Cria de Lobo com 57.000 Anos Encontrada Congelada no Pergelissolo de Yukon

A cria preservada está a ajudar os investigadores a compreender como é que os lobos migraram pela Europa, Ásia e América do Norte.

Publicado 29/12/2020, 16:37 WET
Uma cria de lobo bem preservada foi recuperada no pergelissolo no Território de Yukon, no norte ...

Uma cria de lobo bem preservada foi recuperada no pergelissolo no Território de Yukon, no norte do Canadá, revelando novos detalhes sobre a forma como os lobos da antiguidade se espalharam pela América do Norte e Eurásia.

Fotografia de GOVERNO DE YUKON

No verão de 2016, um mineiro de ouro no território canadiano de Yukon encontrou um tesouro inesperado. Quando destruiu uma parede de pergelissolo com um canhão de água para libertar as riquezas que podia conter, Neil Loveless encontrou algo a derreter no gelo. Não era um mineral precioso, mas sim a cria de lobo mais antiga e completa alguma vez encontrada.

Neil colocou rapidamente a cria num congelador até que os paleontologistas a pudessem observar. Os investigadores descobriram que este animal bem preservado era uma jovem fêmea, parte de um ecossistema desaparecido que datava de uma época em que o noroeste do Canadá era o lar de mastodontes americanos e outra megafauna do Pleistoceno. O povo Tr’ondëk Hwëch’in local chamou Zhur à cria de 57.000 anos, que significa “lobo” na língua da sua comunidade.

Já foram recuperados mamíferos excecionais na tundra siberiana, que também data da época do Pleistoceno, um período de entre há 2.6 milhões e 11.700 anos atrás, por vezes chamado de Idade do Gelo, porque as calotas polares eram muito maiores do que são atualmente. No entanto, encontrar um lobo intacto em Yukon não tem precedentes.

Com apenas sete semanas de vida quando morreu, a jovem loba pertencia a uma população que chegou pela primeira vez à região de Yukon migrando da Sibéria pela ponte de terra de Bering.

Fotografia de GOVERNO DE YUKON

“Na Sibéria, este tipo de preservação é bastante comum devido à forma como o pergelissolo preserva as coisas na região, mas não é comum em Yukon, no Alasca, e noutras partes da América do Norte”, diz a paleontóloga Julie Meachen, da Universidade de Des Moines, autora principal de um estudo que descreve Zhur na revista Current Biology. Grande parte de Zhur permaneceu intacta após dezenas de milhares de anos, desde o pelo às delicadas papilas na sua língua.

“Este tipo de preservação é espetacular”, diz Ross Barnett, paleontólogo da Universidade de Copenhaga, que não participou no estudo. Mas Zhur tem mais para oferecer do que parece a olho nu. “Ela diz-nos muito”, diz Julie Meachen, desde a idade com que morreu – sete semanas – ao que comia. Esta investigação oferece um vislumbre sobre um período de tréguas entre as extensões geladas na história da Terra.

População de lobos perdida

Zhur viveu durante um período interglaciar, quando os vastos glaciares do Ártico recuaram temporariamente e as florestas invadiram as pastagens geladas. Era uma época de mastodontes, camelos, castores gigantes e, como Zhur indica, uma época de lobos.

“Ter uma preservação tão extraordinária de um carnívoro é uma oportunidade única para observar os ecossistemas da Idade do Gelo do ponto de vista de um predador”, diz Tyler Murchie, paleogeneticista da Universidade McMaster, que não participou no estudo.

Esta ilustração mostra um lobo a caçar peixe com a sua cria no noroeste do Canadá há quase 60.000 anos.

Fotografia de JULIUS CSOTONYI (ILUSTRAÇÃO)

Embora sejam icónicos nas paisagens da atualidade da América do Norte, os lobos não evoluíram nas Américas. Estes canídeos surgiram pela primeira vez na Eurásia e cruzaram a ponte de terra de Bering no final da época do Pleistoceno, há mais de 500.000 anos.

“Zhur vem de um período que não é muito conhecido em Yukon em termos de múmias”, diz Ross Barnett. Através dos exames feitos aos restos de ADN desta cria de lobo, Julie Meachen e os seus colegas descobriram que o animal pertencia a um grupo de lobos que já não existe na região.

Zhur pertencia a uma população que tinha ligações genéticas com lobos do Alasca e da Eurásia, mas os lobos que vivem atualmente em Yukon têm uma assinatura genética diferente. Estas descobertas sugerem que os primeiros lobos em Yukon foram exterminados e posteriormente substituídos por outras populações que já tinham feito o seu caminho mais para sul.

O incrível estado de preservação de Zhur, uma cria de lobo, permite aos cientistas estudar as características físicas do animal e o seu ADN.

Fotografia de GOVERNO DE YUKON

“O ADN antigo demonstra repetidamente como as histórias evolutivas e a paleoecologia são muito mais complexas do que poderíamos derivar a partir dos estudos de ossos e fósseis”, diz Tyler Murchie. Sem os genes de Zhur, o extermínio e substituição dos lobos teria sido invisível para os cientistas.

Vida pré-histórica interrompida

O corpo de Zhur também revela detalhes sobre a sua vida. Com apenas cerca de sete semanas de vida quando morreu, esta cria tinha acabado de terminar a idade de desmame, quando teria começado a comer alimentos mais sólidos. As assinaturas geoquímicas nos seus dentes indicam que subsistia com refeições de rios e riachos, talvez com peixe como o salmão-rei que ainda desova nos rios perto de onde Zhur foi encontrada. Muitos dos lobos da atualidade que vivem no interior do Alasca têm dietas semelhantes e comem peixe com mais frequência do que animais de grande porte.

Infelizmente, a vida desta cria foi interrompida. Zhur parece ter morrido quando a sua toca colapsou – o enterro rápido facilitou a preservação excecional do seu corpo. Outros mamíferos desta época – como esquilos-do-ártico e doninhas-de-patas-pretas – ficaram preservados da mesma maneira.

Zhur viveu durante momentos de interseção, não só entre períodos glaciares frios, mas também entre populações de lobos que agora estão separadas. Ao estudar os genes desta cria, os cientistas podem obter uma compreensão mais aprofundada sobre o seu lugar no mundo antigo e o que mudou desde então. “O ADN antigo está a dar vida a um dinamismo do Pleistoceno Superior que era praticamente invisível a partir apenas de ossos”, diz Ross Barnett.

Saber como é que as populações de animais mudaram durante o Pleistoceno é uma história que ainda está a ser recuperada do ADN antigo deixado nos espécimes preservados, mas os restos de Zhur oferecem pistas importantes. A partir de ossos e genes, os investigadores estão a obter uma nova janela para os mundos perdidos da Idade do Gelo.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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