Neurohacking: como é possível hackear o cérebro humano.

Descubra as técnicas utilizadas pelos especialistas em neurohacking para potencializar o cérebro e tirar partido da sua plasticidade.

Published 11/02/2021, 10:16 WET
engenheiro usa um capacete de sensores

Nesta fotografia um engenheiro usa um capacete de sensores, parte de uma TAC ao cérebro, no Centro Athinoula A. Martinos de Imagem Biomédica, no hospital de Massachusetts.

Fotografia de ROBERT CLARK

O termo pode induzir em erro e até transportar-nos para o cenário de WandaVision, mas segundo o neurohacker Nilson Porto “quando nos referimos a neurohacking falamos de conhecimentos científicos e ferramentas práticas aplicados de forma estratégica para se promover bem-estar físico, otimização de performance cognitiva, melhor utilização e relação com o ambiente e autonomia emocional através de melhores relações interpessoais.” Envolve hábitos mais simples como passeios na natureza, um diário e momentos a sós para reflexão até rotinas mais elaboradas de gestão eficaz do tempo, nutrição otimizada para alta performance, práticas para melhorar o sono, técnicas de comunicação, mindfulness, entre outros exercícios. E, quer acredite ou não, está ao alcance de qualquer um - a custo quase zero!

Neurohacking é a ciência e arte de potencializar o cérebro, a mente e o corpo para experiências e competências mais otimizadas. Apesar do termo ser relativamente jovem, práticas ancestrais como a meditação e o tão afamado fasting (jejum) são alguns dos métodos utilizados nos programas de neurohacking.

Não se deixe intimidar, não precisa de ter um curso de ciência computacional ou estudar neurociência para conseguir implementar estes hábitos. Garantimos-lhe também que o neurohacking não é um módulo da cientologia nem é uma prescrição apenas para os cérebros mais novos. Pretende ser uma ciência associada a um grande leque cultural e a um estilo de vida holístico – isto é, não é sectário nem exclui os seus interesses pessoais.

Como hackear o cérebro humano?

Lemos frequentemente a importância do cuidado de rosto e do cuidado ocular, mas não ouvimos tanto sobre o cuidado mental – um tema finalmente em voga, agora que enfrentamos uma pandemia que implica períodos de confinamento. Mas como podemos fazer um reboot ao processo de raciocínio? Ficaria admirado se a gratidão e a escrita de um diário estivessem incluídos no conjunto de práticas que promovem a qualidade do pensamento? Experimente transcrever uma citação que tenha gostado de ouvir numa série ou uma expressão nova que gostaria de utilizar no próximo e-mail. Faça uma lista de objetivos que quer atingir – não se assuste, não tem de definir um prazo, mas vá riscando à medida que os completa.

Primatas sociais

O nosso comportamento é afetado pela companhia que temos. Por quem nos rodeia no trabalho, na fila do supermercado, por quem grita ao telemóvel na fila de trás do autocarro, por quem regista as nossas compras na caixa do supermercado, etc. Se o nosso espaço é invadido por teorias ou comentários tóxicos é quase inevitável que o nosso estado de espírito se deixe afetar. E algo novo? O “tempo a um” também pesa na equação da potencialização das nossas capacidades cognitivas. Já pensou em fazer a sua caminhada exclusivamente consigo mesmo? E que tal planear um fim de semana ou umas férias sozinho quando for possível voltar a viajar em segurança? Não, ir à mercearia do seu quarteirão sozinho não conta.

O espaço que habita

Reorganizou o seu apartamento recentemente? Não foi o único. Tempos penosos requerem medidas penosas. Talvez o seu subsídio de férias de 2020 se transforme numa secretária mais larga. Quem sabe se a poupança do último ano tome a forma de um sofá mais confortável. Ou até de um novo frigorífico ou lençóis orgânicos.

A iluminação é frequentemente desvalorizada e deve ser tratada como um nutriente para a nossa saúde. A redução da luz antes de pensar em ir dormir é fundamental. Já pensou em alterar o seu interruptor do quarto para um regulável?

Abrir as janelas e deixar o ar circular é tão importante como lavar a loiça.

Ouvimos para responder

…e não para compreender.

Nilson Porto recorda que “evolutivamente fomos programados para procurar aumentar o nosso ‘valor social’ no grupo, o que correspondia a maiores hipóteses de sobrevivência e reprodução, numa altura em que tínhamos que lidar com demasiadas ameaças do ambiente”.

