Inseto da Austrália torna-se agente de biocontrolo contra planta invasora em Portugal

Inseto da Austrália foi libertado em Portugal para controlo natural da acácia-de-espigas. Universidade de Coimbra divulga o resultado da investigação sobre todo o processo.

Publicado 10/05/2021, 16:18 WEST, Atualizado 19/05/2021, 12:38 WEST
inseto da Austrália

O inseto Trichilogaster acaciaelongifoliae, proveniente da Austrália, foi utilizado como agente de controlo biológico.

Fotografia de Francisco López-Núñez

A acácia-de-espigas é uma das plantas invasoras com maior dispersão ao longo do litoral português, onde forma extensas áreas monoespecíficas. Produz milhares de sementes anualmente, que se vão acumulando no solo por várias décadas, promovendo a rápida reinvasão das áreas intervencionadas.

Esta é uma das plantas invasoras que mais impactos negativos causam no nosso litoral, desde as comunidades de plantas, ao solo, comunidades de galhadores e insetos associados. As suas sementes são dispersas, por exemplo, pelas formigas, causando sucessivos novos focos de invasão.

A acácia-de-espigas (acacia longifolia) é da família leguminosae/Fabaceae e tem origem no sudeste da Austrália. Trata-se de uma árvore pequena, com três a sete metros de altura, sem espinhos, com numerosos ramos que se estendem até à altura do solo. As flores reúnem-se em espigas com dois a quatro centímetros, amarelas brilhantes e perfumadas.

Os seus frutos são vagens coriáceas, com cinco a 10 centímetros, cilíndricas, estreitas entre as sementes. O seu habitat remete para áreas costeiras, especialmente na duna secundária e ao longo de linhas de água. A floração ocorre entre março e maio, sendo possível observá-la por toda a zona litoral e Alentejo.

A acácia-de-espigas é uma planta invasora presente no litoral português. 

Fotografia de Elizabete Marchante

Esta planta foi introduzida nos finais do século XIX e início do século XX, para estabilização das dunas. No entanto, a espécie invade áreas degradadas em solos arenosos e áreas costeiras, alterando a disponibilidade de nutrientes e diminuindo drasticamente a biodiversidade dos ecossistemas em que está presente.

Agente de controlo natural de espécies invasoras

O controlo natural de plantas invasoras consiste no recurso a opções naturais, como os insetos, de regiões de origem dessas plantas em específico, para reduzir o seu vigor ou potencial reprodutivo.

Este controlo natural passa por retirar às espécies invasoras a sua vantagem de não terem os seus inimigos naturais presentes na área onde foram introduzidas, reduzindo a densidade da espécie invasora até níveis considerados aceitáveis.

Factos sobre Espécies Invasoras

Em Portugal e até 2020, apenas o inseto da Austrália foi utilizado como agente de controlo biológico, impedindo a formação de até 90% das sementes. Este inseto tinha já sido estudado desde 1982, na África do Sul.

O inseto australiano

O agente de controlo natural é um inseto da austrália, de nome científico Trichilogaster acaciaelongifoliae, cuja função é formar galhas, como os bugalhos dos carvalhos. Coloca os seus ovos nas gemas florais e vegetativas da acácia-de-espigas, promovendo galhas onde se formariam as flores ou novos ramos.

Assim, sem flores não há lugar a vagens ou frutos, sem vagens não existem sementes e, sem estas, não surgem acácia-de-espigas novas. Desta forma, o inseto da austrália consegue diminuir a capacidade desta planta se reproduzir e, consequentemente, reinvadir e dispersar para novas áreas.

O inseto da Austrália foi libertado em Portugal, pela primeira vez, numa campanha que decorreu entre 20 de novembro e 7 de dezembro, do ano de 2015. Portugal foi o primeiro país da Europa continental a efetuar a libertação intencional de um agente para controlar de forma biológica uma planta invasora.

A libertação iniciou-se depois de mais de uma década de estudos efetuados por uma equipa do Centro de Ecologia Funcional (CFE), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e da Escola Superior Agrária (ESAC), do Instituto Politécnico de Coimbra (IPC).

A monitorização pós-libertação 

Os investigadores do CFE e da ESAC libertaram o inseto da Austrália em 61 locais, ao longo da costa portuguesa. A introdução foi acompanhada pela equipa, nos anos seguintes, de forma a estudar o estabelecimento, dispersão e os efeitos ao longo dos primeiros anos pós-libertação do inseto da Austrália.

Como resultado, a equipa apurou que, embora o estabelecimento inicial tenha sido limitado pelo facto de o agente ter sido introduzido a partir do hemisfério sul, as taxas de estabelecimento aumentaram muito após a sincronização do seu ciclo de vida, com as estações do hemisfério norte e a fenologia da acácia-de-espigas.

Atualmente é possível observar um crescimento exponencial das populações, que se afastam cada vez mais dos locais de libertação. Observou-se ainda que, em poucos anos, os ramos das acácia-de-espigas com galhas de Trichilogaster acaciaelongidoliae diminuíram 84% a produção de vagem, 95% das sementes e, em 33% de ramos secundários.

O inseto da Austrália cumpre a sua função

Francisco López-Núnez, investigador do CFE e primeiro autor do estudo, reporta ainda que, apesar de a introdução e estabelecimento deste agente de biocontrolo ainda ser recente e de ter uma distribuição limitada ao longo do território, os resultados agora publicados confirmam o estabelecimento com sucesso em Portugal.

É possível perceber que o inseto da Austrália está a afetar negativamente a capacidade de reprodução e crescimento da acácia-de-espigas, numa assincronia superada, entre a planta-avo e o agente.

Esta espécie invasora, tal como outras, são uma das principais causas de perda de biodiversidade a nível global, refletindo-se em prejuízos elevados a nível económico e de saúde humana. A gestão destas espécies revela-se um desafio complexo e dispendioso, até porque uma monitorização pós-libertação dos agentes de controlo é crucial para a sua segurança.

Apesar de algumas dificuldades que possam existir, o controlo biológico, tal como o inseto da Austrália, traduz-se na opção mais sustentável para gerir as espécies invasoras, embora ainda seja um recurso pouco utilizado na Europa.

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