Erupção na Islândia pode marcar o início de décadas de atividade vulcânica

Não é expectável que a primeira erupção na península de Reykjanes em cerca de 800 anos ameace centros populacionais, mas oferece uma oportunidade única para estudar os mistérios geológicos da região.

Publicado 30/03/2021, 13:43 WEST
vulcão

A erupção começou no dia 19 de março, na região de Geldingadalur, na península de Reykjane, na Islândia, possivelmente marcando o início de um novo período de intensificação de atividade vulcânica na região.

Fotografia de Jeremie Richard, AFP via Getty Images

Depois de ser abalada durante 15 meses por terramotos cada vez mais perturbadores, incluindo cerca de 50.000 sismos nas últimas três semanas, a península de Reykjanes, na Islândia, está finalmente a passar pela erupção vulcânica que muitos geólogos suspeitavam estar a caminho. Depois de quase 800 anos sem erupções, esta faixa no sudoeste do país está a testemunhar fluxos de lava que, de acordo com os especialistas, já se esperavam há muito tempo.

Dia 19 de março, por volta das 20:45 hora local, rocha derretida rompeu a superfície numa montanha de topo plano chamada Fagradalsfjall, na região de Geldingadalur, a cerca de 10 quilómetros de distância da cidade mais próxima. Salpicos incandescentes surgiram ao longo de uma fenda na terra, queimando o solo enquanto pequenas fontes de lava iluminavam a paisagem escura.

Esta erupção envolve uma quantidade relativamente pequena de lava que está confinada a uma série de vales, sendo pouco provável que centros populacionais fiquem ameaçados. Este tipo de rocha derretida é muito fluida e os gases aprisionados no seu interior escapam facilmente, mas como não está em erupção na água ou no gelo, não se irá tornar particularmente explosiva, gerar uma nuvem de cinza sustentada ou espalhar quaisquer blocos vulcânicos consideráveis na região. Os cientistas acreditam que a erupção irá persistir durante mais alguns dias ou semanas antes de desaparecer.

No entanto, esta modesta erupção pode marcar o início de algo maior. As evidências obtidas através de relatos históricos e observação de antigos fluxos de lava mostram que, sempre que esta região passou por um enorme aumento de atividade sísmica, esses eventos foram seguidos por erupções intermitentes ao longo de cerca de 100 anos.

“Os sinais indicam que está a despertar novamente”, diz Dave McGarvie, vulcanólogo da Universidade Lancaster.

Portanto, a erupção de Geldingadalur oferece uma oportunidade sem precedentes para se estudar a atividade vulcânica de longo prazo no sudoeste da Islândia. Os cientistas estão a tentar monitorizar o que pode ser o início de uma série de manifestações vulcânicas, que podem fornecer pistas sobre as razões pelas quais esta península entra em erupção apenas uma vez a cada oito séculos.

O caso do magma desaparecido

Localizada numa porção terrestre da Dorsal do Atlântico Norte, uma zona que está continuamente em expansão, a península de Reykjanes, cerca de 27 quilómetros a sudoeste da capital Reiquejavique, é uma região de atividade sísmica. Contudo, desde o final de 2019 que os tremores se tornaram mais frequentes e intensos. Os islandeses que vivem nesta península, sobretudo na cidade costeira de Grindavík, têm tido problemas em dormir devido aos tremores constantes.

Acredita-se que esta atividade sísmica intensificada representa a transição entre uma abertura gradual de fissura para uma fase consideravelmente mais dramática, quando ambos os lados da península são rapidamente separados. Quando uma fenda geológica separa rapidamente a terra desta forma, cria um espaço vazio e o magma sobe para o preencher.

No dia 3 de março, surgiram sinais acústicos associados à injeção de magma na crosta rasa entre a montanha Fagradalsfjall e uma série de fissuras que se abriram há muito tempo. Uma nova erupção parecia extremamente provável, mas não surgiu qualquer lava, e os sinais acústicos desapareceram, diz Thorbjörg Ágústsdóttir, sismóloga do instituto de investigação Iceland GeoSurvey.

