Porque razão os machos têm de esperar para fazer sexo novamente? Uma teoria refutada

A teoria dominante e divulgada, inclusive nos materiais escolares, é agora colocada em causa. Afinal, a hormona prolactina parece não ser a responsável pelo período refratário pós-ejaculatório masculino.

Publicado 11/03/2021, 11:38
Um rato caminha numa passadeira durante um estudo científico.

Um rato caminha numa passadeira durante um estudo científico.

Fotografia de CHARLIE HAMILTON JAMES

A hormona prolactina sempre foi apontada como indutora do período refratário pós-ejaculatório masculino. Esta hormona encontra-se envolvida em centenas de processos fisiológicos no nosso corpo. Entre eles, depara-se no início do período de ejaculação do homem e, termina quando este recupera novamente a sua capacidade sexual.

A expressão da hormona liga-se a um único recetor de membrana, membro da superfamília de recetores de citocinas. Os recetores da prolactina são expressos em diversos tecidos e órgãos, como a mama, hipófise, próstata, ovários, testículos, intestino, epiderme, ilhéus pancreáticos, cérebro e linfócitos.

A hormona prolactina representa o seu papel na reprodução, crescimento e desenvolvimento, osmorregulação, metabolismo, regulação imunitária, função cerebral, comportamento e angiogénese. Para além destas, a prolactina pode estar também envolvida no desenvolvimento de algumas doenças, como nos carcinomas da mama e da próstata, assim como, doenças autoimunes.

Da produção de leite ao sistema reprodutor masculino

Esta hormona foi descoberta há cerca de 80 anos, como uma hormona hipofisária distinta, que estimulava a produção de leite em vários animais. A função mais conhecida da hormona prolactina é a lactação, embora seja uma hormona muito versátil.

Existem várias evidências que indicam que a hormona prolactina influência o comportamento reprodutor. No entanto, novos estudos indicam que a libertação desta hormona durante a ejaculação do homem poderá, afinal, não ser o fator principal responsável pelo período refratário.

A teoria até então dominante é questionada pelas investigadoras Susana Lima e Susana Valente, investigadoras da Fundação Champalimaud, cujo resultado da investigação coloca também dúvida sobre os tratamentos que propõem reduzir o período refratário dos homens, através da redução dos níveis de prolactina.

Apesar de reconhecerem a importância da hormona no comportamento sexual masculino, defendem que a probabilidade de a prolactina ser a causa do período refratário é muito reduzida.

A teoria é refutada

A investigação teve por objetivo esmiuçar os mecanismos biológicos através dos quais a hormona prolactina, que está normalmente associada à produção de leite nas mulheres, estaria a provocar o período de refração. A pesquisa veio contrapor a teoria, indicando que não existe uma ligação direta entre a hormona e o período refratário pós-ejaculação.

A equipa de investigadores utilizou ratos nas suas experiências, uma vez que a sequência do comportamento sexual é muito semelhante à do homem. Sob observação, registou um aumento dos níveis de prolactina durante a atividade sexual destes animais.

Com apoio destes, foi possível testar várias estirpes, que apresentam desempenhos sexuais diferentes. Foram utilizadas duas estirpes diferentes, sendo que uma tinha um período refratário curto e, outra, um período que durava vários dias.

A manipulação da hormona prolactina em ratos 

Através das amostras de sangue foi possível analisar se os níveis da hormona prolactina aumentavam durante a atividade sexual dos ratos machos, sendo medidas durante as diferentes fases do comportamento sexual. De facto, os níveis aumentaram significativamente durante a interação sexual.

Uma vez confirmada esta premissa, avançaram com a manipulação dos níveis de prolactina, antes de os animais ficarem sexualmente excitados. O aumento foi feito artificialmente, antes da atividade sexual e, o esperado seria uma inibição no comportamento dos ratos machos, mas tal não aconteceu.

Em suma, a inibição da hormona prolactina também não resultou numa recuperação mais rápida da capacidade sexual pós-ejaculatória dos animais, ou seja, a manipulação não mostrou qualquer efeito sobre o comportamento sexual, nas duas estirpes.

Em seguida, foi testado o efeito oposto no período refratário, procurando avaliar se os animais, sem a hormona prolactina, ficariam sexualmente mais ativos. A resposta revelou-se negativa. A resposta obtida indica que, se a hormona fosse mesmo necessária para o período refratário, então os machos sem a prolactina, após a ejaculação, deveriam recuperar mais rapidamente a sua capacidade sexual.

As investigadoras da Fundação Champalimaud, que publicaram o artigo na revista científica Communications Biology, vêm interrogar a teoria até então conhecida, aceite de tal forma que integra os manuais escolares. O objetivo da equipa passa por progredir na investigação, explorando o que realmente está na base deste processo fisiológico, que representa o período refratário dos homens.

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados