Está a procrastinar mais? Culpe a pandemia.

Sabemos que é mau adiar tarefas, mas uma batalha evolutiva nos nossos cérebros pode fazer com que procrastinemos – e os confinamentos estão a piorar a situação.

Publicado 9/03/2021, 13:28 WET
Evitar ir dormir

PROCRASTINAÇÃO
A pandemia gerou um aumento na “procrastinação de vingança na hora de dormir”, quando as pessoas ficam acordadas até tarde apesar de saberem as consequências de se vingarem de um longo e stressante dia de trabalho.

Fotografia de Kirill Kudryavtsev, AFP via Getty Images

Fica acordado até tarde para tentar encaixar algumas atividades de lazer após um longo dia de trabalho, ficando exausto no dia seguinte? Está a limpar a casa de banho em vez de responder aos emails do trabalho? É provável que não esteja sozinho. A COVID-19 gerou uma crise global de saúde mental, e isso está a alimentar uma das tendências humanas mais prejudiciais: a procrastinação.

As pessoas que procrastinam não são necessariamente preguiçosas. A procrastinação tem raízes no nosso desenvolvimento evolutivo, com duas partes principais do cérebro a disputarem o controlo.

“A procrastinação é uma estratégia focada na emoção”, diz Tim Pychyl, professor de psicologia na Universidade Carleton, em Otava, Ontário, e autor de Solving the Procrastination Puzzle. “Não é um problema de gestão de tempo; é um problema de gestão de emoções.”

E embora a chegada das vacinas tenha trazido alguma esperança para uma pandemia devastadora que se arrasta há mais de um ano – desde que a Organização Mundial de Saúde a declarou como uma pandemia global – os confinamentos e o isolamento provavelmente vão continuar durante meses, à medida que tentamos construir a imunidade de grupo. Isto faz com que muitas pessoas tentem lidar com receios e frustrações, que muitas vezes permitem que a procrastinação ganhe terreno nos nossos cérebros.

“A procrastinação pode surgir de uma combinação entre problemas de saúde física e mental”, diz Nitin Desai, médico sediado em Fayetteville, na Carolina do Norte. “A pandemia provocou um aumento no stress, ansiedade e depressão, fazendo com que mais indivíduos [sofram] destas condições subjacentes, levando a mais procrastinação.”

Segue-se uma análise sobre a ciência responsável pela procrastinação, como a pandemia tem gerado diferentes formas de comportamento e sobre algumas das estratégias que podemos usar para colocar os nossos cérebros novamente no lugar.

Batalhas cerebrais

Os especialistas que estudam a procrastinação definem-na como um adiamento voluntário de um determinado ato, apesar do facto de sabermos que, a longo prazo, o adiamento dessa tarefa é prejudicial. Sabemos que determinada tarefa não vai desaparecer, mas por vezes deixamos as nossas emoções assumirem o controlo. O nosso “eu do presente” é que manda, e o nosso “eu do futuro” sofre as consequências.

Os neurocientistas revelam que a procrastinação é uma batalha entre uma parte antiga do cérebro, chamada sistema límbico, e uma parte relativamente mais jovem, conhecida por córtex pré-frontal.

O sistema límbico também é conhecido por cérebro paleomamífero, porque os seus componentes desempenham funções nas nossas adaptações de sobrevivência mais fundamentais – através do controlo de comportamentos básicos – como a resposta de “lutar ou fugir”, bem como a procura por emoções e prazer. O sistema límbico está geralmente ligado ao comportamento por impulso e ao desejo de gratificação instantânea.

O córtex pré-frontal evoluiu mais recentemente – os cientistas estimam que esta evolução aconteceu entre há 19 e 15 milhões de anos – e é responsável pelos comportamentos mais complexos, como fazer planos para o futuro, algo que provavelmente beneficiou os nossos antepassados quando precisavam de coordenar caçadas que envolviam o abate de presas maiores e construir civilizações.

Contudo, quando as emoções mais fortes, como a ansiedade e o medo, se tornam demasiado pesadas, o sistema límbico impulsivo consegue ter prioridade. É o que acontece quando adiamos tarefas mais aborrecidas para sentirmos o alívio temporário que conseguimos, por exemplo, quando vemos de seguida uma nova série da Netflix ou experimentamos a receita viral mais recente do TikTok.

Antes da pandemia, os procrastinadores crónicos enfrentavam uma série de efeitos negativos, desde notas negativas na escola a riscos de saúde devido à falta de exercício e às consultas médicas que eram evitadas. E apesar de alguns especialistas argumentarem que a procrastinação pode ser benéfica para a criatividade, Tim Pychyl alerta que não se deve confundir adiamentos deliberados e ponderados com a falha autorregulatória da procrastinação.

“Todas as pessoas querem transformar um vício em virtude”, diz Tim.

Vingança sobre a hora de dormir

Nos primeiros dias da pandemia, tínhamos dificuldades em lidar com o que os especialistas apelidavam de “fadiga da quarentena”, a exaustão que sentíamos para nos adaptarmos às restrições associadas ao vírus. E, à medida que a pandemia se arrasta, mais pessoas ficam vulneráveis ao stress e à incerteza, dando origem à procrastinação.

“A exigência para nos distanciarmos socialmente e ficarmos em casa afetou a nossa capacidade de fazer as coisas que nos permitem manter a concentração, como por exemplo manter um horário regular e criar espaços separados para objetivos específicos”, diz Julianna Miner, professor-adjunta de saúde global e comunitária na Universidade George Mason, na Virgínia, e autora de Raising a Screen-Smart Kid: Embrace the Good and Avoid the Bad in the Digital Age.

