Por que razão o nosso braço pode ficar dorido após uma vacina

Dores e erupções cutâneas são respostas normais à injeção de substâncias estranhas no nosso corpo. Mas a quantidade de dor que sentimos após uma injeção depende de vários fatores.

Publicado 29/03/2021, 15:27 WEST
vacinação

As dores ou até mesmo erupções cutâneas provocadas por uma vacina dependem de vários fatores.

Fotografia de Simon Lambert, HAYTHAM-REA, Redux

Para a maioria das pessoas que recebe a vacina contra a COVID-19, a picada da agulha é quase insignificante. Contudo, nas horas seguintes, muitas pessoas ficam com os braços doridos, de acordo com relatos e dados publicados.

Este efeito secundário comum não é exclusivo das vacinas COVID-19. Mas, à medida que os países realizam as suas primeiras campanhas de vacinação, a prevalência generalizada de dores no braço está a levantar questões sobre as razões que levam a que determinadas injeções possam doer tanto, porque é que algumas pessoas sentem mais dores do que outras e por que razão algumas não sentem sequer quaisquer dor.

De acordo com os especialistas, as dores no braço e até mesmo as erupções cutâneas são respostas normais à injeção de substâncias estranhas no nosso corpo. “Esta reação é exatamente o que esperaríamos de uma vacina que tenta imitar um patógeno sem provocar a doença”, diz Deborah Fuller, vacinologista da Escola de Medicina da Universidade de Washington, em Seattle.

Dadas as várias complexidades do sistema imunitário e peculiaridades individuais, não sentir dor também é normal, diz William Moss, epidemiologista e diretor executivo do Centro Internacional de Acesso a Vacinas da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins, em Baltimore. “As pessoas podem desenvolver respostas imunitárias protetoras e não ter esse tipo de reação local”, diz William.

Os sinais de perigo

Há uma variedade de vacinas que são conhecidas pela dor que provocam no local da injeção, e a explicação para o porquê começa com as chamadas células apresentadoras de antígenos. Estas células estão constantemente à espreita nos nossos músculos, pele e outros tecidos E quando detetam um invasor estranho, desencadeiam uma reação em cadeia que eventualmente produz anticorpos e uma proteção duradoura contra patógenos específicos. Este processo, conhecido por resposta imunitária adaptativa, pode demorar uma ou duas semanas a arrancar em pleno.

Porém, passados poucos minutos, ou até mesmo segundos, após uma vacinação ou deteção de um vírus, as células apresentadoras de antígenos também enviam “sinais de perigo” que, de acordo com William Moss, informam que há ali algo de errado e que deve ser expulso.

Esta reação veloz, conhecida por resposta imunitária inata, envolve uma série de células imunitárias que chegam ao local e produzem proteínas como citocinas, quimiocinas e prostaglandinas, que recrutam ainda mais células imunitárias e desencadeiam todos os tipos de efeitos físicos, diz Deborah Fuller. As citocinas dilatam os vasos sanguíneos para aumentar o fluxo sanguíneo, provocando inchaço e vermelhidão. Este processo também pode irritar os nervos, causando dor. As citocinas e as quimiocinas induzem inflamação, que também é dolorosa. As prostaglandinas interagem diretamente com os recetores locais de dor.

Mas a resposta imunitária inata não se fica pelo braço. Para algumas pessoas, este mesmo processo inflamatório também pode provocar febre, dores corporais, dores nas articulações, erupções cutâneas ou dores de cabeça.

O motivo pelo qual algumas vacinas provocam mais sintomas do que outras – uma tendência chamada reatogenicidade – deve-se às estratégias e ingredientes que cada vacina emprega. Por exemplo, a vacina contra o sarampo, papeira e rubéola (MMR) é composta por formas vivas e enfraquecidas dos vírus que provoca intencionalmente uma forma ligeira de infeção e estimula a resposta imunitária inata do corpo, dando origem a uma variedade de sintomas, incluindo braços doridos. Outras vacinas, incluindo algumas vacinas contra a gripe, introduzem vírus inativados. A vacina contra a hepatite B apresenta partes do vírus juntamente com químicos chamados adjuvantes que são projetados para agitar as células apresentadoras de antígenos e aumentar a resposta imunitária adaptativa.

