Os problemas cardíacos após a vacinação são muito raros – e muitas vezes resolvem-se rapidamente

Novos dados dos CDC dos EUA sobre miocardite após a segunda dose de uma vacina mRNA sugerem que os benefícios ainda superam os riscos.

Publicado 28/06/2021, 11:02
vacina

Um profissional de saúde coloca um penso rápido numa paciente após administrar uma dose da vacina Pfizer-BioNTech no Centro Médico de Boston, em Massachusetts, no dia 17 de junho de 2021. O primeiro surto da pandemia encheu o Centro Médico de Boston com pacientes com COVID-19: 229 pacientes no último pico registado na primavera, enchendo quase dois terços das camas do centro. Na semana passada, a contagem de casos foi zero.

Fotografia de Adam Glanzman, Bloomberg via Getty Images

Um adolescente chegou ao Hospital Universitário de Ciência e Saúde de Oregon em finais de abril com dores no peito que começaram repentinamente. Uma ressonância magnética revelou miocardite: um inchaço no músculo cardíaco. É algo que os médicos deste hospital em Portland veem nos jovens algumas vezes por ano, diz Judith Guzman-Cottrill, médica pediátrica e  infeciologista.

Porém, o momento em que o jovem foi admitido no hospital chamou a atenção de Judith: poucos dias antes do início dos sintomas, o rapaz tinha recebido a segunda dose da vacina COVID-19 da Pfizer. Algumas semanas depois, Judith recebeu um telefonema de um colega em Atlanta que lhe falou sobre um paciente semelhante com miocardite, que também tinha surgido dois dias após a segunda dose da vacina da Pfizer. No mesmo dia, Judith recebeu notícias por email de mais dois casos no Connecticut.

“A miocardite em si não é algo extremamente raro ao ponto de pensarmos que deve ser uma nova doença”, diz Judith. “Mas quando percebi que eram quatro novos casos – todos rapazes saudáveis que desenvolveram dores no peito, pensei que eram demasiados casos para ser coincidência.”

No dia 11 de junho, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos registaram 323 casos confirmados de miocardite e pericardite, uma condição relacionada, entre pessoas dos 12 aos 29 anos, casos documentados maioritariamente uma semana depois de cada paciente ter recebido uma das vacinas mRNA produzidas pela Pfizer-BioNTech e Moderna. Este número, anunciado na semana passada pelo Comité Consultivo sobre Práticas de Imunização (ACIP) dos CDC, é uma revisão da contagem anterior que visa incluir dados de crianças dos 12 aos 15 anos, um grupo que nos EUA obteve autorização para receber a vacina da Pfizer em maio.

Até agora, a miocardite pós-vacinal era mais relatada entre pessoas no final da adolescência e início dos 20 anos, de acordo com o relatório do referido comité. A miocardite tem mais probabilidades de acontecer após a segunda dose da vacina e acontece com mais frequência em rapazes adolescentes e jovens adultos do que em raparigas e mulheres.

No geral, as taxas de miocardite e pericardite pós-vacinação são mais elevadas do que as que normalmente se verificam devido a outras causas, disse Tom Shimabukuro, da Task Force de Vacinas COVID-19 dos CDC, durante a reunião do comité feita no dia 23 de junho, onde foram anunciados os resultados. Mas estes casos permanecem raros, e a grande maioria dos pacientes respondeu rapidamente aos tratamentos.

“Continua a ser um evento raro”, disse Tom Shimabukuro. “Os dados disponíveis são tranquilizadores e indicam que os pacientes recuperam bem dos sintomas.”

O que é miocardite?

Quando os jovens desenvolvem miocardite ou pericardite (inflamação do revestimento em torno do coração), as causas costumam ser uma infeção viral. Os enterovírus como a estomatite vesicular estão entre os gatilhos mais comuns, e estas infeções acontecem mais durante o verão, diz Jeremy Asnes, chefe de cardiologia pediátrica da Escola de Medicina de Yale em New Haven, no Connecticut. Também há evidências de miocardite após a vacinação contra a varíola.

Para compreender o aparente aumento de miocardite nos adolescentes em abril, Judith Guzman-Cottrill e os seus colegas analisaram detalhadamente os resultados de sete rapazes saudáveis, entre os 14 e os 19 anos, que precisaram de cuidados para dores no peito em abril ou maio. Em todos estes casos, os sintomas começaram quatro dias após a segunda dose da vacina da Pfizer-BioNTech. Os testes confirmaram miocardite ou pericardite. Todos os rapazes recuperaram rapidamente, e três receberam apenas analgésicos comuns, como ibuprofeno, como tratamento, de acordo com as informações avançadas pela equipa num artigo publicado este mês.

Estas descobertas refletem as de outros casos relatados nos Estados Unidos e em Israel, que sugeriam que a miocardite pós-vacinal acontece com mais frequência nas pessoas mais jovens, sobretudo nos homens, diz Matthew Oster, cardiologista pediátrico e epidemiologista do Centro Pediátrico de Atlanta e membro da Task Force de Vacinas dos CDC, que falou na reunião do ACIP. Em todos estes relatórios, os casos são geralmente ligeiros e a recuperação tende a ser relativamente rápida, com alta hospitalar no espaço de dois a quatro dias, em vez de seis, como é comum nos casos mais tradicionais.