Os nossos “hábitos sociais” atuais ainda refletem esta herança genética. Segundo o neurohacker “existe em cada um de nós uma necessidade instintiva e inconsciente de nos sentirmos “superiores” em algo relacionado com alguém – ainda que condenemos este comportamento quando o identificamos nos outros – pois isso liberta no cérebro neurotransmissores relacionados ao bem-estar e ao prazer, o que torna difícil a identificação destes padrões em nós próprios”. O mesmo do que ganhar uma corrida ou ter a melhor nota na turma num determinado exercício.

Nilson Porto explica que “estes padrões são reforçados por influências culturais, como nacionalismos exacerbados, posições políticas e religiosas, racismo, xenofobia, misandria e misoginia, diferenças de classes com poderes económicos distintos, e quaisquer outras formas de relações do tipo ‘out group’. Logo, a comunicação verbal ‘contemporânea’ acaba sempre por ser uma manifestação mais evidente e direta desta herança genética primitiva”.

O nosso cérebro evoluiu para responder no momento rigorosamente seguinte, a estímulos que julgamos carecerem de resposta imediata. Somos treinados para ter a resposta na ponta da língua e quando não o fazemos ficamos “comichosamente desconfortáveis”. Perante bombardeamentos contínuos, até à hora em que nos deitamos, assemelhamo-nos a um CPU (processador) ligado permanentemente à corrente.

No mundo do neurohacking aprendemos a tomar consciência destes padrões primitivos de comportamento e a treinar e utilizar o estado de atenção plena para conseguir contorná-los.

Aprenda a dizer “nem pensar”

Educam-nos mais a dizer que sim, do que a dizer que não. Deixe slots em branco na sua agenda e permita que não sejam preenchidos. Marque um slot para responder a e-mails e outro para analisar dados. Outro apenas para “estar”. Reserve espaço para imprevistos e para o desconhecido. Habitue-se a parar.

Se marca uma hora para a reunião de equipa por que razão não agenda tempo para regar as suas plantas? Será que a vigésima reunião semanal não pode passar para a semana seguinte? Já pensou que os seus colegas podem não ter os mesmos horários ou querer almoçar mais cedo? Alguém lhe perguntou se ia caminhar ao final da tarde antes de lhe enviarem um convite para a sessão de brainstorming das 17h30?

Estas atitudes na sua rotina podem ajudá-lo a ter uma maior consciência e controle sobre os impulsos que controlam a maior parte dos seus comportamentos sem que se aperceba ou hesite - pois não temos este conhecimento. 

Como testar o neurohacking

O conhecimento do cérebro humano continua a crescer, mas ainda há muito para ser explorado. Até lá, convidamo-lo a testar alguns hábitos. Não se penalize se falhar. Adote um de cada vez ou desafie um amigo para o acompanhar.

• Inclua nas suas refeições alimentos ricos em substâncias antioxidantes e vitaminas do complexo B como os mirtilos, vegetais verdes escuros, frutos secos e cereais integrais;
• Organize a sua rotina diária em blocos de tempo destinados a apenas uma atividade de cada vez;
• Escreva um diário de gratidão sobre as coisas positivas que ocorrem ao longo do seu dia;
• Reflita profundamente sobre as reais razões de fazer tudo o que faz diariamente;
• Procure deitar-se, acordar e fazer as refeições sempre nos mesmos horários (isso dá ritmo e orientação ao cérebro);
• Mantenha contacto e partilhe as suas experiências diárias com um neurohacking buddy (parceiro de neurohacking);
• Procure vídeos que ensinem a meditar de forma simples;
• Uma rotina regular de atividade física é uma das formas mais eficazes de manter o cérebro jovem, ágil e em alta performance. Não, hoje não tem desculpas! Descubra o conceito norueguês Friluftsliv e como pode ajudá-lo este inverno.;
• Dedique também algum tempo para apenas apreciar o silêncio, um tempo para “fazer nada com qualidade”.


Nilson Porto é um neurohacker, que se declara apaixonado pelo estudo da evolução da consciência humana. Com formação em Biomedicina e Neurociência, é também educador e terapeuta cognitivo comportamental especializado em neurohacking. Desenvolveu um programa de democratização de acesso ao conhecimento, ferramentas e estratégias de neurohacking – em língua portuguesa – através do site holohacking.com e das suas contas nas redes sociais.

Continuar a Ler