Estas substâncias, diz Deborah, são o primeiro gatilho que o nosso corpo obtém para perceber que se passa algo e que precisa de reagir.

Perfis de braço dorido

Nos EUA, as três vacinas COVID-19 aprovadas pela agência FDA são administradas através de uma injeção no braço e todas provocam o mesmo tipo de dor aguda que se faz acompanhar por uma picada rápida. De acordo com os dados compilados pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, após a injeção, os perfis de dores no braço variam.

Após a primeira dose do regime de duas doses da vacina da Moderna, 87% das pessoas com menos de 65 anos, e 74% das pessoas com 65 anos ou mais, relataram sensações de dor localizada, ecoando investigações que revelam um declínio na reatividade imunitária relacionada com o avançar da idade. Depois da segunda injeção, estes números aumentaram para os 90% na faixa etária mais jovem e 83% nas pessoas mais velhas.

A primeira dose da vacina da Pfizer também deu origem a muitos braços doridos durante os ensaios – em 83% das pessoas com até 55 anos e em 71% das pessoas mais velhas. As dores da segunda dose ocorreram em 78% do grupo mais jovem e em 66% do grupo mais idoso.

A vacina de dose única da Johnson & Johnson provocou menos dores no braço – em 59% das pessoas com menos de 60 anos e em 33% das pessoas mais velhas.

As taxas elevadas de dores no braço verificadas nas vacinas da Pfizer e da Moderna podem estar relacionadas com a tecnologia que usam, diz Deborah. Ao contrário da vacina da Johnson & Johnson, que usa um vírus modificado para entregar um gene que direciona as nossas células para fazer a proteína espigão do SARS-CoV-2, as da Pfizer e da Moderna fornecem instruções para as células fazerem a proteína via mRNA. Os investigadores sabem há muito tempo que o RNA, que alguns vírus usam para transportar o seu material genético, é um gatilho potente do sistema imunitário inato.

Deborah diz que, de facto, quando os cientistas começaram a considerar o mRNA como uma estratégia de vacina há cerca de 30 anos, essa ideia foi em parte rejeitada por se recear que podia estimular em excesso as vias inflamatórias. E também era demasiado instável para funcionar. Os avanços recentes na capacidade de modificar o mRNA e de o encapsular em revestimentos de nanopartículas lipídicas tornaram possível esta nova geração de vacinas, mas as reações adversas comuns permanecem relativamente elevadas. O próprio revestimento de nanopartículas atua como um adjuvante que provavelmente contribui para as reações locais, acrescenta Deborah.

Uma reação mais surpreendente

Em dezembro, pouco depois de a vacina da Moderna ter sido aprovada, a alergologista e investigadora Kimberly Blumenthal começou a receber fotografias de braços de pacientes enviadas por colegas que trabalham no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston. As fotografias mostravam enormes manchas vermelhas em torno dos locais de vacinação. Algumas pessoas desenvolveram uma segunda erupção cutânea por baixo da primeira. Outras tinham marcas vermelhas em forma de alvos com anéis. Algumas das erupções cutâneas apareceram em cotovelos e mãos.

Depois de compilar mais de uma dezena de imagens, Kimberly Blumenthal escreveu uma carta à revista New England Journal of Medicine com o objetivo de alertar os médicos – e para os tranquilizar – sobre as potenciais reações tardias à vacina. Alguns médicos prescreviam antibióticos para as supostas infeções, mas o padrão que Kimberly viu sugeria que não eram necessários antibióticos.

Ao contrário da reação anafilática rara e perigosa que pode acontecer imediatamente após uma injeção, as erupções cutâneas tardias geralmente não requerem tratamento, diz Kimberly. Com os dados da biopsia de um paciente, Kimberly e os seus colegas encontraram uma variedade de células T, sugerindo um tipo de hipersensibilidade. As erupções cutâneas tardias também surgem ocasionalmente após outras vacinas e podem ser um sinal de hipersensibilidade ou uma reação normal da resposta imunitária. Os investigadores ainda não sabem exatamente o que está a acontecer com a vacina da Moderna. Contudo, neste caso, as respostas podem parecer normais dado que muitas pessoas estão a ser vacinadas ao mesmo tempo.

Ainda assim, as erupções cutâneas tardias podem ser mais comuns do que os dados oficiais sugerem. Nos ensaios clínicos, a Moderna relatou estes sintomas em 0.8% dos voluntários quatro ou mais dias após a primeira dose, e em 0.2% após a segunda dose. Mas as erupções cutâneas tardias tendem a aparecer em média sete ou oito dias após a injeção, e os ensaios iniciais não foram projetados para detetar todos os sintomas que possam surgir tardiamente,  provavelmente porque não eram expectáveis.

Kimberly criou um registo para os médicos relatarem erupções cutâneas tardias e está trabalhar num registo semelhante para pacientes, para compreender a extensão da sua aparência e detetar quaisquer padrões que possam ser mais preocupantes. “Desde que publicámos isto”, diz Kimberly, “a minha caixa de e-mail tem sido inundada com fotografias”.

Quem sente dor?

Entre as pessoas que conheço e que já foram vacinadas, algumas sentiram pouca ou nenhuma dor. Outras não conseguiram dormir durante dias devido às dores. Um dos meus amigos que levou a vacina da Pfizer disse-me que sentiu como se tivesse levado um soco de um pugilista profissional.

Para os sintomas como dores no braço, a variação individual é a norma, e os estudos sugerem várias explicações. A idade pode diminuir as reações imunitárias, por exemplo, assim como um índice de massa corporal mais elevado, de acordo um estudo de pré-impressão.

A genética provavelmente também desempenha um papel de formas variadas e complexas, dizem os especialistas. E o género também é importante. Para além de uma vasta literatura sobre diferenças sexuais e imunidade, as mulheres parecem sentir mais os efeitos secundários do que os homens na resposta à vacina COVID-19, de acordo com evidências emergentes, embora os homens pareçam sofrer impactos maiores do próprio vírus.

A perceção de dor é outro fator importante. Todas as pessoas processam os sinais de dor de formas diferentes. E o medo e a ansiedade podem exacerbar os sentimentos de dor, diz Anna Taddio, professora de farmacologia que estuda as dores relacionadas com procedimentos médicos em crianças na Universidade de Toronto.

O estudos mostram que o medo de agulhas é uma barreira importante para a vacinação de um número significativo de pessoas. Num estudo feito por Anna Taddio e colegas em 2012, cerca de 25% dos adultos relataram ter medo de agulhas. De acordo com uma nova análise de 119 estudos publicados, 16% dos adultos e 27% dos funcionários de hospitais evitaram as vacinas contra a gripe por recearem agulhas.

Entre os esforços para se vacinar a população o mais rápido possível, as autoridades de saúde pública negligenciam muitas vezes as oportunidades para tornar essa experiência mais positiva, diz Anna, que desenvolveu uma abordagem para reduzir o medo e promover capacidades que ajudem a melhorar a experiência de vacinação.

Aparentemente, existem muitas abordagens simples para fazer com que as pessoas se sintam menos ansiosas por causa das agulhas. As estratégias mais simples e úteis, de acordo com a abordagem de Anna, podem incluir a sensibilização das pessoas para usarem uma camisa de manga curta quando se vão vacinar, para facilitar o acesso aos braços; permitir que as pessoas levem alguém que sirva de apoio; encorajar a utilização de distrações; respirar profundamente e usar anestesias locais; fazer com que as pessoas façam perguntas para se sentirem informadas e preparadas.

Anna também diz que os profissionais de saúde deviam falar sobre as vacinas em termos neutros – enfatizando a capacidade de obter proteção contra o coronavírus em vez de assustarem as pessoas com frases como “injeções nos braços”.

“Podemos falar o tempo que quisermos sobre vacinas COVID e sobre como são seguras, mas não estamos a abordar o problema subjacente para um grande número de pessoas”, diz Anna. “Quando é que se ouve dizer que vão tentar fazer este processo mais confortável?”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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