Se as pessoas estão realmente a procrastinar mais, Julianna Miner culpa o aumento do teletrabalho e do ensino à distância, que criam desafios na diferenciação entre espaços de trabalho e espaços de relaxamento, bem como uma incapacidade de separar de forma evidente o tempo entre trabalho e descanso. “A inexistência de estruturação é verdadeiramente prejudicial para as pessoas que lutam contra a procrastinação”, diz Julianna.

Robin Hornstein, psicóloga licenciada e formadora certificada de saúde em Filadélfia, concorda com esta afirmação. “As pessoas que agora trabalham em casa estão a perder os marcadores de trabalho que mantêm o dia a fluir”, diz Robin. “Estamos a passar por um stress prolongado e adotamos hábitos que procuram segurança e conforto. Isso pode levar à procrastinação.”

A pandemia parece estar a provocar um aumento do que se chama “procrastinação na hora de dormir”, um termo cunhado por um estudo feito em 2014 por investigadores da Universidade de Utrecht, na Holanda. Neste tipo de procrastinação, as pessoas adiam o sono para se dedicarem ao lazer. Em 2020, os utilizadores chineses de redes sociais rebatizaram este termo para “procrastinação de vingança sobre a hora de dormir” – referindo-se às pessoas que, para se vingarem do dia de trabalho, ficam acordadas para se divertirem – e este termo tornou-se viral no Twitter.

Um estudo de 2019 publicado revista Frontiers in Neuroscience sugeria que as mulheres em particular são propensas à procrastinação na hora de dormir – um problema que agora pode ser exacerbado pelas exigências adicionais sobre o tempo que as mulheres normalmente têm, sobretudo durante a pandemia. O envolvimento crónico neste tipo de comportamento pode ter consequências graves, porque a falta de sono cria problemas de saúde física e mental.

A “procrastinação produtiva”, outro dos termos agora na moda devido à pandemia, refere-se aos momentos em que as pessoas evitam uma tarefa para completar outra, como por exemplo adiar um projeto do trabalho mais complicado para limpar a casa de banho. Embora isto não pareça prejudicial, porque estamos a fazer uma tarefa e alcançamos um determinado nível de produtividade, na realidade é uma coisa negativa. O projeto de trabalho vai ter de ser feito e adiá-lo só aumenta os níveis de stress.

Tim Pychyl, da Universidade Carleton, acredita que “procrastinação produtiva” não é apenas um paradoxo, mas sim outro exemplo onde os humanos tentam transformar um vício em virtude.

Pequenos passos a dar

Embora a procrastinação possa ser uma tendência difícil de combater, os especialistas dizem que há coisas que podemos fazer para evitar cair nesse tipo de armadilha mental.

Os estudos mostram que o mindfulness e a autocomiseração podem ajudar a  combater a procrastinação, talvez porque estas práticas visam ultrapassar as emoções negativas. Num estudo publicado em 2018 na revista Mindfulness, os cientistas descobriram que as pessoas que conseguiam reconhecer os seus erros ou outras falhas pessoais, e depois se conseguiam perdoar pelos mesmos, tinham menos probabilidades de procrastinar. Da mesma forma, um estudo publicado em 2020 na International Journal of Applied Positive Psychology descobriu que as pessoas que praticavam exercícios simples de mindfulness tinham mais propensão para se manterem concentradas nas suas tarefas.

“Estamos a passar por um stress prolongado e adotamos hábitos que procuram segurança e conforto. Isso pode levar à procrastinação.”

por ROBIN HORNSTEIN, HORNSTEIN PLATT & ASSOCIATES

A um nível mais prático, Tim Pychyl sugere que as pessoas não se deviam sobrecarregar sozinhas com projetos enormes de trabalho, mas sim descobrir um limite mais razoável para dar o primeiro passo. Quando nos concentramos em dar apenas um pequeno passo, fazemos com que o nosso cérebro olhe apenas para uma ação, não para todas as emoções associadas.

Julianna Miner aconselha as pessoas que lutam contra a procrastinação a tentarem descobrir o que as ajudou a serem produtivas no passado. Para Julianna, “criar uma camada de responsabilidade pode ajudar”. É por esta razão que muitas universidades criaram grupos de responsabilidade para os alunos que procrastinam.

“Para as pessoas que não conseguem trabalhar sozinhas, podem experimentar um site de parceria de responsabilidade como o Focus Mate”, acrescenta Robin Hornstein. “Faça com que um colega de trabalho seja o seu parceiro de responsabilidade e celebrem os sucessos em conjunto, e peça ajuda para conseguir fazer as coisas que ficaram para trás.”

Robin também incentiva as pessoas a serem responsáveis e a organizarem e priorizarem as listas de tarefas pendentes – criando também um sistema de recompensas para as tarefas concluídas. Os estudos demonstram que as recompensas, mesmo que sejam relativamente pequenas, como uma curta caminhada ao ar livre ou uma gulodice, podem motivar as pessoas a concentrarem-se no trabalho.

Contudo, há vários especialistas que alertam que, se uma pessoa estiver mesmo a enfrentar dificuldades para combater a procrastinação, isso pode dever-se a problemas mais sérios de saúde mental: “A procrastinação pode ser um sintoma ou um comportamento não adaptativo de uma condição médica subjacente, como ansiedade, PDAH, PSPT ou depressão”, diz Nitin Desai. “Uma boa avaliação médica com testes psicológicos pode ser o primeiro passo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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