Sim, as vacinas bloqueiam grande parte da transmissão de COVID-19

Os dados mais recentes revelam que as vacinas não só protegem os indivíduos vacinados como também reduzem as probabilidades de estes propagarem o vírus a outras pessoas.

Publicado 26/04/2021, 11:40 WEST
vaccinated

A enfermeira Priscilla Policar administra uma vacina COVID-19 da Moderna a Shirley Trojman, no Hospital Humber River em Toronto, Canadá, no dia 23 de março de 2021.

Fotografia de Cole Burston, Getty Images

As vacinas COVID-19 proporcionam uma oportunidade para retardar a propagação do vírus e acabar com a pandemia. Agora os cientistas estão a tentar descobrir até que ponto as vacinas conseguem impedir a transmissão. Os novos dados dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA mostram que as infeções por COVID-19 podem ocorrer em pessoas já vacinadas, mas aparentemente são muito raras.

No dia 14 de abril, os CDC receberam relatórios de que 5.814 pessoas completamente vacinadas tinham desenvolvido infeções por COVID-19. Quase metade destas infeções (45%) ocorreram em pessoas com pelo menos 60 anos de idade. Cerca de 7% das pessoas com infeções emergentes – infeções que acontecem após a vacinação completa – foram hospitalizadas e 1% morreram.

Com mais de 89 milhões de pessoas completamente vacinadas nos Estados Unidos contra a COVID-19, os CDC têm cautelosamente expandido as diretrizes sobre o que estas pessoas completamente vacinadas podem fazer em segurança. Esta expansão tem sido gradual, à medida que os especialistas aguardam dados não só sobre como é que as vacinas COVID-19 previnem doenças, mas também se um indivíduo totalmente vacinado pode desenvolver uma infeção – sem sintomas – e, sem saber, transmitir o vírus a outra pessoa.

Esta distinção é importante porque muitas pessoas não percebem que as vacinas evitam sobretudo a doença, mas não necessariamente a infeção. Isto significa que nem todas as vacinas impedem que as pessoas completamente vacinadas transmitam o vírus a outras pessoas.

“O santo graal do desenvolvimento de vacinas é impedir que as pessoas sejam infetadas, mas é extremamente difícil conseguir isso”, diz Jason Kindrachuk, professor assistente de virologia na Universidade de Manitoba em Winnipeg, no Canadá. Este santo graal chama-se imunidade esterilizante e protege completamente uma pessoa de doenças, impedindo também o micróbio de entrar nas células, diz Jason.

Quatro meses depois de a agência norte-americana Food and Drug Administration ter autorizado as primeiras vacinas contra a COVID-19, os CDC já obtiveram dados suficientes para perceber que as vacinas reduzem substancialmente as infeções e, portanto, reduzem a possibilidade de uma pessoa vacinada infetar outras pessoas.

As vacinas imitam uma infeção no corpo para fazer com que o sistema imunitário monte defesas contra essa infeção – e depois o corpo já sabe o que fazer se encontrar o mesmo patógeno novamente, explica Juliet Morrison, professora assistente de microbiologia na Universidade da Califórnia, em Riverside.

“Depois de qualquer infeção ficamos com glóbulos brancos, nomeadamente células T e B, que se lembram da infeção inicial para que, se formos novamente infetados, essas células de memória respondam através da multiplicação”, diz Juliet. “As células B produzem anticorpos que se ligam aos vírus circulantes e às células infetadas, enquanto que as células T basicamente fazem buracos nas células infetadas e enchem-nas com toxinas que dizem à célula infetada para se suicidar.”

Uma vacina induz a mesma memória imunitária que uma infeção, portanto, se o vírus real aparecer, o sistema imunitário ativa-se de imediato e produz células T, células B e anticorpos.

“Isto permite eliminar uma infeção sem sequer sabermos que estivemos doentes”, diz Juliet.

Porém, o mais importante é que tivemos realmente uma infeção. Ou seja, o vírus entrou nas nossas células e começou a replicar-se. O sistema imunitário simplesmente eliminou isso tudo antes de o vírus ou o próprio sistema imunitário ter começado a danificar tecido – o processo da doença, explica Jason.

Infeções assintomáticas continuam a poder transmitir o vírus

Se o vírus entrar nas células e se começar a replicar, mas sem nunca provocar a doença, é uma infeção assintomática. Nas infeções pré-sintomáticas, por outro lado, uma pessoa desenvolve sintomas e é particularmente contagiosa nos dias anteriores ao aparecimento de sintomas, diz Natalie Dean, professora assistente de bioestatística na Universidade da Flórida, em Gainesville.

“Sabemos, a partir dos dados de rastreio de contactos sem relação com vacinas, que as pessoas que nunca desenvolvem sintomas tendem a ser menos infecciosas”, diz Natalie.

Juliet Morrison acrescenta que as pessoas assintomáticas provavelmente têm uma excelente resposta imunitária inicial que abranda a velocidade de replicação do vírus, “mas não o suficiente para que a replicação viral seja completamente eliminada. É por isso que as pessoas assintomáticas ainda podem transmitir o vírus, mas não vemos quaisquer sintomas de doença.”

A suportar esta ideia está o facto de a gravidade da doença COVID-19 ter tendência para se correlacionar com o número total de vírus no corpo, ou carga viral, diz Jason Kindrachuk. As investigações preliminares mostram que as pessoas com cargas virais mais baixas transmitem menos vírus, sugerindo que as infeções assintomáticas são menos contagiosas do que as sintomáticas. Mas menos não é equivalente a zero: pessoas com infeções assintomáticas continuam a ter um vírus replicante no seu sistema que pode ser transmitido a outras pessoas.

Quando as vacinas foram autorizadas, os especialistas ainda não sabiam se as vacinas conseguiam prevenir por completo as infeções ou se as pessoas vacinadas podiam desenvolver uma infeção assintomática – mas ainda assim contagiosa.

Porque é que os ensaios clínicos não rastrearam infeções?

Os ensaios clínicos das vacinas da Moderna, Pfizer-BioNTech e Johnson & Johnson avaliaram a capacidade de cada vacina na prevenção de doenças graves, não a sua capacidade de bloquear a transmissão do vírus.

“Sinceramente, a transmissão não era a principal preocupação naquele ponto dos ensaios”, diz Jason. “Era para garantir que as pessoas não adoeciam.”

Com milhares de pessoas hospitalizadas e a morrer todos os dias, a primeira prioridade era avaliar se uma vacina evitava doenças graves e morte. Embora os investigadores tenham reconhecido que era importante perceber se as vacinas evitavam as infeções assintomáticas, fazer isso era extremamente difícil e dispendioso, diz Natalie. Portanto, os investigadores rastrearam as infeções sintomáticas. Este fator deixou sem resposta a questão: será que uma pessoa vacinada e sem sintomas podia ter uma infeção assintomática?

“Houve algumas dúvidas sobre se as pessoas ainda podiam ter um pouco de vírus no nariz e serem infecciosas”, diz Natalie.

Uma pequena quantidade de vírus numa pessoa vacinada continua a poder representar um risco para as outras pessoas.

“Não sabemos realmente qual é a dose infecciosa para alguém – a quantidade de vírus a que temos de estar expostos para sermos infetados”, diz Jason. “Não se trata de uma dose que recebemos repentinamente, mas sim de um acumular durante minutos ou horas.”

Os dados iniciais pareciam promissores

Embora os fabricantes de vacinas não tenham rastreado infeções em todos os participantes do ensaio de fase três, ainda assim recolheram alguns dados. A Moderna testou todos os participantes, quando estes receberam a sua segunda dose, e relatou em dezembro que ocorreram menos infeções assintomáticas no grupo vacinado do que no grupo placebo após a primeira dose. A Johnson & Johnson também relatou dados de quase 3.000 participantes do ensaio de fase três, participantes que foram testados dois meses após a vacinação, para perceber se tinham anticorpos de uma nova infeção desde a vacinação. Estes dados preliminares sugeriam uma redução de 74% nas infeções assintomáticas.

Estas descobertas indiciavam que as vacinas tinham a capacidade de prevenir infeções, um desenvolvimento que foi seguido por três pré-impressões – ainda não revistas por pares – que sugeriam ainda mais boas notícias. Uma das pré-impressões revelava que as pessoas vacinadas com uma dose da vacina da Pfizer-BioNTech tinham cargas virais até 20 vezes mais baixas do que as cargas virais nas pessoas infetadas não vacinadas.

As outras duas pré-impressões, vindas da Clínica Mayo e do Reino Unido, incluíam mais de 85.000 profissionais de saúde testados rotineiramente, que tinham sido completamente vacinados com a vacina da Pfizer-BioNTech. Esta vacina reduziu a infeção em 85 a 89 por cento. Todas estas evidências enfatizam a capacidade das três vacinas na prevenção de uma infeção na maioria dos vacinados.

Começa a emergir um consenso

Em março, surgiram mais evidências através de uma série de estudos sobre as vacinas mRNA. Um dos estudos, feito com 9.109 profissionais de saúde em Israel, descobriu que as infeções diminuíam em 75% após duas doses da vacina da Pfize-BioNTech. Outro estudo revelou que a carga viral descia quatro vezes nas pessoas que recebiam uma dose e depois desenvolviam uma infeção.

Entre as mais de 39.000 pessoas testadas na Clínica Mayo, os pacientes tinham um risco 72% mais pequeno de infeção 10 dias após a primeira dose da vacina mRNA, e 80% após as duas doses. A revista New England Journal of Medicine publicou artigos de investigação que mostravam uma redução de infeções em profissionais de saúde completamente vacinados no Centro Médico da Universidade do Texas Southwestern, no Centro Médico da Universidade Hadassah Hebrew em Jerusalém e na Universidade da Califórnia em Los Angeles e San Diego.

