Cientista nacional à frente de investigação sobre mar profundo

Há uma bióloga portuguesa a liderar um estudo sobre o mar profundo. Trata-se de um programa que procura descobrir o que ainda se esconde no fundo dos oceanos.

Publicado 8/02/2021, 15:47 WET
Grandes corais

Grandes corais num recife de água fria, 1200 metros abaixo da superfície do mar.

Fotografia de Cortesia do projecto Deep Links (Plymouth University, Oxford University, JNCC, BGS) financiado pelo National Environmental Research Council, UK

Ainda sabemos muito pouco sobre as profundezas do mar. Comparativamente a outros habitats, o mar profundo é ainda desconhecido, muito relacionado com as condições que são inóspitas, de difícil acesso ao Homem.

Até meados do século XIX admitia-se que não havia qualquer hipótese de vida no mar profundo. Contudo, entre 1872 e 1876, a expedição à volta do mundo do navio inglês H.M.S. Challenger provou o contrário.

A Segunda Guerra Mundial veio também contribuir para o desenvolvimento da tecnologia e da acústica, tornando possível explorar zonas inacessíveis do mar profundo, que hoje se admite guardarem uma riqueza incalculável.

O Challenger Deep

O programa Challenger 150 surge para estudar o mar profundo, local onde a humanidade ainda não conseguiu pisar. O programa visa explorar cientificamente esta zona do globo, que ocupa 60 por cento da superfície do planeta Terra.

Por mar profundo, entende-se as vastas extensões de água e fundos marinhos, entre os 200 e os 11.000 metros abaixo da superfície do oceano. Esta profundidade do planeta que, embora o represente em mais da sua metade, ainda permanece inexplorada.

O nome do projeto faz alusão ao ponto mais profundo do planeta, o Challenger Deep, local de onde a humanidade conhece muito pouco quer sobre os seus habitats, quer pela forma de como estes contribuem para a saúde de todo o planeta.

Estudar o mar profundo para capacitar a comunidade científica

Da Universidade de Aveiro (UA), o programa Challenger 150 é liderado pela investigadora Ana Hilário, uma das responsáveis pelo desenvolvimento do mesmo. A cientista portuguesa, do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da UA, junta-se a Kerry Howell, da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, especialista em Ecologia do Mar Profundo.

É então para colmatar o desconhecimento sobre os habitats e o seu impacto no planeta que Ana Hilário e Kerry Howell reuniram uma equipa de cientistas de 49 instituições, de 21 países, propondo um programa de investigação.

O programa tem em vista um trabalho a ser desenvolvido nos próximos 10 anos, onde além da equipa da UA, também participam cientistas do CIIMAR (Universidade do Porto), do Okeanos (Universidade dos Açores) e do CIMA (Universidade do Algarve).

A perspetiva da vida no mar profundo

Em 2022 assinala-se o 150º aniversário da expedição do navio HMS Challenger, que circum-navegou o globo, mapeou o fundo do mar, registou a temperatura global do oceano e proporcionou a primeira perspetiva da vida no mar profundo.

O programa do Challenger 150, para explorar o mar profundo, vai coincidir com a Década das Nações Unidas da Ciência do Oceano para o Desenvolvimento Sustentável, que ocorre entre 2021 e 2030.

Um dos maiores objetivos deste trabalho é a capacitação e aumento da diversidade no seio da comunidade científica, uma vez que a investigação no oceano profundo é ainda reduzida. Tal facto relaciona-se com a atual investigação ser conduzida, principalmente, por nações desenvolvidas com recursos financeiros suficientes, assim como acesso a infraestruturas oceanográficas.

Segundo a investigadora Ana Hilário, este programa surge com o objetivo de poder, finalmente, quantificar o “impacto que alterações no mar profundo terão à superfície e vice-versa”. O que se sabe “é que o mar profundo tem um papel fundamental nas nossas vidas através da regulação do clima. Este absorve o excedente de calor e de CO2 da atmosfera ajudando a 'amortecer' o efeito de estufa, mas durante este processo torna-se mais quente, mais ácido e menos oxigenado, o que pode provocar alterações na produtividade oceânica, na biodiversidade e o aprovisionamento de recursos vivos. A perda de biodiversidade de águas profundas pode reduzir a quantidade de espécies, genes e biomoléculas disponíveis para as gerações futuras. Para além disso, neste processo de regulação climática o mar profundo é também responsável pela regeneração de nutrientes para os ecossistemas de superfície, suportando assim o fornecimento de alimentos e proporcionando benefícios económicos e societais”.

Um afloramento de rocha é um lar perfeito para muitas espécies diferentes de corais de água fria.

