Há Relâmpagos em Vénus? Luz Misteriosa Pode Ajudar a Desvendar Este Enigma.

Um piscar de luz avistado por uma sonda que orbita Vénus pode desvendar um enigma que se arrasta há 40 anos.

Publicado 6/01/2021, 15:16 WET
Uma imagem de cor falsa de Vénus, obtida em luz ultravioleta pela sonda Akatsuki do Japão, ...

Uma imagem de cor falsa de Vénus, obtida em luz ultravioleta pela sonda Akatsuki do Japão, revela padrões nas camadas de nuvens do planeta.

Fotografia de JAXA/PLANET-C Project Team

No dia 1 de março de 2020, a única nave espacial da humanidade a orbitar Vénus – a sonda Akatsuki do Japão – viu um flash misterioso nos céus alienígenas deste planeta. Este piscar de luz pode revelar evidências cruciais para uma questão que se arrasta há 40 anos: Será que há relâmpagos neste mundo envolto em nuvens?

Existem relâmpagos por todo o sistema solar. Já foram detetados relâmpagos extraterrestres nas nuvens de Júpiter, Saturno e Urano. “Como Vénus está rodeado por nuvens densas, esperamos que tenha relâmpagos”, diz Noam Izenberg, geólogo planetário da Universidade Johns Hopkins e vice-presidente do Grupo de Análise de Exploração de Vénus.


O flash observado pela sonda Akatsuki – nome que significa “madrugada” em japonês – foi revelado pelo cientista planetário Yukihiro Takahashi, da Universidade de Hokkaido, na reunião de 2020 da União Geofísica Americana. A equipa de Yukihiro suspeita que foi um poderoso relâmpago, cerca de 10 vezes mais energético do que um relâmpago na Terra, ou um grande meteoro que explodiu na atmosfera do planeta.

O flash foi detetado pela câmara Lightning and Airglow da sonda, um instrumento que rastreia as nuvens de Vénus há cinco anos – e que só agora captou o seu primeiro flash de luz. É um dos sinais mais promissores de relâmpagos em Vénus, mas a equipa ainda está a analisar os dados e os investigadores recusam-se a falar sobre a pesquisa até que esta seja publicada num artigo revisto por pares.

“A existência de relâmpagos em Vénus tem sido controversa durante muitas décadas”, disse Yukihiro Takahashi durante a sua palestra.

Já foram detetados sinais promissores de relâmpagos venusianos, desde pulsos eletromagnéticos medidos por sondas a luzes intermitentes observadas da Terra. Mas, em todos estes casos, os cientistas interrogam-se se esses sinais vêm de relâmpagos ou de outra fonte, como flashes de partículas do espaço profundo, conhecidas por raios cósmicos, ou do ruído criado pelos próprios instrumentos científicos.

Para identificar a origem da luz mais recente, os astrónomos esperam conseguir observar outro evento semelhante. “É intrigante e eles estão a trabalhar para descartar outras hipóteses”, diz Noam Izenberg, que não está envolvido na nova investigação. “A prova vai estar no facto de o observarmos novamente.”

Se o flash era um relâmpago, a sua descoberta seria um grande passo para decifrar a natureza misteriosa das densas nuvens de Vénus – incluindo fornecer uma pista sobre se este tipo de ambiente consegue suportar vida. “[Um relâmpago] consegue quebrar átomos e fornecer radicais livres que se recombinam e formam moléculas”, diz Colin Wilson, cientista planetário da Universidade de Oxford.

Assobios na tempestade

Os cientistas já procuram relâmpagos em Vénus há quase meio século, pesquisando com telescópios e monitorizando evidências eletromagnéticas com sondas. A sonda Cassini da NASA, que conseguia facilmente detetar relâmpagos na Terra, voou duas vezes por Vénus no final dos anos 1990, a caminho de Saturno, e não detetou quaisquer relâmpagos.

Mas há pistas mais antigas. Algumas das sondas Venera da União Soviética, lançadas entre os anos 1960 e 1980, registaram picos suspeitos nos seus sensores magnéticos e acústicos. O Orbitador Pioneer Venus dos Estados Unidos detetou rajadas de energia na década de 1980, assim como o rádio acoplado à sonda Galileu quando esta passou pelo planeta em 1990 a caminho de Júpiter. Em meados da década de 1990, um telescópio terrestre também observou diversas manchas luminosas em Vénus.

“Nenhum destes sinais foi completamente convincente”, diz Karen Aplin, física da Universidade de Bristol que estuda relâmpagos planetários. “Em geral, tem sido difícil excluir a possibilidade de outras explicações.”

A sonda Venus Express da Agência Espacial Europeia, que orbitou o planeta desde 2006 até 2015, detetou diversas ondas de rádio em “modo-assobio” vindas do planeta. Na Terra, estes sinais – designados pelos operadores de rádio durante a Primeira Guerra Mundial que ouviam sons de assobios nos rádios e receavam que pudessem ser granadas – podem ser gerados por relâmpagos.

“Contudo, as ondas em ‘modo-assobio’ podem ser geradas por qualquer tipo de instabilidade ou perturbação na atmosfera”, diz Shannon Curry, física planetária da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Estes sinais são ouvidos regularmente a emanar de Vénus e Marte, e é possível que venham de relâmpagos elusivos, mas os astrónomos não têm a certeza.

