A Terra já teve e perdeu muitos oceanos. Eis onde pode surgir o próximo.

As pistas geológicas do passado distante do nosso planeta revelam que as regiões costeiras de hoje não irão durar para sempre – outras irão tomar o seu lugar.

Publicado 2/07/2021, 12:04 WEST
Oceanos

Um mergulhador nada perto da Ilha Espírito Santo, no Golfo da Califórnia, um corpo de água em crescimento que se formou há apenas entre cinco a 10 milhões de anos atrás, quando mudanças tectónicas separaram a região da Baja Califórnia do atual México.

Fotografia de Thomas P. Peschak, Nat Geo Image Collection

Numa sala escura no Museu Americano de História Natural de Nova Iorque, uma despretensiosa parede de pedra estende-se até quase ao teto. À primeira vista, esta parede parece uma laje destinada a uma ilha ou bancada de cozinha, com manchas pretas, brancas e rosa a misturaram-se em faixas de minerais que se estendem muito acima da minha cabeça. Mas quando a luz da exposição muda de branco para negro, a rocha de 10 toneladas brilha em tons fluorescentes de laranja e verde.

“Não conseguimos evitar ficar de queixo caído”, diz George Harlow, curador dos renovados Átrios Mignone de Gemas e Minerais, onde está a rocha.

A impressionante cor vívida da rocha revela a singularidade dos seus minerais: formaram-se no fundo de um oceano agora desaparecido, há cerca de 1.2 mil milhões de anos, numa época em que fusos de algas mais pequenos do que arroz estavam entre as maiores formas de vida. Neste oceano antigo, partículas ricas em metal borbulhavam a partir de fontes hidrotermais e assentavam no fundo do mar em camadas, criando uma mistura particular de elementos que agora ficam fluorescentes quando expostos à luz ultravioleta.

Estas rochas são um lembrete garrido do quanto os nossos oceanos mudaram ao longo de milhares de milhões de anos de história – impulsionados pelas placas tectónicas em constante mudança do planeta. Estas mudanças propagam-se como dominós a cair através dos sistemas geológicos, atmosféricos e biológicos, influenciando tudo, desde a diversidade dos minerais da Terra até aos trajetos das correntes oceânicas e fluxo atmosférico. E tudo isto influencia a vida como a conhecemos.

Este painel de rocha fluorescente do tamanho de uma parede, proveniente de Ogdensburg, Nova Jersey, representa parte de um antigo oceano que existiu há cerca de 1.2 mil milhões de anos.

Fotografia de D. Finnin/©AMNH

“As alterações em todo o sistema terrestre que acontecem integradas nesta geografia em mudança são profundas”, diz Shanan Peters, geocientista da Universidade de Wisconsin-Madison e especialista em coevolução de vida e sistemas terrestres.

As lajes preservadas no fundo do mar, como esta em exibição no Museu Americano de História Natural, juntamente com uma série de outras pistas geológicas, estão a ajudar os cientistas a recriar a intricada história dos oceanos que se perderam no tempo – o Jápeto, Rheic, Tétis, Pantalássico, Ural e muitos outros. Tal como aconteceu com estes antigos corpos de água, também os nossos oceanos modernos irão eventualmente desaparecer, e outros formar-se-ão novamente.

George Harlow coloca isto de forma simples: “As coisas não pararam.”

Pistas gravadas no fundo do mar

As placas tectónicas em constante mudança do nosso planeta não só erguem montanhas e esculpem vales, como também fazem com que os oceanos se abram e fechem em ciclos – “quase como um acordeão”, diz Andrew Merdith, modelador tectónico da Universidade de Leeds.

Estes movimentos são parcialmente alimentados pelas zonas de subducção, nas quais uma placa mergulha sob a outra. Esta ação recicla o fundo do mar nas entranhas do nosso planeta e puxa a terra consigo, estreitando as falhas entre os continentes.

A laje de rocha no Museu Americano de História Natural, por exemplo, vem de Ogdensburg, Nova Jersey, e ficou preservada durante uma antiga colisão entre o antecessor da América do Norte e outro continente antigo. Esta colisão obliterou o oceano entre as massas de terra, e as temperaturas e pressões elevadas cozeram os sedimentos que estavam nas camadas no fundo do mar, ficando na rocha que vemos hoje.