A evidência mais persuasiva, de acordo com Natalie, veio de um estudo dos CDC, feito no início de abril, com 3.950 profissionais de saúde que foram testados semanalmente durante três meses após receberem ambas as doses de vacinas mRNA. A vacinação completa reduziu a infeção – independentemente dos sintomas – em 90%, e uma só dose reduziu a infeção em 80%.

“E também temos as evidências à nossa volta”, diz Jason.

“Temos assistido a uma diminuição dramática de transmissão nos EUA. Isto sugere que as vacinas, para além de estarem a proteger contra doenças graves, também reduzem a transmissão.”

Em conjunto, as evidências mostram que a vacinação completa com qualquer uma das vacinas mRNA reduz o risco de infeção em pelo menos metade após uma dose, e em 75 a 90 por cento duas semanas após a segunda dose. Embora existam menos investigações disponíveis sobre a vacina da Johnson & Johnson, os dados do ensaio sugerem uma redução de infeção de mais de 70%. Com as vacinas a evitarem esta taxa de infeções, também estão a impedir que a maioria das pessoas vacinadas transmita o vírus.

E depois vieram as variantes

“A preocupação agora é saber até que ponto as variantes podem mudar o jogo”, diz Jason. Vários dos estudos feitos em Inglaterra e em Israel com a vacina da Pfizer-BioNTech aconteceram quando a variante B.1.1.7 era dominante.

“As vacinas parecem estar a resistir às variantes, mas também sabemos que estas variantes tendem a ser mais transmissíveis. Existe a preocupação de que uma maior transmissibilidade possa significar que uma dose mais pequena seja infecciosa.”

Uma vez que as vacinas não bloqueiam as infeções a 100%, é possível que as pessoas vacinadas que desenvolvem uma infeção assintomática a partir dessa variante possam ser mais contagiosas do que seriam antes, quando a estirpe dominante era a original.

Para além disso, não há muitos dados sobre as vacinas da Moderna ou da Johnson & Johnson contra as infeções da variante B.1.1.7, e praticamente não existem dados sobre as infeções das outras duas variantes mais preocupantes, a B.1.351, da África do Sul, e a P.1, do Brasil, ambas com capacidade para iludir anticorpos.

Os cientistas também estão a estudar o quão bem estas variantes se replicam.

“Se as variantes se estiverem a replicar para níveis mais elevados, então pode haver mais disseminação viral e mais oportunidades de transmissão”, diz Juliet.

O futuro continua a parecer risonho

“Apesar da incerteza representada pelas variantes, o quadro geral neste momento é tranquilizador”, diz Natalie.

“Estas vacinas superaram realmente as expectativas de diversas formas, e é muito bom que consigam evitar que adoeçamos, ao mesmo tempo que evitam que transmitamos a doença a outras pessoas. Não funcionam a 100%, mas acho que as pessoas conseguem compreender a grande redução e o valor que isso representa. Isto muda realmente a minha forma de pensar sobre o que quero fazer.”

Mas Juliet alerta que isso não significa que podemos baixar a guarda.

“Quem está vacinado pode presumir que está protegido contra uma forma de doença mais grave e muito provavelmente está protegido de forma suficiente contra uma infeção para a poder transmitir, mas como temos estas variantes a emergir, e como não estamos nem perto da imunidade de grupo, as pessoas devem continuar a tomar precauções.”

Interagir sem máscara com outras pessoas vacinadas faz sentido, mas Juliet também concorda com a recomendação dos CDC de que as pessoas vacinadas só devem interagir sem máscara ou distanciamento social com pessoas não vacinadas de baixo risco e num só agregado familiar. Com tantas infeções ainda a serem registadas diariamente, estas recomendações reduzem ainda mais as probabilidades das pessoas vacinadas contraírem e propagarem infeções numa casa de pessoas não vacinadas.

“A verdadeira preocupação são as pessoas não vacinadas com quem entramos em contacto”, acrescenta Juliet. “Mesmo que o potencial de essas pessoas nos infetarem seja reduzido, não é zero.” Da mesma forma, uma pessoa vacinada e infetada tem menos probabilidades – mas não zero – de infetar outras pessoas que ainda não foram vacinadas ou que têm condições ou uma medicação que suprimam o seu sistema imunitário.

Quanto mais a vacinação aumenta, mais o risco de infeção diminui para todos, diz Natalie.

“Eu continuo a pensar na quantidade de transmissão que ainda está a acontecer na minha comunidade”, diz Natalie. “Estamos a começar a ver o impacto das vacinas ao nível da população, e por cada pessoa que é vacinada, a sensação de segurança aumenta.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados