A chamada ‘fadiga Zoom’ pode ficar connosco durante anos

Uma nova investigação mostra como os empregadores e empresas de tecnologia podem manter os aspetos positivos do trabalho à distância enquanto reduzem o desgaste psicológico, sobretudo nas mulheres.

Publicado 23/04/2021, 12:25
fadiga Zoom

Demasiadas videoconferências podem dar origem ao que agora se chama “fadiga Zoom”.

Fotografia de Stefan Wermuth, Bloomberg via Getty Images

As ferramentas de videoconferência tornaram-se na plataforma padrão para uma interação humana socialmente distante, sobretudo para muitas das pessoas que já trabalhavam em escritórios. Algumas empresas estão agora a assumir o compromisso de oferecer o trabalho remoto como uma opção, mesmo após o fim da pandemia. Mas depois de mais de um ano a viver e a trabalhar online, a sociedade está a enfrentar um tipo peculiar de exaustão, conhecido por “fadiga Zoom”, que se segue a um longo dia de videoconferências.

Uma nova investigação publicada no início de abril revela algumas das primeiras conclusões suportadas por dados sobre a fadiga Zoom e oferece uma visão abrangente das causas. E também revela que o peso da fadiga Zoom não é distribuído de forma equitativa. Numa sondagem com mais de 10.000 participantes, publicada na plataforma de partilha de investigações conhecida por SSRN, as mulheres relataram sentir cerca de 13.8% mais fadiga Zoom do que os homens.

Géraldine Fauville, primeira autora da investigação e especialista em realidade virtual e comunicação na Universidade de Gotemburgo, na Suécia, afirma que “uma das funções da ciência é ajudar a identificar estes tipos de desigualdades, e depois, com base na ciência, a sociedade e as empresas podem usar esse conhecimento para lidar com estas questões.”

Por exemplo, o trabalho da equipa de Géraldine mostra que os longos dias de videochamadas com poucos intervalos podem provocar fadiga Zoom. A janela com a nossa própria imagem, a multidão de rostos no ecrã, a ansiedade em estar visível para a câmara e a falta de indicadores não verbais também sobrecarregam o cérebro. Agora que se sabe o que está a desencadear o problema, existem etapas que os gestores e criadores de tecnologia podem seguir para aliviar este fardo.

Um ano de adaptação

Não há dúvidas de que o trabalho remoto tem as suas vantagens: dispensa deslocações, oferece flexibilidade para se lidar com as tarefas domésticas e acesso fácil às conferências para todos os trabalhadores, incluindo pessoas com deficiências. O teletrabalho também possibilitou trabalhos críticos relacionados com a pandemia. Em São Francisco, Andrea Nickerson treina investigadores para casos de COVID-19 – pessoas que fazem rastreios de contactos – através de aulas semanais via Zoom.

Num dia agitado, Andrea pode passar cinco ou seis horas em videoconferências. É raro não ter pelo menos uma chamada. “Ao final do dia, o que eu mais quero é fechar o computador e colocá-lo num lugar onde não tenha de olhar para ele”, diz Andrea.

Quando as pessoas começaram a ter conversas generalizadas sobre fadiga Zoom, os cientistas que se especializam nas interações entre humanos e tecnologia começaram a estudar seriamente o fenómeno.

Primeiro, criaram uma ferramenta para medir a fadiga, a que chamaram Escala de Exaustão e Fadiga Zoom, ou EFZ. Depois, fizeram uma sondagem pública e reuniram mais de 10.000 respostas que mediram a fadiga das pessoas nesta escala EFZ, juntamente com estatísticas sobre o tempo que cada pessoa passa na aplicação Zoom e informações demográficas.

Os dados confirmaram o que muitos já suspeitavam: passar mais tempo em videochamadas, com menos tempo de transição entre cada chamada, provoca mais fadiga Zoom. Os resultados também identificaram quatro fatores que os teletrabalhadores precisam de lidar durante as videoconferências.

Em primeiro lugar, a falta de indicações não verbais é stressante porque as pessoas não conseguem transmitir ou interpretar naturalmente os gestos e a linguagem corporal quando só conseguem ver os ombros e as cabeças dos colegas. As pessoas podem compensar exagerando os seus próprios gestos, como levantar dramaticamente o polegar em sinal de aprovação, enquanto se esforçam para compreender o estado de espírito dos colegas.

Durante as videochamadas, as pessoas dizem que se sentem presas numa posição para poderem ficar visíveis, aumentando os níveis de stress.

Muitas das ferramentas de videoconferência mostram aos utilizadores a sua própria janela de vídeo, e os investigadores descobriram que este reflexo constante em tempo real pode provocar o que se conhece por ansiedade do espelho. Esta condição é uma autoconsciência stressante que provoca distrações e que tem sido associada ao aumento de ansiedade e depressão.

Por fim, o artigo descreve o “olhar fixo”, uma sensação intensa de que as outras pessoas na chamada estão olhar para nós, porque o ecrã de videoconferência mostra todas as pessoas a olharem para as suas câmaras, independentemente de quem estejam realmente a focar. Isto pode ser ainda pior nas reuniões individuais, quando o rosto dos nossos colegas aparecem enormes no ecrã, como se estivessem a menos de meio metro de distância.

“Este tipo de proximidade física simulada pela videoconferência é percebida pelo cérebro como uma situação que ou levaria ao acasalamento ou ao conflito”, diz Géraldine Fauville. “Isto é muito intenso para o cérebro.”

Diferenças e discrepâncias

De acordo com a investigação, as mulheres passam mais tempo por dia do que os homens em reuniões, e com intervalos mais curtos entre cada chamada. As mulheres também apresentam níveis mais elevados de ansiedade do espelho e sentem-se mais presas pelas videochamadas – os dois indicadores mais fortes de uma elevada fadiga Zoom.

“As investigações feitas anteriormente mostraram que [a ansiedade do espelho] parece aplicar-se mais às mulheres do que aos homens. Portanto, esta também é uma das razões pelas quais decidimos olhar para o género”, diz Géraldine. “Em relação ao motivo pelo qual as mulheres se sentem mais presas durante as chamadas, não sabemos. Isso é uma espécie de passo seguinte, compreender as raízes desses mecanismos.”

A sondagem também mostrou que as pessoas de cor tendem a relatar maior fadiga Zoom do que as pessoas caucasianas, embora este efeito seja muito menor do que a diferença contabilizada por género.

O artigo ainda não foi revisto por pares, “mas é excelente na metodologia... baseia-numa teoria bastante sólida”, diz Rabindra Ratan, especialista em interação humano-tecnologia na Universidade Estadual do Michigan que não participou no estudo.

Há muitas questões por responder sobre os impactos psicológicos do teletrabalho e sobre a ligação com outras pessoas através de videoconferências. Por exemplo, até agora, há poucas investigações suportadas por dados sobre como é que as pessoas com deficiências têm sido impactadas pela adoção generalizada do teletrabalho. Contudo, a escala EFZ está disponível gratuitamente para outros cientistas, e há trabalhos a decorrer para a traduzir para mais idiomas, pelo que Géraldine espera que os investigadores a consigam aplicar nos seus próprios estudos.

Flexibilidade e ligação

Curiosamente, parecem existir benefícios na utilização deste tipo de tecnologia para trabalhar em casa.

Rabindra Ratan mudou-se para a Califórnia durante a pandemia porque podia conduzir investigações e dar aulas virtualmente. Rabindra e Géraldine também descobriram que, durante a pandemia, foi mais fácil colaborar com colegas internacionais, porque as pessoas já não se sentem constrangidas quando iniciam conversas à distância.

Para muitos, os benefícios do teletrabalho vão para além da recém-descoberta conveniência. A desestigmatização em torno do trabalho à distância significa que Zahra Khan, uma engenheira de sistemas no sul da Califórnia, conseguiu encontrar um trabalho remoto que lhe permite gerir os sintomas da sua deficiência, que afetam a sua audição e níveis de energia. Zahra faz videochamadas durante três a quatro horas por dia no Google Hangouts, que suporta legendas automáticas. E também tem flexibilidade para tomar a sua medicação ou descansar conforme precisa.