Contudo, os poucos pedaços de antigo leito marinho que ficaram preservados em terra seca, como as rochas de Nova Jersey ou um pedaço do manto terrestre exposto em Maryland, podem oferecer apenas pequenos vislumbres sobre a mudança dos oceanos ao longo do tempo. Para compreender melhor estes movimentos, alguns cientistas recorrem a um registo que fica gravado no fundo do mar: os minerais magnéticos.

O nascimento das placas oceânicas acontece ao longo da maior cordilheira do mundo: uma cadeia subaquática conhecida por dorsal oceânica. Percorrendo cerca de 65.000 quilómetros em torno do planeta, esta cordilheira marca a zona onde as placas tectónicas se separam e a rocha quente do manto sobe para preencher o vazio. Conforme esta rocha derretida arrefece, alguns dos seus minerais alinham-se com o campo magnético do planeta, criando um código de barras geológico ao longo do fundo do mar que adiciona novas linhas sempre que o campo magnético se inverte. Os cientistas podem usar estes códigos de barras para acompanhar a forma como os nossos oceanos mudam ao longo do tempo.

Fantasmas de oceanos antigos

Este registo magnético, porém, é imperfeito: “Quanto mais retrocedemos no tempo, menos e menos rochas oceânicas temos”, diz Grace Shephard, geofísica e especialista em reconstruções de placas tectónicas da Universidade de Oslo. Tirando uma pequena faixa de rocha subjacente ao Mediterrâneo – que tem uns notáveis 340 milhões de anos – grande parte do fundo do mar tem apenas 100 milhões de anos, e a maioria tem menos de 200 milhões de anos.

Contudo, os cientistas encontraram uma maneira de identificar os leitos desaparecidos que se afundaram no manto da Terra e que agora estão escondidos num cemitério oceânico

O método envolve observar com que velocidade as vagas sísmicas se propagam pelo planeta. Os pedaços perdidos de leito oceânico podem permanecer relativamente arrefecidos durante cerca de 250 milhões de anos ou mais, e os sinais sísmicos diferem quando passam pelas placas frias em comparação com as entranhas abrasadoras da Terra.

Factos sobre a Terra
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“Temos tido sempre uma caixa negra debaixo dos nossos pés”, explica Douwe van Hinsbergen, especialista em placas tectónicas da Universidade de Utrecht, nos Países Baixos. Mas agora as análises sísmicas permitem aos cientistas estudar estas placas antigas e reverter o relógio geológico, desvendando as forças subterrâneas que movem o nosso mundo. Estes restos fantasmagóricos de leito oceânico escondem-se debaixo de quase todos os continentes, e Douwe van Hinsbergen e os seus colegas catalogaram quase uma centena no seu Atlas do Submundo.

Entre os pedaços mais antigos estão restos de placas oceânicas com cerca de 250 milhões de anos, que agora estão na fronteira entre o manto e o núcleo. Isto inclui o oceano Paleo-Tétis, que outrora banhava as margens do Gondwana, um supercontinente formado principalmente pela América do Sul, África, Índia, Arábia, Austrália e Antártida da atualidade.

A junção de todos estes pedaços perdidos de leito oceânico, códigos de barras magnéticos e uma série de outras pistas geológicas permitiu a uma equipa de cientistas criar uma reconstrução impressionante com mil milhões de anos do passado do nosso planeta.

Andrew Merdith, um dos arquitetos do modelo, sublinha que esta não se trata da versão final da forma inicial da Terra, que pode continuar a mudar à medida que surgem mais dados. Mas representar esta dança de continentes e oceanos revela a natureza hipnotizante da superfície mutante do nosso planeta.

“Faz tudo parte do puzzle global”, diz Grace Shephard.

Repercussões pelos habitats da Terra

À medida que os oceanos se abrem e fecham e os continentes andam à deriva pelo planeta, os ambientes em transformação preparam o cenário para transformações na vida. A formação de um novo oceano, por exemplo, pode ser uma bênção para a biodiversidade, como aconteceu durante um pico de atividade quando a Pangeia se separou, de acordo com o trabalho de Shanan Peters e dos seus colegas.

A Pangeia continha os grupos ancestrais de todas as principais criaturas terrestres da atualidade, explica Shanan. Depois de este supercontinente se ter quebrado em pedaços, os animais terrestres evoluíram para uma diversidade de cores, tamanhos e estilos de vida nos seus habitats fragmentados e isolados. As novas rotas de circulação oceânica também transportaram humidade para o interior do continente, humedecendo zonas previamente dessecadas. Enquanto isso, novos cursos de águas rasas iluminados pelo sol abriram-se ao longo de novas plataformas continentais, onde a vida marinha prospera.

“As extremidades da placa continental são propriedades de primeira classe se formos uma amêijoa, um peixe ou algo assim”, diz Shanan. Quando a Pangeia se separou, a vida na Terra explodiu.

As mudanças tectónicas mais pequenas também podem ter impactos dramáticos na superfície do mundo. Um exemplo particularmente surpreendente é a formação do Istmo do Panamá, uma faixa de terra que liga a América do Norte e do Sul, explica Shanan. A água fluía do Atlântico para o Pacífico através desta artéria oceânica há cerca de 20 milhões de anos. Mas, à medida que a placa do Pacífico mergulhava sob a placa das Caraíbas, elevava o fundo do mar e colocava vulcões subaquáticos à superfície.

Esta ligação aquosa entre oceanos começou a estreitar e, eventualmente, foi completamente interrompida. Esta mudança enviou águas quentes para norte numa corrente agora conhecida por Corrente do Golfo, que elevou as temperaturas no noroeste da Europa, proporcionando um clima relativamente ameno na região, apesar de estar a uma distância semelhante do Equador como as zonas frias do Canadá.

Esta alteração também preparou o terreno para a moderna correia transportadora de correntes oceânicas, que controla os padrões de tempestades, o fluxo de nutrientes e muito mais. “O encerramento do Istmo do Panamá teve um efeito enorme”, diz Shanan.

Futuros oceanos

No horizonte do nosso planeta  estão muitas mais mudanças tectónicas capazes de mudar o mundo. Daqui a cerca de 250 milhões de anos, as massas de terra do planeta podem convergir mais uma vez num supercontinente: o Pangeia Ultima. Neste potencial cenário, elaborado por Christopher Scotese, diretor do Projeto PALEOMAP, o Oceano Atlântico quase que fica reduzido a um modesto mar interior.

Ainda assim, o futuro geológico permanece incerto. Talvez aconteça exatamente o oposto e o Oceano Pacífico comece a fechar, formando um supercontinente no lado oposto do mundo denominado Novopangea. Outros modelos sugerem até que uma combinação de alterações pode fazer com que o Atlântico e o Pacífico se fechem à medida que novos oceanos nascem na Ásia.

Qualquer que seja o cenário no nosso futuro distante, as mudanças tectónicas já estão em andamento. Os cientistas acreditam que o próximo oceano da Terra se pode formar na Zona do Rift de África Oriental, onde uma pluma crescente de rochas escaldantes está lentamente a separar uma faixa de terra ao longo da costa oriental do continente, explica Cynthia Ebinger, geofísica da Universidade de Tulane que realizou extensas investigações na região.

Esta separação já tem atualmente consequências bastante reais, conforme se pode verificar pela abundância de vulcanismo nesta parte do mundo – incluindo uma erupção devastadora do Monte Nyiragongo, na República Democrática do Congo, que deslocou recentemente cerca de 400.000 pessoas e matou pelo menos 32. Outro  vulcão, na costa da Eritreia, está a ter um impacto diferente: está a manter o Mar Vermelho na sua posição, protegendo de inundações as áreas do nordeste da Etiópia que ficam abaixo do nível do mar, diz Cynthia. Um pequeno oceano formou-se nesta região e, embora a água tenha secado há muito tempo, as placas móveis da Terra podem eventualmente desencadear novas inundações.

Embora a tectónica tenha sido a principal impulsionadora do passado e futuro geológico do nosso planeta, uma força diferente e poderosa está a interferir nos processos da Terra: nós. Através das emissões de gases, os humanos aquecem o planeta a um ritmo sem precedentes, alterando a circulação oceânica e atmosférica com consequências devastadoras. Os humanos estão também a misturar ecossistemas através das importações e viagens como nunca.

“Este é um processo que a Terra nunca viu, nunca. Nem uma vez”, diz Shanan.

“A era dos humanos é apenas um pontinho no tempo geológico, mas as nossas ações prometem deixar marcas indeléveis no mundo, particularmente na biosfera.”

“As nossas ações irão efetivamente estar presentes em cada organismo existente no futuro”, diz Shanan, “da mesma forma que a Pangeia existe em cada organismo presente atualmente na Terra.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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