As mulheres grávidas na Índia ainda não são elegíveis para as vacinas COVID-19. Porquê?

A preocupação do governo com a segurança significa que as mulheres grávidas não podem ser vacinadas. Mas alguns médicos estão a alertar para o aumento do risco de doenças graves e morte entre estas mulheres.

Por Astha Rajvanshi
Publicado 30/06/2021, 12:07
Mulheres grávidas querem ser vacinadas

Um trabalhador de saúde com equipamento de proteção individual recolhe uma amostra com zaragatoa de uma mulher grávida, num centro gratuito de testes COVID-19, no distrito de Medchal Malkajgiri, nos arredores de Hyderabad, no dia 24 de agosto de 2020.

Fotografia de Noah Seelam, AFP via Getty Images

No dia 21 de junho, a maioria das pessoas na Índia com mais de 18 anos tornou-se elegível para ser gratuitamente vacinada contra a COVID-19, mas esta campanha ainda não inclui mulheres grávidas.

Na Índia, a segunda vaga da pandemia provocou um dos piores surtos de COVID-19 a nível mundial, com o vírus a matar mais de 390.000 indianos até ao momento, de acordo com as estimativas oficiais. Apesar de não existirem dados governamentais sobre o número de mulheres grávidas no país que contraíram COVID-19, os relatos sugerem que este número ascende pelo menos aos milhares, com a situação agravada nas áreas rurais devido à escassez de testes e à falta de tratamentos.

O governo indiano aprovou recentemente as vacinas para mães lactantes. Mas através de comunicado oficial, Vinod Kumar Paul, do Instituto Nacional de Transformação da Índia (NITI Aayog), um centro governamental de estudos, disse que as autoridades não podiam alargar o acesso a mulheres grávidas devido à falta de dados sobre segurança. O governo espera “esclarecer a situação dentro de alguns dias com base em novas informações científicas”. (A National Geographic entrou em contacto com Vinod Paul, que também é porta-voz da Task Force COVID-19 da Índia, mas Vinod não respondeu aos pedidos para comentar.)

As mulheres grávidas e lactantes foram inicialmente excluídas das campanhas de vacinação em massa na maioria dos países, porque não fizeram parte de quaisquer ensaios clínicos para as vacinas COVID-19. Desde então, as vacinas mRNA da Pfizer e Moderna foram testadas em animais em período de gestação e nas suas crias, e não revelaram riscos adicionais para a saúde. Um estudo publicado recentemente na American Journal of Obstetrics & Gynecology mostrava resultados semelhantes para as mulheres grávidas e lactantes que receberam uma vacina mRNA. Com base nestes e noutros estudos, os EUA, juntamente com o Reino Unido e a Bélgica, conferiram às mulheres grávidas um estatuto prioritário na vacinação.

Na Índia, porém, há poucos dados disponíveis para as grávidas receberem a Covishield ou a Covaxin, duas das vacinas autorizadas para uso no país. Ainda assim, muitos especialistas acreditam que os benefícios da vacinação de mulheres grávidas continuam a superar os riscos.

Um relatório dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA descobriu que as mulheres grávidas infetadas com SARS-CoV-2, o vírus que provoca a doença COVID-19, enfrentavam um risco 70% mais elevado de morrer em comparação com as mulheres não grávidas. E também tinham mais propensão para necessitar de hospitalização, cuidados intensivos, ventilação e suporte de vida devido ao seu sistema imunitário enfraquecido. Estas descobertas são suportadas por um estudo publicado recentemente na JAMA Pediatrics, que entrevistou 2.100 mulheres grávidas em 18 países, incluindo na Índia, e descobriu que tanto as mulheres grávidas como os recém-nascidos enfrentavam um risco maior de morrer caso as mães contraíssem o vírus durante a gravidez.

Com menos de 5% da população adulta da Índia completamente vacinada, os especialistas argumentam que a vacinação de mulheres grávidas deve ser uma prioridade para conter o número e a gravidade destes casos. A federação indiana de ginecologistas, também conhecida por FOGSI, exortou publicamente o governo indiano a mudar a sua política de vacinas COVID-19. A federação argumenta que as mulheres devem consultar os seus médicos e ter o poder de decidir se querem ser vacinadas.