“Tem sido muito melhor para gerir os meus níveis de energia e sintomas de saúde, e até mesmo para me manter hidratada”, diz Zahra. “Isto era algo que eu queria no meu antigo emprego, mas que não estava disponível.”

Na primavera passada, a velocidade com que os empregadores descobriram formas de criar espaços de teletrabalho levou à criação da hashtagDisabledAndSaltyAF” no Twitter. Pessoas com deficiências usaram esta hashtag para partilhar histórias sobre as vezes em que os empregadores as expulsaram dos locais de trabalho, recusando-se a fornecer trabalho remoto como uma opção. A mudança para o teletrabalho durante a pandemia parece uma prova de que estas opções podiam ter sido consideradas desde sempre.

Agora, algumas pessoas estão preocupadas com o que pode acontecer quando as restrições forem levantadas e as pessoas sem deficiências se sentirem confortáveis para sair de casa novamente.

“Assim que as coisas começarem a ‘regressar ao normal’, muito disto pode desaparecer”, diz Zahra. “E isso é muito assustador.”

Soluções para o futuro

Daqui para a frente, os empregadores podem adotar uma abordagem híbrida quando for seguro retomar o trabalho presencial. A cultura de escritório pode tornar-se mais flexível, permitindo que algumas pessoas participem fisicamente nas reuniões, enquanto que outras participam por vídeo ou telefone. E as novas descobertas apontam para soluções que tanto funcionários como gestores podem usar para prevenir a fadiga Zoom.

Géraldine comprou uma secretária elevada para reduzir a sensação de estar presa, ficando assim de pé e tendo um movimento mais natural durante as videochamadas. Para reduzir o cansaço visual, que é um efeito mensurável da fadiga Zoom na escala EFZ, Andrea Nickerson usa um filtro cor de laranja no seu ecrã.

Mas Géraldine enfatiza que “a responsabilidade de lidar com a fadiga Zoom não deve ser colocada sobre os indivíduos, já que isso poderia simplesmente aumentar as desigualdades”.

Em vez disso, os investigadores esperam que os empregadores usem os resultados dos estudos para criar políticas padrão que protejam todos da fadiga Zoom. Por exemplo, isto pode exigir um dia por semana sem videochamadas, exigir intervalos de 10 minutos entre cada reunião ou considerar de forma ponderada qual é a melhor ferramenta a usar numa reunião. Por vezes, as videoconferências são a melhor ferramenta porque oferecem legendas automáticas ou a partilha de ecrã. Mas, muitas vezes, um telefonema, uma mensagem de texto ou um email é o suficiente.

As empresas que desenvolvem aplicações de videoconferência também podem alterar as suas ferramentas para reduzir a fadiga Zoom.

“A solução mais fácil é fazer com que a nossa própria presença não seja tão proeminente”, diz Jeremy Bailenson, um dos principais autores do estudo SSRN e fundador do Laboratório de Interação Humana Virtual da Universidade de Stanford. Jeremy sugere que, por predefinição, a nossa janela deve desaparecer passados alguns segundos para reduzir a ansiedade do espelho.

Jeremy acrescenta que as empresas de videoconferência também podem abordar o chamado “olhar fixo” calculando a distância percebida entre o utilizador e o seu parceiro de videochamada e, de seguida, limitar o tamanho máximo de exibição das suas cabeças no ecrã.

A fadiga Zoom pode continuar a afetar quem está em teletrabalho, sobretudo mulheres e pessoas de cor, dependendo das escolhas que as empresas fazem para o evitar, diz Rabindra. “Mas as pessoas parecem estar agora a aceitar o teletrabalho mais do que nunca.”

“Talvez tenhamos sido obrigados a avançar 10 anos em relação ao uso de algumas destas tecnologias para trabalhar remotamente, para a educação e saúde em geral. Portanto, creio que a sociedade está pronta para isto. ”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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