Ver para crer

A maioria das investigações óticas por relâmpagos – que procuram flashes visíveis – não produziu resultados. Uma das possibilidades, diz Colin Wilson, “é a fonte dos relâmpagos estar por baixo do topo das nuvens, o que significa que as ondas de rádio se propagam, mas que grande parte da luz fica bloqueada”.

A sonda Akatsuki consegue procurar flashes de luz muito ténues nas nuvens de Vénus. No entanto, como a sonda teve problemas de funcionamento no motor e não conseguiu entrar na órbita de Vénus em 2010, teve de circular o sistema solar e tentar novamente em 2015. Embora a Akatsuki tenha entrado com sucesso na órbita de Vénus na segunda tentativa, a sonda teve de se contentar com uma órbita excessivamente alongada que, na maior parte do tempo, mantém a nave longe do planeta.

Passados cinco anos, a Akatsuki avistou um flash de luz. “Estou surpreendida que não o tenham visto novamente”, diz Shannon Curry. “O que me incomoda é o facto de só o terem visto uma vez”, já que os relâmpagos normalmente surgem em focos. “Mas estou disposta a acreditar na deteção.”

O flash não parece ter sido provocado por um raio cósmico, embora a equipa da Akatsuki acredite que possa ter sido um bólide – um meteoro que explode na atmosfera e produz uma luz brilhante. Porém, as probabilidades de a Akatsuki ver um bólide, com base no que sabemos sobre a frequência com que estes atingem os planetas, é extremamente improvável.

Por enquanto, a explicação principal é relâmpago.

“Um caso isolado de erro de um instrumento que parece ser um sinal real seria uma coincidência incrível”, diz Ricky Hart, estudante de pós-graduação na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que estuda possíveis sinais de relâmpagos em Vénus. De acordo com Ricky, “este flash adiciona um bom argumento a favor dos relâmpagos em Vénus”.

Mistérios em espessas nuvens alienígenas

Se o flash for um relâmpago, o que o está a provocar? Os astrónomos acreditam que a resposta pode revolucionar o que sabemos sobre os céus de Vénus.

As nuvens de ácido sulfúrico do planeta são únicas no sistema solar, pelo que os modelos tradicionais de geração de relâmpagos não se aplicam a Vénus, diz Karen Aplin. Acredita-se que as nuvens de Vénus conduzem eletricidade relativamente bem, algo que pode impedir que a eletricidade se acumule num determinado lugar até um ponto em que é despoletado um relâmpago.

Na Terra, as nuvens separam as gotículas de água eletricamente carregadas e os cristais de gelo através de convecção – quando as nuvens mais quentes sobem e as mais frias descem – dando origem a relâmpagos. Mas não se sabe qual é a quantidade de mistura vertical nas nuvens de Vénus, diz Paul Byrne, cientista planetário da Universidade Estadual da Carolina do Norte. A sonda Akatsuki não consegue determinar a altitude do flash, pelo se fosse um relâmpago, poderia ter partido de qualquer lugar entre a alta atmosfera e a mancha de nuvens que fica a dezenas de quilómetros mais a baixo.

Os relâmpagos em Vénus também seguir erupções vulcânicas. Embora não tenham sido diretamente observadas erupções através das nuvens obscuras do planeta, as evidências circunstanciais convenceram muitos cientistas planetários de que há erupções a ocorrer no planeta. Os eventos explosivos que produzem plumas acinzentadas e eletricamente carregadas podem gerar relâmpagos.

Independentemente de esta deteção ser genuína ou não, os cientistas planetários vão continuar à procura de mais flashes, ansiosos para saber se o poder dos relâmpagos está em ação em Vénus.

“Os relâmpagos, enquanto processo, são carismáticos. São ativos”, diz Noam Izenberg. “E poderiam ser um dos motores potenciais para a química pré-biótica em Vénus”, o que significa que essas rajadas de energia poderiam unir as moléculas necessárias para a vida. Se este processo acontecer em partes da atmosfera que são conhecidas por serem aquosas, temperadas e iluminadas pelo sol, pode criar um potencial paraíso para micróbios fotossintéticos.

Os relâmpagos também podem ser responsáveis pela produção do gás fosfina, um composto detetado recentemente em Vénus – embora alguns especialistas tenham questionado se essa deteção era válida. Na Terra, o gás fosfina é produzido por micróbios. Se esse gás existir realmente nas nuvens venusianas, parte dele pode ser forjado pela interação dos relâmpagos com a atmosfera.

Se tivéssemos observações duplas, feitas por telescópios terrestres e pela sonda Akatsuki, a comunidade científica podia ficar convencida de que tinha sido identificado um relâmpago, diz Shannon Curry. Mas até que a humanidade envie uma nova missão a Vénus para mergulhar na atmosfera, ou para voar perto do topo das nuvens, a presença de relâmpagos provavelmente vai permanecer uma questão em aberto, diz Paul Byrne.

Sabemos surpreendentemente pouco sobre Vénus, um mundo que tem aproximadamente o mesmo tamanho e composição da Terra, mas cuja evolução foi dramaticamente diferente. De acordo com Noam Izenberg, este flash é mais um argumento que nos indica que devemos regressar a Vénus.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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