Em vez disso, a folha de magma, conhecida por dique, moveu-se pelo subsolo nas semanas seguintes. A atividade sísmica e a mudança na forma do solo permitiram aos cientistas rastrear aproximadamente os seus movimentos. Foi detetado magma a oscilar entre a zona nordeste e sudoeste da península, provocando o aparecimento de fendas na terra.

“Eu chamei-lhe ‘dique hesitante’ porque não parecia saber o que fazer”, diz Dave McGarvie. Parecia estar à procura, sem conseguir, de um lugar para romper a superfície.

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Nas últimas semanas, a atividade sísmica na região diminuiu, e a maioria dos diques arrefeceu e solidificou antes de ter a possibilidade de entrar em erupção. Isto levou alguns cientistas a suspeitar que afinal não iria haver uma erupção.

Porém, a crosta superior da Islândia é peculiar, agindo de uma forma um tanto ou quanto elástica – o que significa que é um pouco mais parecida com um caramelo do que com um doce sólido. A crosta nesta área pode esticar um pouco para abrir espaço para o magma, permitindo que o dique se infiltre na rocha imediatamente abaixo da superfície sem provocar fraturas violentas e produzir os tais sinais acústicos mais reveladores.

Este modo furtivo é típico das erupções que acontecem ao longo de fissuras, como as verificadas ao longo da península. “Os cientistas na Islândia tinham acabado de estar no terreno e, de repente, o solo estava a abrir-se”, diz Thorbjörg. Aparentemente, a diminuição da atividade sísmica na região, em vez de ser um sinal de dias mais calmos, pode na verdade ser um precursor de uma erupção.

Erupção há muito esperada

No dia 19 de março, o Instituto Meteorológico da Islândia detetou alguns sismos de baixa frequência que se podem atribuir ao movimento do magma em direção à superfície – mas foram eventos muito subtis, diz Thorbjörg. Sem forma de saber quando e onde poderia acontecer uma erupção, as autoridades locais continuaram a alertar as pessoas para se afastarem da área com fissuras.

Nessa noite, começou a surgir lava perto de Fagradalsfjall, no interior de Geldingadalur, uma depressão natural cujo nome significa Vale do Eunuco – possivelmente uma referência à prática dos primeiros colonos de castrar animais. “Quando não conseguiu encontrar uma saída para nordeste ou sudoeste, o dique aparentemente rompeu no meio, porque ambas as direções estavam um pouco obstruídas”, diz Tobias Dürig, vulcanólogo da Universidade da Islândia.

Uma webcam instalada numa cordilheira nas proximidades foi a primeira a avistar lava. Foi enviado um helicóptero da Guarda Costeira para o local e o piloto rapidamente avistou lava incandescente.

A lava surgiu numa fissura sinuosa com 500 metros de comprimento, mas durante o fim de semana a erupção concentrou a sua produção num só local, construindo um imponente caldeirão íngreme de rocha recém-arrefecida. Rios de lava contornaram suavemente os blocos de lava arrefecidos. A lava a fluir com um ritmo constante fez com que o cone sofresse colapsos parciais enquanto este cuspia bolhas de lava pela terra carbonizada.

O dique de magma é pequeno, com pouco mais de seis quilómetros de extensão, e a erupção está limitada a um vale rodeado por outros vales, evitando que a lava escape da área e ameace centros populacionais. Mas há dióxido de enxofre, um gás vulcânico comum, a ser emitido pela erupção, e pequenas quantidades deste gás podem irritar os pulmões de pessoas que sofram de problemas respiratórios como asma. Mas, até agora, o vento tem soprado o gás vulcânico para longe das áreas povoadas.

Os cientistas dizem que há a possibilidade de uma nova fissura se abrir de forma repentina e inesperada perto da atual, emboscando qualquer pessoa na zona. “É algo que pode facilmente acontecer, e depressa, pelo que não seria um bom lugar para se estar”, diz Tobias Dürig.

