Morcegos, Museus e Vírus Colidem Nesta História de Amor Científica

Nascidas em continentes diferentes, Liliana M. Dávalos e Angelique Corthals superaram barreiras culturais e sociais para unir forças. Agora, o seu trabalho pode vir a influenciar futuros tratamentos para os coronavírus.

Por Eleanor Cummins
Publicado 11/12/2020, 12:56 WET
Angelique Corthals (à esquerda), a sua esposa Liliana Dávalos (à direita) e os seus colaboradores receberam ...

Angelique Corthals (à esquerda), a sua esposa Liliana Dávalos (à direita) e os seus colaboradores receberam financiamento da Fundação Nacional de Ciência dos EUA para desvendar de que forma as diferenças nos corpos de morcegos e humanos moldam as nossas respostas a vírus como o que provoca a COVID-19.

Fotografia de Jennifer Durham

A urgência da pandemia de COVID-19 empurrou alguns cientistas improváveis para a luta, incluindo uma antropóloga forense e uma bióloga de conservação, estimuladas pelo seu papagaio-cinzento brincalhão.

Desde março, Liliana M. Dávalos e Angelique Corthals têm estado praticamente confinadas em casa, em Long Island, habitação que partilham com o seu papagaio, Algernon, que gosta de agitar as suas penas vermelhas durante as videochamadas. Durante o confinamento, este casal lançou dois projetos pioneiros de investigação que podem influenciar a forma como prevenimos e tratamos os coronavírus, incluindo o que está a provocar a atual pandemia.

No início deste ano, Liliana, Angelique e os seus colaboradores receberam financiamento da Fundação Nacional de Ciência dos EUA para desvendar como as diferenças entre os corpos dos morcegos e humanos moldam as nossas respostas a vírus como o da COVID-19. Um dos projetos vai examinar a interação entre os genes e a resposta imunitária em humanos, ratos e mais de 30 espécies de morcegos, para determinar de que forma os organismos conseguem montar defesas contra a infeção viral. O outro projeto vai investigar a estrutura dos sistemas olfativos humanos e dos morcegos, para determinar o papel que desempenham na hospedagem de um vírus.

O trabalho deste casal pode parecer apenas uma gota no meio de um oceano de investigações que têm como objetivo combater a COVID-19. Mas, para Liliana e Angelique, ter a oportunidade de contribuir para esta missão científica também é uma evolução numa história notável de amor que abrange três continentes, vários laboratórios e uma pandemia global.

Ambições iniciais

Durante a sua infância na Bélgica, Angelique Corthals tinha um milhão de interesses. Quando era adolescente, estudou violino; inicialmente formou-se em estudos eslavos; e fez uma tese sobre Virginia Woolf. Mas descobriu que o seu fascínio mais pertinente estava no campo da antropologia biológica.

No início da década de 1990, parecia cada vez mais evidente que os avanços no sequenciamento genético poderiam transformar os restos mortais humanos em portais sem precedentes para culturas antigas. Investigadores como o geneticista sueco Svante Pääbo tinham acabado de começar a extrair ADN de múmias egípcias, e Angelique Corthals ficou deslumbrada com estas descobertas. “Eu queria uma relação íntima com as pessoas do passado.”

Angelique fez o seu doutoramento na Universidade de Oxford, em Inglaterra, e levou as suas capacidades para a cidade de Nova Iorque. “Ousadamente, marchei até ao Museu Americano de História Natural e entreguei o meu [currículo] aos recursos humanos”, diz Angelique. A sua ousadia compensou: conseguiu um emprego na coleção de tecidos orgânicos congelados em criogenia.

Liliana Dávalos soube desde sempre que queria ser cientista. Quando era criança, na Colômbia, assistiu a um documentário sobre Louis e Mary Leakey, um casal de paleoantropólogos que fez descobertas importantes sobre as origens humanas. Isso inspirou Liliana a fazer a sua própria expedição no quintal dos avós, onde, para surpresa de todos, encontrou ossos – os restos mortais do cão de alguém.

