Pode uma nova aplicação prever a próxima pandemia?

Os cientistas dizem que é apenas uma questão de tempo até que outro vírus mortal salte de um animal para os humanos e se torne viral. Uma nova base de dados global tenta classificar os riscos apresentados pela vida selvagem.

Publicado 9/04/2021, 11:55
pangolim-malaio

Um pangolim-malaio fotografado no Parque Nacional Cuc Phuong, no Vietname.

Fotografia de Suzi Eszterhas, Minden Pictures

Quando questionados sobre a possibilidade de futuras pandemias, os virologistas raramente medem as palavras: está outra a caminho. A questão é, quando?

De facto, estima-se que existam cerca de 1.7 milhões de vírus em mamíferos e aves, e quase metade pode seguir a trajetória mortal do coronavírus responsável pela disseminação da COVID-19, o que significa que podem saltar de um animal para os humanos e dar início a outra pandemia.

Encontrar maneiras de o prevenir é a motivação de uma equipa de investigadores da Universidade da Califórnia em Davis. Esta equipa está a tentar ajudar cientistas de todo o mundo a determinar o quão perigoso cada vírus pode ser, classificando a sua probabilidade de transmissão entre espécies e evolução para uma forma que os humanos propaguem facilmente entre si. Este fenómeno pouco compreendido, designado “transbordo viral”, tem um longo historial de surtos, incluindo o Ébola, MERS, SARS e VIH, o vírus que provoca a SIDA.

A equipa lançou uma ferramenta baseada na web chamada SpillOver. Esta aplicação avalia 32 fatores de risco – como espécies de vírus, espécies hospedeiras e o país de deteção – para gerar uma pontuação de risco de transbordo viral. “Analisamos os vírus com transmissibilidade conhecida de animais para humanos e os que foram descobertos recentemente”, diz Zoe Grange, que trabalhou no projeto enquanto ecologista pós-doutorada em doenças de vida selvagem na Universidade da Califórnia. Ao sinalizar os chamados “vírus preocupantes”, esta base de dados, que está disponível publicamente, tem como objetivo criar uma lista de observação para cientistas e legisladores.

Zoe Grange e a sua orientadora, Jonna Mazet, epidemiologista na Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Califórnia, tiveram a ideia de criar uma ferramenta de classificação durante uma caminhada pela praia na primavera de 2017. Zoe diz que se interrogaram: “Porque é que não podemos criar um relatório de crédito para vírus?”

Esta ferramenta é uma tentativa para compreender a vaga de relatórios sobre novas sequências de vírus animais recolhidas em parte para o projeto PREDICT, um projeto de 238 milhões dólares gerido pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional entre 2009 e 2019. Num reconhecimento premonitório pré-COVID19 das ameaças de vírus de vida selvagem, o programa criou um exército global de 6.800 caçadores de vírus em 35 países. Alguns funcionários recolheram sangue, saliva, urina ou fezes de morcegos, roedores e primatas, enquanto que outros analisaram as sequências genéticas dessas amostras.

O trabalho resultou na descoberta de 900 novos vírus, incluindo 160 coronavírus e uma estirpe de Ébola até então desconhecida. A equipa também detetou 18 vírus zoonóticos previamente conhecidos, como o Lassa e o Marburg, que provocam febres hemorrágicas. “Descobrimos muitos vírus. Mas o que é que isso nos diz?” pergunta Zoe, que agora é cientista-chefe na Public Health Scotland. “Nem todos os vírus irão provocar uma pandemia.”

A base de dados da aplicação SpillOver está configurada de uma forma que permite aos investigadores adicionar os seus próprios relatórios. “Queríamos fazer uma ferramenta que todos pudessem usar. Os investigadores podem adicionar as suas descobertas sobre vírus e fazer as suas próprias classificações”, diz Jonna Mazet.

Num estudo publicado no início de abril, investigadores liderados por Zoe Grange e a sua equipa na Universidade da Califórnia usaram dados de quase 75.000 animais, bem como registos públicos de deteções de vírus, para classificar o potencial de transbordo de 887 vírus de vida selvagem. O SARS-CoV-2, que é o vírus responsável pela COVID-19, ficou em segundo lugar – em relação à probabilidade de provocar doenças e se propagar entre as populações humanas. Embora os dados tenham sido baseados em relatórios limitados do vírus em tigres, leões e visons de zoológicos, serviram como prova de que a ferramenta de classificação funciona. Agora, a Organização Mundial de Saúde acredita que o SARS-CoV-2 provavelmente passou para os humanos a partir de um morcego, ou através de um animal intermediário, como um pangolim. O vírus com a pontuação de risco mais elevada foi o Lassa, que é endémico na população de roedores de África Ocidental e provoca febre hemorrágica, matando 1% das vítimas.

