A NASA vai para Vénus pela primeira vez em cerca de 30 anos

Duas sondas vão tentar resolver mistérios profundos sobre o nosso planeta vizinho, incluindo saber por que se assemelha a uma versão tóxica e infernal da Terra.

Publicado 7/06/2021, 12:15
Vénus

As sondas conseguem perscrutar a espessa atmosfera de Vénus, revelando uma superfície alienígena que, de certa forma, é assustadoramente parecida com a da Terra.

Fotografia de NASA/JPL

A NASA tinha uma surpresa reservada para os cientistas planetários: durante uma comunicação sobre o “Estado da NASA”, a agência anunciou que o turbulento e tóxico planeta Vénus será o alvo das duas missões seguintes do seu programa Discovery.

“Estas duas missões irmãs têm ambas o objetivo de compreender como é que Vénus se tornou num mundo infernal, um mundo capaz de derreter chumbo na sua superfície – e vão oferecer a toda a comunidade científica a oportunidade de investigar um planeta que não visitamos há mais de 30 anos”, disse o administrador da NASA, Bill Nelson, durante o comunicado da agência. “Esperamos que estas missões ajudem a compreender melhor como é que a Terra evoluiu e por que razão é atualmente habitável, enquanto que outros [planetas rochosos] no nosso sistema solar não o são.”


Uma das sondas, chamada DAVINCI+, vai estudar a atmosfera tóxica do planeta – uma camada espessa de nuvens de dióxido de carbono e ácido sulfúrico. A outra, chamada VERITAS, vai mapear detalhadamente a superfície do planeta e tentar reconstruir a sua história geológica.

Esta dupla venceu outras duas missões finalistas, que teriam enviado sondas para a lua vulcânica de Júpiter, Io, ou para a lua de Neptuno, Tritão – destinos que figuram há décadas no topo da lista de desejos da ciência planetária.

A sonda New Horizons da NASA registou esta visão da lua de Júpiter, Io, e um dos seus vulcões em erupção durante um encontro com Júpiter em 2007, enquanto estava a caminho de Plutão.

Fotografia de NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Southwest Research Institute/Goddard Space Flight Center

Este comunicado da NASA surgiu durante um momento em que o interesse estava a aumentar numa missão liderada pelos EUA a Vénus, que alguns cientistas planetários consideram “o planeta esquecido”. Vénus é notavelmente semelhante à Terra em tamanho e massa. E embora atualmente seja um mundo infernal e inóspito, outrora pode ter sido um planeta temperado e coberto por um oceano como o nosso. Compreender como é que Vénus se tornou num mundo extremamente hostil é vital para compreender o quão comuns podem ser os planetas verdadeiramente semelhantes à Terra.

“Temos um planeta do tamanho da Terra aqui ao lado que não é nada como a Terra – porquê? É uma coisa muito importante para descobrir”, diz Paul Byrne, cientista planetário da Universidade Estadual da Carolina do Norte. “Temos algumas questões muito importantes para responder sobre a formação, características e evolução de um mundo do tamanho da Terra.”

Diversão a dobrar

O programa Discovery da NASA apoia missões mais pequenas e menos dispendiosas do que as integradas nos programas New Frontiers ou nos programas principais. Com lançamentos agendados a cerca de cada 36 meses, as missões Discovery estão normalmente limitadas a orçamentos de 450 milhões de dólares, excluindo os custos do veículo de lançamento e as operações de missão, enquanto que as expedições New Frontiers chegam aos 850 milhões de dólares. As missões principais – como as das sondas marcianas Perseverance e Curiosity – podem custar milhares de milhões de dólares.

Neste momento, a NASA tem em curso duas missões Discovery. O Orbitador de Reconhecimento Lunar, lançado em 2009, passou mais de uma década a mapear a superfície da lua. O InSight Lander, lançado em 2018, está a estudar o interior de Marte.

Em 2021 serão lançadas mais duas missões. A missão Lucy vai estudar vários asteroides para tentar desvendar segredos sobre o início do sistema solar, ao passo que a Psyche vai visitar um asteroide gigante e extremamente rico em metais que tem o mesmo nome. Alguns cientistas não ficaram satisfeitos com a seleção de duas missões de estudo de asteroides – sobretudo porque passaram à frente de várias missões propostas a Vénus, incluindo as das sondas VERITAS e DAVINCI+.

Uma longa espera

Agora, estas missões terão finalmente a oportunidade de voar, expondo novas verdades sobre o mundo nublado que temos nas nossas redondezas.

A última missão dos Estados Unidos a Vénus, com a sonda Magalhães, terminou em 1994, quando a nave executou um mergulho programado na atmosfera do planeta. Desde então, sondas europeias e japonesas visitaram este gémeo infernal da Terra, e os cientistas continuaram a apontar os telescópios terrestres para este planeta intrigante.

Apesar de todo o escrutínio, os mistérios de Vénus são cada vez maiores. Entre eles está a crescente evidência de vulcanismo contínuo na superfície do planeta, apesar do facto de Vénus não ter o tipo de atividade tectónica que alimenta as regiões mais extremamente vulcânicas da Terra. E também há a polémica deteção de gás fosfina na atmosfera do planeta, que pode ser um sinal de vida.

Em breve, talvez em 2030, a nave espacial Deep Atmosphere Venus Investigation of Noble gas, Chemistry, and Imaging, ou DAVINCI+, vai partir para Vénus. Depois, irá descer pela atmosfera do planeta, que é 90 vezes mais densa do que a da Terra, recolhendo amostras e transmitindo dados que ajudarão os cientistas a compreender como esta atmosfera evoluiu e perceber se o planeta já teve oceanos.

Enquanto a DAVINCI+ estiver a estudar o véu venusiano, a Venus Emissivity, Radio Science, InSAR, Topography, and Spectroscopy, ou VERITAS, irá estar ocupada a mapear a superfície do planeta a partir de órbita. As imagens resultantes, para além de fornecerem informações detalhadas sobre a química da superfície e topografia, vão ajudar a reconstruir a história geológica de Vénus – e talvez até resolver o mistério de como o planeta evoluiu para se transformar num inferno mesmo aqui ao lado.

“Coitado do meu cão, ficou realmente a pensar que a nossa casa estava a ser assaltada pela forma como eu gritei quando descobri que a nossa missão tinha sido selecionada”, disse no Twitter David Grinspoon, do Instituto de Ciências Planetárias, membro da equipa da missão DAVINCI+.  

“Fiz pressão para que isto acontecesse durante literalmente toda a minha carreira. A última missão dos EUA a Vénus foi lançada em 1989, no ano em que terminei a faculdade. Há tanto para aprender sobre o clima, sobre a história de mundos semelhantes à Terra e a vida no universo.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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