“Do ponto de vista de saúde pública, sabemos que é necessário”, diz Neerja Bhatla, chefe da ala de ginecologia do Hospital A.I.I.M.S. em Deli, o principal hospital de investigação da Índia. “Estamos à espera que isso aconteça rapidamente, pois não queremos enfrentar o mesmo dilema no caso de haver uma terceira vaga.”

Ansiedade e perda

No início deste ano, Priyanka Chand, de 26 anos, e o seu marido Jayasurjya Bhanja perguntaram ao ginecologista se Priyanka podia levar a vacina. Embora a campanha de vacinação na Índia não estivesse aberta a todos os adultos, Priyanka estava grávida e queria manter o vírus afastado. “Queríamos estar seguros”, diz Jayasurjya. “Mas o médico disse-nos que não era permitido.”

Priyanka testou positivo para a COVID-19 no final de abril, durante o seu sexto mês de gravidez. Priyanka mal tinha saído de casa, mas depois de sentir dores de cabeça e um surto de febre, testou positivo para o vírus. Quando os seus níveis de saturação de oxigénio caíram para os 30%, o ginecologista incentivou-a a ir imediatamente para o hospital.

Mas este momento coincidiu com o início da segunda vaga na Índia, e durante três dias o casal teve dificuldades em encontrar uma cama de hospital vaga. Por volta da uma hora da manhã, hora local, no dia 28 de abril, Priyanka foi finalmente admitida no Hospital de Super Especialidades Max no sul de Deli. Nesse momento, o seu estado era crítico e Priyanka necessitou de um ventilador para a ajudar a respirar. Priyanka sobreviveu após tratamento na unidade de cuidados intensivos – mas perdeu o bebé. Agora a recuperar em casa, ainda com suporte de oxigénio e esteroides, o casal questiona se uma vacina poderia ter evitado esta tragédia.

“Quem sabe, talvez o nosso bebé pudesse ter sobrevivido”, diz Jayasurjya. Esta experiência angustiante deixou uma coisa clara: “As mulheres grávidas são muito vulneráveis, precisamos mesmo de nos concentrar em fortalecer a sua imunidade”, diz Jayasurjya.

No Hospital A.I.I.M.S. em Deli, a ginecologista-chefe Neerja Bhatla diz que viu um aumento evidente nos casos de mulheres grávidas com COVID-19 em trabalho de parto prematuro ou nado-mortos. Não há razões para que isto aconteça, diz Neerja. Embora a imunidade geralmente fique comprometida durante a gravidez, o aumento da pressão abdominal também pode comprimir os pulmões e agravar a falta de ar, um sintoma comum desencadeado pela nova variante Delta da COVID-19 que está a fustigar a Índia e não só. (A variante Delta é preocupante. Descubra porque está a aumentar.)

Hema Divakar, médica e ex-presidente da FOGSI, diz que a sua rede de obstetras e ginecologistas também observou “números assustadores” de mulheres grávidas a morrer. Hema acredita que muitas destas mortes podiam ter sido evitadas, mas as pacientes demoraram muito tempo a consultar um médico ou os médicos não reconheceram os sintomas da COVID-19.

“Como cada caso é tão diferente, o tratamento de mulheres grávidas com COVID-19 não pode ser padronizado”, diz Hema.

Sistema de saúde em crise

A Junta Indiana de Pesquisa Médica tem um protocolo padrão sobre como se deve lidar com mulheres grávidas durante a pandemia: os casos potenciais ou ligeiros de COVID-19 devem ser testados, isolados e monitorizados em casa, ao passo que as mulheres com sintomas mais graves devem ser hospitalizadas. Mas, na prática, num sistema de saúde sobrecarregado, a maioria dos médicos tem de tentar encontrar a sua própria solução.

Muitos dos hospitais por todo o país recusam-se a admitir mulheres grávidas porque ficaram sem camas ou não têm instalações adequadas, como maternidades e unidades de cuidados neonatais, para tratar mães e filhos. Outros hospitais não foram designados para o tratamento de pacientes com COVID-19. Os relatórios locais estão repletos de histórias. Em Karnataka, uma mulher teve alta do hospital após ter testado positivo para a COVID-19, apesar de estar em trabalho de parto; em Kerala, outra mulher que recuperou da COVID-19 foi recusada por hospitais privados e governamentais, e perdeu os seus gémeos pouco depois.

A falta de cuidados pré-natais especializados durante a segunda vaga também impactou as grávidas que não contraíram COVID-19. Muitas mulheres não conseguiram fazer exames de rotina e clínicos devido aos confinamentos. “Vimos muitos casos desenvolverem anemia, pré-eclâmpsia e outras comorbilidades graves por causa dos atrasos”, diz Neerja Bhatla.