A sua disposição para os trabalhos de campo persistiu na idade adulta. Na Universidade de Valle, em Cali, Liliana formou-se em biologia e desenvolveu uma paixão por evolução e observação de aves. Mas não sabia o que queria fazer depois da licenciatura. Liliana foi rejeitada por alguns programas de pós-graduação e acabou por trabalhar durante uns tempos em comunicação científica.

Eventualmente, Liliana recebeu um telefonema sobre a sua candidatura para um programa de doutoramento conjunto no Museu Americano de História Natural e na Universidade de Colúmbia. Um investigador disse a Liliana que, se ela concordasse em passar de pássaros para morcegos, poderia juntar-se à equipa na cidade de Nova Iorque. Assim, Liliana fez as malas e começou a trabalhar no estudo dos mamíferos alados, que na época recebiam relativamente pouca atenção da comunidade científica. O que Liliana não sabia é que tinha acabado de dar o primeiro grande passo em direção à parceria da sua vida.

Os Morcegos Não São Tão Assustadores Quanto Pensamos
Quando pensamos em morcegos, muitas vezes pensamos numa imagem desfavorável. Quer seja o seu retrato assustador em filmes e literatura sobre vampiros ou o medo dos seus colegas da vida real poderem transmitir vírus, os morcegos têm uma má reputação que é na verdade mais ficção do que realidade. Veja os equívocos comuns que surgiram e como os morcegos são vitais para a nossa vida quotidiana.

Colegas de laboratório

No início da década de 2000, Angelique Corthals passava grande parte do seu tempo nas entranhas do museu, rodeada por tubos de aço inoxidável com nitrogénio líquido. Angelique trabalhava numa coleção criogénica que tem como objetivo preservar os tecidos de milhares de espécies de forma permanente, registando a biodiversidade do planeta. Cientistas, rapazes de entregas e estudantes de graduação levavam-lhe novos espécimes recolhidos pelo mundo inteiro. Mas Angelique gravitava para uma cientista em particular – a investigadora de morcegos Liliana Dávalos – que parecia nunca conseguir organizar a sua papelada.

“Eu estava a assediá-la”, diz Angelique.

“Mas não de uma forma negativa!”, intercede Liliana. “Era de uma forma profissional.”

As exigências intermináveis de Angelique para conseguir os formulários preenchidos deram lugar a conversas sobre egiptologia, genómica e cinematografia experimental. Mas o futuro de ambas iria enfrentar outros tipos de burocracias.

Quando Angelique e Liliana se conheceram, o casamento entre pessoas do mesmo sexo era ilegal na maioria dos estados, incluindo Nova Iorque. O casal tinha uma proteção limitada, sobretudo no contexto de imigração. “Se fôssemos um casal heterossexual e uma de nós se tivesse tornado residente norte-americana, então havia caminho para a outra”, diz Liliana. Mas, enquanto casal homossexual, cada uma teve de encontrar a sua própria maneira de permanecer nos Estados Unidos, ou arriscar regressar para continentes diferentes.

Angelique e Liliana acabaram por obter vistos de residência dos seus respetivos empregadores. No dia 24 de julho de 2011, quando a Lei de Igualdade no Casamento do Estado de Nova Iorque entrou em vigor, aproveitaram a oportunidade para exercer os seus direitos. No dia 5 de agosto, Angelique pediu a dois colegas para servirem de testemunhas e casou-se com Liliana no Supremo Tribunal da cidade de Nova Iorque. Ambas temiam que, se esperassem demasiado, a licença para o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse suspensa, como acontecera na Califórnia.

“As pessoas como Angelique e eu, nós não tomamos as coisas como garantidas”, diz Liliana.

Passados dezassete anos, três cerimónias de casamento e duas solicitações de cidadania pendentes, as duas cientistas já percorreram um longo caminho nas suas carreiras: Angelique Corthals é agora professora de antropologia forense e patologia na Faculdade de Justiça Criminal John Jay, e Liliana Dávalos é professora de biologia de conservação na Universidade Stony Brook, onde dirige o seu próprio laboratório de investigação. Mas o tête-à-tête científico entre ambas ainda continua.

“Não somos apenas casadas legalmente”, diz Angelique. “Também somos casadas mentalmente.” Durante o jantar, ambas partilham conselhos sobre as investigações uma da outra. Às vezes, quando é necessária a experiência de uma delas, ambas colaboram. Por exemplo, em 2012, Liliana usou proteómica – um tipo de análise de proteínas comum na oncologia médica – para ajudar Angelique a identificar uma micobactéria previamente não sequenciada numa múmia inca andina com 500 anos.

Narizes de morcegos e células caliciformes

Nesta primavera, enquanto o coronavírus se alastrava pelo mundo inteiro, os interesses e experiência de Liliana e Angelique convergiram mais uma vez. As investigações feitas anteriormente sugeriam que os vírus relacionados com a SARS e MERS circulavam nas populações de morcegos. Ao comparar os genomas e a morfologia do Homo sapiens e de várias espécies de morcegos, o casal acredita que consegue compreender como é que os morcegos são portadores destes vírus sem adoecerem, ao passo que um patógeno semelhante pode colocar o sistema imunitário humano a funcionar de forma excessiva e mortal.

“Parece uma coisa absurda, mas em comparação com a visão ou a audição, [o olfato] é um sentido muito subestimado e extremamente complexo.”

por LAUREL YOHE, UNIVERSIDADE DE YALE

No início da pandemia, Angelique viu relatos de que muitos pacientes perdiam o olfato, e levantou a hipótese de que o vírus podia ter como alvo as células caliciformes, que segregam muco no sistema respiratório e no trato digestivo. Estas células são o “marco zero para a entrada viral”. Os morcegos são frequentemente hospedeiros assintomáticos de coronavírus, mas as células caliciformes nos humanos podem fornecer um ambiente ideal para a multiplicação de patógenos. Nos humanos, o vírus acaba por matar as células caliciformes infetadas, o que pode desencadear uma miríade de sintomas, incluindo inflamação generalizada e a tosse seca característica da COVID-19.

Felizmente, uma das antigas alunas de doutoramento de Liliana, Laurel Yohe, é uma das líderes em investigação de sistemas olfativos de morcegos. Para além dos dados genéticos e amostras de tecido, Laurel recolheu algumas das primeiras e mais expansivas tomografias computadorizadas de narizes de morcego durante o tempo que passou na Universidade Stony Brook. Isso permitiu a Laurel visualizar a incrível diversidade entre os sistemas olfativos de diferentes espécies, que podem ser arqueados como catedrais góticas ou curvos como antigas catacumbas.

Naquela altura, Laurel nunca imaginou que a sua investigação científica básica seria relevante para uma crise de saúde pública. Agora, com o apoio da Fundação Nacional de Ciência, Laurel está a usar o seu tesouro de dados para identificar fatores físicos que podem influenciar a resposta do sistema imunitário a um vírus como o da COVID-19.

“Podemos começar realmente a compreender como é que funciona o nariz”, diz Laurel, agora investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Yale. “Parece uma coisa absurda, mas em comparação com a visão ou a audição, [o olfato] é um sentido muito subestimado e extremamente complexo.”

Ao mesmo tempo, Liliana e Angelique embarcaram noutro projeto de investigação financiado pela Fundação Nacional de Ciência com David Ray, professor associado da Universidade de Tecnologia do Texas, que estuda evolução molecular, e Diana Moreno Santillán, investigadora de pós-doutoramento. A equipa está a tentar identificar os genes envolvidos na resposta do sistema imunitário à infeção, observando semelhanças e diferenças nos genomas de mais de 30 espécies de morcegos. Depois, vai observar como é que as espécies expressam realmente esses genes e se a amplificação ou minimização de determinadas secções regula a resposta imunitária de um animal.

Ambos os projetos podem influenciar esforços de conservação e o planeamento de saúde pública, não só para a COVID-19, mas também para os outros coronavírus que possam surgir no futuro. Liliana, Angelique e os seus colegas – humanos e papagaios – fizeram um progresso rápido. Os primeiros resultados podem vir a ser divulgados no início do próximo ano.

E independentemente do que a vida, a lei de imigração ou a ciência de laboratório lhes reserve para o futuro, este casal vai lidar com isso da forma como sempre fez: juntas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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