Ameaça crescente de transbordo viral

Ao contrário de outras ferramentas que avaliam o risco de um número limitado de vírus, como a gripe, esta base de dados concentra-se em 26 famílias de vírus de vida selvagem. É um recurso bem-vindo para este campo, porque o ritmo de transbordo viral está a acelerar, diz Raina Plowright, ecologista de vida selvagem da Universidade Estadual do Montana, que estuda a dinâmica de doenças entre as populações humana e animal.

“Gosto do facto de eles pensarem de forma muito ampla sobre os fatores de risco, em particular as tensões no ecossistema onde o reservatório hospedeiro reside e a interação potencial que os humanos têm com esses hospedeiros”, diz Raina. “Estamos a invadir os últimos espaços selvagens e a entrar em contacto com a vida selvagem, retirando os recursos essenciais que os animais precisam para sobreviver.” Quando o habitat é limitado, os animais são forçados a entrar em áreas mais povoadas para procurar alimento. Tal como acontece com os humanos, quando os animais estão stressados, são mais vulneráveis a doenças e à propagação de vírus – entre a sua espécie, para outros animais e, potencialmente, para os humanos.

Contudo, desconhece-se como é que alguns destes novos vírus podem infetar humanos, um processo complexo que envolve a entrada de um patógeno nas células humanas e a sua multiplicação e propagação pelo corpo enquanto ilude o sistema imunitário. Embora alguns vírus, como o vírus Nipah, precisem de ser transmitidos de um morcego para os humanos, outros vírus precisam de passar por um processo de adaptação para se tornarem contagiosos.

“Geralmente, um vírus precisa de várias mutações para ser transmissível aos humanos”, diz Hector Aguilar-Carreno, virologista da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Cornell, que estuda imunologia viral. “É algo que depende do vírus. Em alguns casos, pode ser necessária uma ou duas mutações. Mas outros podem precisar de vinte ou mais para passar pelas etapas necessárias para serem transmissíveis ou se replicarem no hospedeiro.” Para complicar ainda mais, é necessário determinar se estas mutações precisam de passar por um animal intermediário, como foi sugerido para o SARS-CoV-2 – o vírus já teria mudado quando provavelmente saltou para um pangolim, e novamente quando saltou para os humanos.

O valor das listas de observação

O caráter melindroso  dos eventos de potencial transbordo levanta a questão: O que devemos fazer com todas estas informações? De acordo com Jonna Mazet, que foi a investigadora principal do projeto PREDICT, os dados colocam os vírus de risco elevado nos radares dos legisladores. “Não criámos esta ferramenta porque queríamos assustar o mundo e dizer que havia muitos novos vírus e que ninguém sabia o que fazer com eles”, diz Jonna. “A ferramenta consiste em criar listas de observação para uma vigilância com todos os dados sobre a forma como as pessoas são expostas.”

Num dos possíveis cenários, levando em consideração que as doenças transmitidas por morcegos podem ser transmitidas através de guano (no qual foi detetado RNA do coronavírus), os agricultores que recolhem guano para fertilizantes podem ser aconselhados a usar equipamento de proteção individual ou a desinfetar o guano. “Talvez seja necessário falar sobre tipos alternativos de meios de subsistência, caso os atuais sejam demasiado perigosos, ou encontrar novas práticas mais seguras”, diz Jonna. Um dos resultados do projeto PREDICT foi a criação de um livro intitulado “Viver em Segurança com Morcegos” – o animal mais implicado nos eventos de disseminação viral – que foi traduzido para 12 idiomas e apresentado em centenas de reuniões públicas em África e na Ásia.

Morcegos que adoram seiva de palma

No início dos anos 2000, quando a epidemiologista Emily Gurley trabalhou no Bangladesh, a sua equipa conseguiu usar informações específicas sobre a transmissão do vírus Nipah através de morcegos, um vírus mortal sem tratamento conhecido, para ajudar aldeias a reduzir o risco. Depois de surtos intrigantes de Nipah, Emily e os seus colegas rastrearam o vírus até aos morcegos frugívoros. (Antes disso, o vírus tinha sido transmitido a humanos na Malásia através de porcos doentes.) Em muitas áreas do Bangladesh, beber seiva fresca de palma é uma iguaria; e descobriu-se que os morcegos adoravam lamber o fluxo de seiva que fluía para os potes de recolha – contaminando a seiva com urina ou fezes.

“A partir desta via de transbordo viral, estabelecemos as evidências de que era a rota predominante de transmissão”, diz Emily, que agora é cientista na Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg. Os seus esforços deram origem a uma campanha de educação pública – “Beba seiva de forma mais segura” – aconselhando os habitantes locais a instalar redes para manter os morcegos longe dos potes de recolha.

Embora o programa PREDICT tenha terminado em setembro, Jonna Mazet diz que o objetivo era desenvolver as capacidades de vigilância dos países e envolver as comunidades locais antes de surgir o próximo transbordo – e possivelmente a próxima pandemia. Uma segunda iniciativa está concentrada na educação de profissionais de saúde em várias disciplinas em universidades de África e do Sudeste Asiático, focando-se na prevenção e deteção de doenças. “Existem milhares de vírus ainda por descobrir”, diz Jonna.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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