Estudar o inferno

Os cientistas acreditam que, apesar de tudo, esta será uma erupção em grande parte inofensiva. Graças ao acesso fácil à região, os investigadores estão a usar todos os seus instrumentos para estudar a erupção, encarando-a como a melhor oportunidade que alguma vez tiveram para compreender a tectónica e o vulcanismo invulgares da região.

Alguns investigadores recolheram lava e levaram-na apressadamente para o laboratório, na esperança de desvendar a química específica deste material. Tobias Dürig já sobrevoou várias vezes a erupção, usando um radar para determinar a espessura dos fluxos de lava e estimar a quantidade de lava em erupção.

Evgenia Ilyinskaya, vulcanóloga da Universidade de Leeds, visitou a erupção nesse fim de semana e levou consigo uma mochila cheia de instrumentos para analisar os compostos que jorram na fissura.

“É muito especial estar perto de um local de erupção”, diz Evgenia. Durante o início da erupção, Evgenia foi saudada com uma cacofonia de estrondos e assobios debaixo dos seus pés. “Faz-nos tremer de alto a baixo. É uma coisa muito, muito poderosa. Sentimo-nos muito pequenos e insignificantes”, diz Evgenia.

Contra as indicações das autoridades, milhares de pessoas que vivem na península reuniram-se em torno do local da erupção, tratando as cordilheiras montanhosas como se fossem um anfiteatro. Um grupo de pessoas ficou tanto tempo na região que acabou por se perder no escuro. Também houve quem tentasse fritar ovos e bacon em cima da lava mas, como seria de esperar, sem grande sucesso.

Enquanto os vulcanólogos aproveitam a oportunidade para estudar a erupção, os arqueólogos tentam descobrir se a lava ameaça algum sítio importante. Com base nos registos históricos, os especialistas acreditam que uma sepultura, que aparentemente tem mais de mil anos e que talvez pertença a uma figura notável, pode estar no trajeto da lava. De acordo com as notícias locais, o arqueólogo Oddgeir Isaksen, da Agência de Património Cultural da Islândia, sobrevoou o local de helicóptero logo após o início da erupção, mas não conseguiu encontrar evidências do local antes de a lava invadir a área.

Um século de atividade?

A erupção provavelmente irá diminuir nos próximos dias ou semanas, e os grandes sismos que mantêm as pessoas acordadas também podem diminuir um pouco. “Uma pequena erupção continua a libertar alguma pressão”, diz Thorbjörg Ágústsdóttir.

Mas há indícios de que o fogo de artifício está longe de terminar. “A quantidade de energia sísmica libertada nesta pequena erupção é desproporcionalmente elevada”, diz Dave McGarvie. Pode ter havido uma quantidade significativa de deslocamento tectónico ao longo da península, o que significa que bolsas adicionais de magma ainda podem chegar à superfície.

Com base na história geológica da região e nos estudos de erupções semelhantes noutras partes da Islândia, há a possibilidade de outra erupção numa fissura diferente na península de Reykjanes, diz Evgenia. Mas isso pode acontecer dentro de dias, semanas, meses ou até anos. E pode envolver uma quantidade de magma semelhante à erupção atual ou pode libertar muito mais.

A possibilidade de futuras erupções é enfatizada pelo facto de o tipo de abalo sísmico que levou a esta erupção ter acontecido antes – três vezes nos últimos milhares de anos. Os relatos históricos e as camadas de rocha vulcânica antiga sugerem que, cada vez que esta zona passa por um aumento significativo de sismos, isso culmina em várias décadas de erupções, de fissura em fissura, por toda a península.

Portanto, esta erupção pequena e relativamente inofensiva que está a acontecer agora fornece uma oportunidade de excelência para os cientistas e gestores de emergências se prepararem para as eventuais explosões de lava. “Se isto for o começo”, diz Thorbjörg, “é um bom treino”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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