“Parece desaparecer mais depressa do que a miocardite típica”, disse Matthew na reunião. “Estou otimista em relação a isso.”

Os novos dados são consistentes com as evidências anteriores. Entre os 323 casos confirmados até agora, 309 foram hospitalizados, disse Tom Shimabukuro. Entre estes, 295 tiveram alta e 218 recuperaram de todos os sintomas. Nove permanecem hospitalizados e dois estão na unidade de cuidados intensivos. A maioria dos relatos de miocardite aconteceu nos primeiros dias após a vacinação, nomeadamente após a segunda dose. Os casos atingem mais as pessoas no final da adolescência e início dos 20 anos, e diminuem gradualmente após os 50 anos.

Os números dos CDC também refletem o que os médicos estão a identificar nas suas próprias instituições. Jeremy Asnes diz que em New Haven a sua equipa cuidou de 10 pacientes com miocardite pós-vacinação que tinham menos de 21 anos, e quase o mesmo número com mais de 21 anos. Stuart Berger, cardiologista pediátrico da Escola de Medicina Feinberg da Universiadade Northwestern, em Chicago, diz que o seu grupo viu seis casos confirmados de miocardite, principalmente em rapazes com 16 anos ou mais. Todos foram ligeiros e incluíram dores no peito que passaram rapidamente.

“Tem sido esta a experiência descrita pelos CDC”, diz Stuart, que também é porta-voz da Academia Americana de Pediatria. “E tem sido a experiência que os nossos colegas e outras instituições descrevem.”

Detetar efeitos secundários raros

Com os dados do Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacinas (VAERS), que permite a qualquer pessoa relatar qualquer potencial problema relacionado com vacinas, e o Vaccine Safety Datalink, que usa dados eletrónicos de saúde de nove organizações de saúde dos EUA, a equipa do ACIP calculou uma taxa de 12.6 casos de miocardite ou pericardite por milhão de pessoas, no prazo de 21 dias após a segunda dose de qualquer vacina mRNA, em pessoas dos 12 aos 39 anos.

Os CDC continuam a investigar os relatórios submetidos no VAERS, e Tom Shimabukuro alertou contra o foco excessivo na taxa estimada de casos para orientar uma tomada de decisão em ambientes clínicos. Mas, em entrevista, os especialistas afirmam que o risco parece ser baixo em comparação com o número de vacinas administradas.

Nos EUA, até ao dia 22 de junho, mais de três milhões de jovens de 16 e 17 anos já tinham recebido pelo menos uma dose da vacina, e mais de quatro milhões de jovens dos 12 aos 15 anos começaram a vacinação. “Este denominador é muito reconfortante para mim”, diz Judith, cujos filhos de 13 e 16 anos já foram vacinados, e um deles tem uma doença autoimune.

As taxas de miocardite não estão a explodir, acrescenta Judith, mesmo com o aumento do número de vacinas. “As nossas salas de emergência não estão cheias de adolescentes com dores no peito.”

Ligação entre vacinas e miocardite

Os cientistas ainda não sabem como é que a vacina pode estar a provocar miocardite. A teoria mais relevante, de acordo com Matthew Oster, envolve uma resposta de citocinas – a reação das moléculas inflamatórias que levam as células imunitárias a reagir. Isto poderia explicar porque é que esta condição aparece tão depressa após a vacinação, isto nos casos em que acontece. Os ensaios clínicos mostraram taxas mais elevadas de efeitos secundários, como febre, dores musculares, calafrios e fadiga nos jovens em comparação com os adultos mais velhos, e estes sintomas são provocados por inflamação, diz Judith. Portanto, faria sentido que a miocardite fosse outra resposta inflamatória no espectro mais grave.

O mecanismo após a vacinação é diferente do que acontece na reação aos enterovírus, acrescenta Jeremy. Em vez da invasão direta de um vírus no tecido cardíaco, é o próprio sistema imunitário que afeta o coração após a vacinação.

“Em alguns pacientes, deve haver alguma reatividade cruzada entre a resposta imunitária à vacina e os músculos do coração”, diz Jeremy.

Os hospitais têm adotado abordagens diferentes para o tratamento da miocardite pós-vacinal, que vão desde medicamentos sem prescrição a medicamentos intravenosos e esteroides. A compreensão destes mecanismos, e os estudos de acompanhamento a longo prazo, devem ajudar a determinar as melhores estratégias de tratamento. Um estudo mais aprofundado também pode explicar porque é que esta condição é mais comum entre os homens, e quanto tempo se pode esperar de uma recuperação. Judith planeia examinar novamente os seus sete pacientes em agosto, três meses após o diagnóstico inicial.

Levando em consideração os números mais recentes, e o risco bastante real de complicações graves de COVID-19 entre os jovens, incluindo síndrome inflamatória multissistémica, os especialistas continuam a recomendar a vacinação para os adolescentes.

“Entre os pacientes desta faixa etária que observámos, e que foram adversamente afetados pela COVID, houve alguns casos muito graves, pelo que continuo a acreditar que a vacinação é apropriada”, diz Jeremy. “Tal como em qualquer novo tratamento, temos de manter os olhos abertos. E é isso que estamos a fazer.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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