Fotografia de Cortesia do projecto Deep Links (Plymouth University, Oxford University, JNCC, BGS) financiado pelo National Environmental Research Council, UK

Ainda sobre o estudo do mar profundo, Ana Hilário adianta ainda que “começou há pouco mais de 150 anos, numa altura em Edward Forbes, um naturalista britânico, avançou com a teoria azoica que admitia que não havia vida no oceano abaixo dos 600 metros de profundidade. Essa teoria ignorava algumas evidências já conhecidas há época, mas foi com a expedição do HMS Challenger, entre 1872 e 1876, que foi posta totalmente de parte. Hoje sabemos que há vida em todo o oceano, independentemente da profundidade, sendo que o mar profundo apresenta uma das maiores biodiversidades do planeta – que apenas começou a ser quantificada nos anos 60 do século passado”.

Só mais recentemente, “a descoberta de fontes hidrotermais revelou inesperadamente um dos ecossistemas mais fascinantes do planeta. Quando em 1977 uma expedição de geólogos encontrou uma exuberante quantidade de vida associada a chaminés hidrotermais na rífte dos Galápagos teve início uma das linhas de investigação mais importantes das Ciências Biológicas, cujo primeiro resultado foi quebrar o paradigma que a toda a vida na Terra depende da luz solar. Ao contrário de todos os outros sistemas conhecidos que dependem, direta ou indiretamente, da fotossíntese, aqui a vida tem por base processos de quimiossíntese, que têm na base da cadeia energética microorganismos”.

Tendo por base a sua vasta experiência, a cientista admite que o seu maior fascínio na sua profissão são “os ecossistemas quimiossintéticos e as espécies que nelas habitam. Por isso, adoraria ver nos próximos 10 anos um aumento do nosso conhecimento sobre a distribuição destes ecossistemas, especialmente em áreas menos estudadas, como o hemisfério, de modo a conseguir perceber os padrões de distribuição das espécies que aí habitam. Além da minha curiosidade científica, esta é também uma questão importante no que diz respeito à potencial extração de recursos minerais associados a fontes hidrotermais e dos potenciais impactos que esta atividade industrial pode ter nos nossos fundos”.

Do programa Challenger 150, espera-se ainda, gerar dados geológicos, físicos, biogeoquímicos e biológicos suficientes para formar a próxima geração de biólogos do mar profundo. Através da inovação e da aplicação de novas tecnologias, pretende-se compreender como as mudanças no mar profundo afetam a vida em todo o planeta.

A investigadora, Ana Hilário, do CESAM (Centro de Estudos do Ambiente e do Mar), afirma ainda que a sua equipa no dia 15 de janeiro submeteu “a proposta ao Comité Oceanográfico Intergovernamental da UNESCO, para que o Challenger 150 seja reconhecido como um programa oficial da Década Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. Independentemente desse reconhecimento, o programa conta já com o compromisso de cientistas de 49 instituições de 21 países diferentes com campanhas programadas para os próximos dois anos de contribuir para os objetivos do programa. Além disso, contamos também como apoio de duas instituições filantrópicas, o Scmidt Ocean Institute (EUA) e a REV Ocean (Noruega), que através dos seus navios vão apoiar companhas de investigação e de formação, respetivamente. Estas últimas, são uma grande aposta do programa, e minha pessoalmente, e a partir de 2023 a REV Ocean disponibilizará 18 dias por ano para treinar a nova geração de biólogos do mar profundo”.

A cientista acrescenta que, neste momento, “estamos numa fase de nos organizarmos à escala global para operacionalizarmos o programa, estandardizar métodos e definir uma estratégia de comunicação que nos permita em 2030 compreender como as mudanças no mar profundo afetam todo o meio marinho e a vida no planeta”. De modo que, possam “utilizar este conhecimento para apoiar a tomada de decisões a nível regional, nacional e internacional sobre questões como a exploração mineira nos fundos oceânicos, a pesca e a conservação da biodiversidade, bem como a política climática.”

Cooperação internacional é fundamental

Para mergulhar no mar profundo, o Challenger 150 depende de mais e melhor colaboração e conhecimento, incluindo a cooperação multilateral. Para obter mais apoio, os investigadores do programa publicaram um apelo na revista “Nature Ecology & Evolution” e divulgaram um esquema pormenorizado do programa na revista “Frontiers in Marine Science”.

As publicações são lideradas por membros das redes internacionais Deep-Ocean Stewardship Initiative (DOSI) e Scientific Committee on Oceanic Research (SCOR), incluindo cientistas de países desenvolvidos, emergentes e em desenvolvimento de seis dos sete continentes.

Os cientistas alegam que a Década anunciada pela ONU, é uma oportunidade ímpar de unir a comunidade científica internacional para dar o verdadeiro mergulho nas profundezas do oceano.

Por fim, espera-se que o programa resulte numa rede reforçada, que vai permitir aos países exercer plenamente o seu papel nos debates internacionais sobre a utilização dos recursos marinhos, dentro e fora das suas fronteiras nacionais.

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