em 1960 pelo meu pai, Frank Drake.

Ao contrário das ondas de rádio que o cosmos produz naturalmente, espera-se que estes sussurros alienígenas se pareçam muito com as transmissões que os humanos usam para comunicar. Estes sinais cobririam uma faixa muito estreita de frequências de rádio. E também teriam uma “deriva” característica indicando que a fonte se está a mover em direção ou para longe da Terra – uma pista de que a fonte de rádio vem de um objeto cósmico distante, como um planeta a orbitar uma estrela.

Proxima Centauri, a nossa vizinha estelar mais próxima, vista pelo Telescópio Espacial Hubble.

Fotografia de ESA / HUBBLE & NASA

“Aparentemente, só a tecnologia humana é que produz sinais como este”, diz Sofia Sheikh. “O nosso WiFi, as nossas antenas de telemóveis, o nosso sistema de GPS, o nosso rádio por satélite – tudo isso é muito parecido com os sinais que estamos a procurar, o que torna muito difícil determinar se algo vem do espaço ou se é tecnologia gerada por humanos.”

Ao longo de décadas, os astrónomos detetaram vários sinais candidatos. Alguns vinham de fontes astronómicas até então desconhecidas, como pulsares, os cadáveres de estrelas mortas em rápida rotação que emitem ondas de rádio para o cosmos. As primeiras rajadas de rádio de que há conhecimento – breves explosões de ondas de rádio que ainda são um tanto ou quanto misteriosas – começaram inicialmente por poder parecer sinais artificiais. Os sinais chamados perytons, que são rajadas menos energéticas de emissões rádio, também pareciam suspeitos até que os cientistas determinaram a sua origem: um forno micro-ondas.

O BLC-1 pode vir de um objeto que não está a emitir conforme o esperado: Um satélite que ainda não foi identificado, um avião nos céus, um transmissor no solo perto da linha de visão do telescópio, ou talvez algo ainda mais mundano como um aparelho eletrónico com defeito num prédio nas proximidades ou um carro a passar.

“Todos as nossas experiências SETI são conduzidas num mar repleto de interferências. Existem toneladas de sinais”, diz Andrew Siemion. “Tudo se resume à capacidade de distinguirmos entre uma ‘tecnoassinautra’ muito distante e a nossa própria tecnologia.”

E também temos os sinais que os astrónomos ainda não conseguiram atribuir a uma fonte natural, como o famoso sinal “WOW!” captado em 1977 pelo Observatório Rádio da Universidade Estadual de Ohio, um sinal coloquialmente conhecido por Big Ear. Esta barragem extremamente brilhante de ondas de rádio parecia inicialmente ser uma deteção real, mas ninguém a conseguiu verificar ou encontrar novamente.

Um sinal estranho

Em 2015, o projeto Breakthrough Listen deu início a uma investigação de uma década financiada pelo investidor de Silicon Valley Yuri Milner e, até agora, a equipa não encontrou nada em definitivo nas suas observações estelares.

Em abril de 2019, o Breakthrough apontou o telescópio Parkes para Proxima Centauri – não necessariamente porque os cientistas estavam à procura de alienígenas, mas porque esperavam compreender melhor as explosões gigantescas que as pequenas anãs vermelhas como Proxima Centauri emitem frequentemente. Neste verão, enquanto processava as observações, Shane Smith, estudante de graduação da Faculdade Hillsdale em Michigan que trabalha com o Breakthrough, avistou o BLC-1 aparentemente a irradiar da estrela.

Embora o sinal seja fraco, o BLC-1 passou em todos os testes que a equipa do Breakthrough usa para filtrar os milhões de sinais gerados pelos humanos: Era estreito em largura de banda, parecia variar em frequência e desapareceu quando o telescópio mudou o seu olhar de Proxima Centauri para um objeto diferente. Nos dias seguintes, surgiram quatro sinais semelhantes, embora alguns tenham sido descartados como interferências de rádio.

“O nosso algoritmo é muito otimista sobre o que pode ser tecnologia alienígena”, diz Sofia Sheikh. “Mas isto é muito entusiasmante porque nunca chegámos a um estágio em que o algoritmo encontrou algo realmente interessante.”

Se o BLC-1, contra todas as probabilidades, for um cartão de visita do sistema estelar vizinho, então, estatisticamente falando, a Via Láctea pode estar repleta de civilizações em comunicação, diz Seth Shostak, do Instituto SETI. “Nesse caso, haveria mais de 500 milhões de sociedades na nossa própria galáxia – e isso parece um número demasiado elevado.”

Seguimento

Desde que esta deteção foi feita, a equipa observou novamente Proxima Centauri – e não encontrou nada. Os cientistas estão a trabalhar no desenvolvimento de novos testes que consigam identificar a origem do sinal, e vão continuar a apontar o telescópio Parkes para Proxima Centauri.

“Se queremos fazer uma declaração científica, precisamos de conseguir observar novamente o fenómeno e de o replicar”, diz Sofia. “É assim que o método científico funciona.”

No início deste ano, Jill Tarter, do Instituto SETI, disse-me que o processo de criar novos testes e de trabalho diligente para confirmar a origem de um sinal é uma parte natural dos esforços SETI, e que é algo com que todas as pessoas podiam aprender e beneficiar.

“Estamos à procura de uma coisa diferente, de alguém diferente”, disse Jill. “Encontrar de repente uma interferência e pensar que pode ser o que estamos à procura e, de seguida, descobrir o que precisamos de fazer para conseguirmos determinar o que é e ter a confiança em qualquer resultado que consigamos obter – isso é uma boa lição.”

Andrew Siemion diz que a análise do BLC-1 já ensinou muito à equipa sobre como pode testar os seus dados. As observações posteriores de Proxima Centauri serão valiosas para compreender como é que estas estrelas se comportam – bem como para realizar uma pesquisa SETI abrangente de um sistema estelar próximo com planetas conhecidos, mesmo que não seja povoado por alienígenas tecnologicamente avançados.

“Em última análise, acho que nos vamos convencer de que o BLC-1 é uma interferência”, diz Andrew. “Mas o resultado final vai significar que as nossas experiências serão muito mais apuradas no futuro.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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