Neerja Bhatla e Hema Divakar estão entre os muitos médicos que acreditam que a vacinação irá pelo menos prevenir ou reduzir drasticamente o número de casos de COVID-19 e a mortalidade entre as mulheres grávidas. Num estudo ainda por publicar, liderado por Yamini Sarwal, diretor médico do Hospital Safdarjung de Nova Deli, as evidências sobre segurança e eficácia das vacinas COVID-19 em todo o mundo revelam que muitas mulheres grávidas responderam bem a qualquer tipo de vacina que receberam e produziram uma “resposta imunitária robusta”. Este artigo também recomenda que a vacinação deve fazer parte dos protocolos pré-natais de rotina, visto que as vacinas também protegem o feto através da transferência de anticorpos.

Mas até que as vacinas indianas sejam suportadas por dados e recebam a aprovação para uso em mulheres grávidas, os médicos sentem-se perdidos sobre a melhor forma de aconselhar as suas pacientes: “É um processo de decisão arriscado”, diz Hema, acrescentando que todas as suas pacientes desejam ter a “certeza absoluta” de que a vacina não as irá prejudicar nem aos seus bebés, algo que Hema não pode garantir.

Nupur Kaushik, uma mãe de 35 anos que está atualmente grávida de seis meses do seu segundo filho, quer ser vacinada, mas não confia na vacina Covishield, que usa um vírus da constipação modificado para entregar material genético do SARS-CoV -2, nem na vacina Covaxin, que usa um coronavírus inativado para desencadear uma resposta imunitária protetora. Nupur sente que o governo apressou a aprovação destas vacinas.

“Tem havido aqui muita política com a campanha de vacinação”, diz Nupur. Em janeiro, a aprovação da Covaxin foi acelerada antes de passar pela fase três dos ensaios, enquanto que a Covishield ainda não tinha concluído os ensaios clínicos na Índia antes de ser aprovada. Nupur prefere esperar para receber uma vacina da Pfizer ou da Moderna. “Quando se trata dos meus filhos, não quero correr riscos absolutamente nenhuns”, diz Nupur.

Até lá, Nupur vai continuar em isolamento na sua casa em Noida, uma cidade satélite a 50 quilómetros da capital. Nupur está num quarto separada do marido, que é advogado e sai de casa todos os dias para trabalhar, e separada do filho de cinco anos.

“Estávamos muito felizes por eu estar novamente grávida, mas agora sinto-me ansiosa e sozinha o tempo todo”, diz Nupur. “Este vírus mudou tudo.”

Quando é que as mulheres grávidas recebem as vacinas?

Apesar de o governo indiano esperar uma aprovação para vacinar mulheres grávidas com base em novas informações, os médicos estão céticos de que isso aconteça em breve. A recolha de dados sobre segurança vai demorar, uma vez que as vacinas administradas na Índia são diferentes das aprovadas para mulheres grávidas nos outros países. Na Índia, a autoridade que aprova a elegibilidade das vacinas é o Ministério da Saúde e Bem-Estar da Família, que analisa os dados recolhidos por um grupo técnico nacional antes de conceder a sua permissão para uso.

Existem formas mais eficazes de recolher e fazer a revisão de dados sobre mulheres grávidas, diz Hema. Algumas mulheres grávidas desejam participar nos ensaios clínicos, enquanto que outras podem ter engravidado sem saber após a vacinação. Até agora, porém, o grupo técnico nacional não acolheu estas sugestões e o seu processo de recolha de dados permanece obscuro.

Para além disso, vai ser mais difícil prioritizar as mulheres grávidas durante a atual escassez de vacinas que o país enfrenta. Em janeiro, o governo encomendou apenas 15.5 milhões de doses para uma população de 1.4 mil milhões de pessoas. Quando os casos dispararam em março, a Índia fez outro pedido de 110 milhões de doses, mas os fabricantes de vacinas no país estão com dificuldade em responder à demanda. Dado este cenário, as mães lactantes já mal conseguem ser vacinadas e, quando as gestantes forem eventualmente aprovadas, terão de se tornar na prioridade principal dos centros de vacinação.

“Vai ser um pesadelo para o governo se negarem as vacinas a estas mulheres”, diz Hema.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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